Sempre me entusiasmo com a leitura dos relatos Peregrinos. Cheguei a descrever a minha Peregrinação e anexei a fotografia do meu corpo etéreo na Catedral de Santiago durante a Missa do Peregrino. Guardei as lembranças da "Peregrinação", acompanhando as minhas peregrinas (Inês e Selma) em suas andanças no Camino.
Mais uma vez o Caminho de Santiago me convocou para percorrer o campo das estrelas.
Lembrar a caminhada anterior, com suas bolhas de apreensão, o sono interrompido, as refeições fora dos padrões, os banhos apressados etc...
Lá vai a Patroa para o aeroporto, com a sua fiel escudeira acompanhando-a, rumo a Madrid, Roncesvalles e outras plagas e cidades.
As despedidas de um grupo de Peregrinos que parte, por um grupo de Peregrinos que fica e por famílias que torcem para o sucesso dos andarilhos e pedem notícias breves.
Falta coragem para os últimos acenos, as lágrimas teimam em brotar dos olhos de todos, disfarçadas por uma gritaria de adeus.
Voltar para casa e aguardar o início da caminhada, retornando à velha rotina de mapas, calculadora e computador, mal dormir, mal comer e mal viver.
Ao sofrimento da caminhada junta-se uma série de cirurgias na boca, um total de 21 pontos em três diferentes ocasiões.
Ser peregrino "desbocado", sem poder comer e com dificuldade de falar, é dose...
Além da forçada reclusão no aguardo das notícias, a falta de apetite é agravada pela dificuldade de comer o "menu do peregrino", de beber na fonte de Irache particular e de falar ao vivo ou pelo fio do telefone.
A parentada telefonando para saber das últimas, com o questionário dos não iniciados: Onde estão? Quanto andaram? Quanto falta? Como está o tempo por lá?
A cada dia, os Peregrinos que aqui ficaram fazem as perguntas dos iniciados, em foco o "onde estão" e "o físico", porque Peregrino que se preza relembra aquilo por que passou na sua caminhada.
Os amigos-irmãos que tomam conhecimento das agruras do "Peregrino de Ipanema" com a sua desditosa boca, interessam-se pela saúde física e mental deste caminhante-escriba.
Convites que são agradecidos e recusados pela incapacidade de falar e comer.
A cada toque do telefone, um sobressalto.
Serão notícias ou meras conversas?
Ser Peregrino em casa é fogo...
Cara inchada, bolsa de gelo nas bochechas, sono atrasado, mulher caminhando em direção a Compostela, é uma mistura que não aconselho para nenhum ser vivente.
Nas mãos, além da parafernália que repousa junto ao computador, uma tabelinha com os dias correspondentes à caminhada, em seus quadrinhos bem comportados, que vão sendo riscados na medida em que vão passando...
Faltam tantos, já se passaram tantos...
Mais um dado complicador : chuvas e mais chuvas fora de época, infernizando as meninas.
Pensamento voltado para os livros e relatos que foram lidos e relidos, chuva no lombo do Peregrino não é brincadeira, lama nos pés é péssimo, roupa molhada e todos os problemas acarretados pela chuva, trazem mais apreensão.
Mas os dias estão passando e Compostela se aproxima, inexoravelmente, o grande troféu está à vista e quase nas mãos. Finalmente, acabou...
Agora é aguardar o regresso ao Brasil, informando aos amigos-irmãos e aos de casa a previsão de chegada.
Dia 12 de julho, Aeroporto Tom Jobim, chegada e alegria, choro e abraços, beijos e fotos.
Ser Peregrino de Ipanema é uma experiência e tanto.
Ter Peregrinas no Camino é sofrer no paraíso.
Pensar que algo pode sair da normalidade, que o físico pode reclamar as agruras dos tantos passos em direção à meta, que a chuva pode ter trazido conseqüências e tantos outros pensamentos que ocorrem, só podem ser suplantados pelo otimismo e pela fé em Santiago, que protege os seus Peregrinos e os leva em segurança até a Catedral.
Mais uma coisa tem que ser acrescentada: a associação está roubando a Peregrina do Peregrino e o sofrimento da nova caminhada no ano que vem, 2003, são dados novos para digitar e computar no HD da mente, com todos os "bugs" que acarretam.
Vale tudo quando a alegria de mais uma vitória e a realização de um sonho são conseguidos pela mulher que a gente tem como companheira para a vida.
Dedico o meu pensamento a todos os que fazem o Caminho e aos que aqui ficam; em ambos os casos somos todos heróis; sofremos as dificuldades de andar ou de esperar...
Kenneth
R E L A T O S