Bolhas
Estetoscópio

Durante o Caminho, os pés são os melhores amigos dos peregrinos. Antes de falarmos sobre o tratamento das bolhas é importante que conheçamos a estrutura dos pés. Acredito que seu conhecimento propicie de forma mais eficiente a profilaxia, a prevenção das bolhas.

Os pés são estruturas que se adaptaram durante milhares de anos às funções, dentre outras, de suportar o peso do corpo e de servir de plataforma no complexo mecanismo de caminhar. A pele do corpo é formada por uma superfície espessa, externa, chamada de epiderme. Abaixo dela existe uma superfície viva, celular, rica em vasos capilares, e dezenas de milhares de terminações nervosas. A superfície do pé de cada indivíduo tem peculiaridades próprias e está relacionada à atividade de cada um. Alguns de nós têm um comportamento extremamente sedentário, o que se reflete no pé, que mostra uma superfície lisa e sem calosidade. Outros, tem uma atividade intensa, andando sempre de um lado para o outro e possuem as superfícies dos pés extremamente espessas. Este é um dos motivos pelos quais pessoas que caminham a mesma distância tem experiências diferentes. No que se refere a bolhas, eu imagino que os peregrinos na Idade Média tinham menos problemas com os pés do que os atuais peregrinos, pois o caminhar e a atividade física faziam parte do seu dia-a-dia. Possivelmente, aqueles peregrinos apresentavam uma epiderme (a superfície dos pés) extremamente espessa e pouco propícia à formação de bolhas. De uma maneira geral, quanto mais espessa a superfície dos pés, menor é a tendência ao desenvolvimento de bolhas.

A bolha é formada a partir de uma irritação contínua da superfície interna da pele, ou derme, que, como vimos acima, é uma camada de células ricas em vasos capilares e milhares de terminações nervosas. Isto causa a transudação de um líquido rico em proteínas que fica delimitado entre a derme e a epiderme, causando intensa pressão nas terminações nervosas e ocasionando intensa dor. A causa mais comum é o atrito dos pés nas botas e o atrito entre os dedos dos pés. Caminhar 20-30 quilômetros a pé, diariamente, por 27-33 dias, podia ser normal na Idade Média, porém, é uma anormalidade nos dias de hoje. Alem do mais, com 8-12 quilos nas costas, por mais confortável que seja a mochila e perfeita a técnica de centralização do peso, é um agravante adicional que propicia um maior trauma nos pés. Outras causas comuns são as botas ou tênis incômodos, meias com dobras nas plantas dos pés, peso excessivo da mochila, distribuição do peso da mochila descentralizado (ou seja um lado da mochila mais pesado do que o outro), corpo estranho dentro das botas e andar com os pés úmidos.

Como podemos prevenir as bolhas nos pés?

Pelo exposto, já podemos deduzir algumas formas de prevenir o aparecimento das bolhas. Como por exemplo: evitar caminhar com os pés molhados, usar perneiras para evitar a entrada de água nas botas, entre a bota e a perna - todas as botas são vulneráveis neste local - e o amaciamento das botas ou tênis antes do Caminho. Evite as dobras das meias não usando meias acima do tamanho necessário. Eu prefiro usar as meias um pouco justas, comprando-as um tamanho menor. Mantenha a higiene dos pés, remova rapidamente corpos estranho que entrem nas botas, não utilize cremes que amoleçam as plantas dos pés, evite peso excessivo na mochila e coloque o peso na mochila de forma centralizada e balanceada. As coisa pesadas devem ir no centro e junto ao corpo - evitando que um lado da mochila seja mais pesado do que o outro e prevenindo uma sobrecarga desnecessária em um dos pés. Utilize, se necessário, palmilhas de gel, que amortecem o impacto nos pés. Em caso de dor nos pés durante as caminhadas preparatórias, é interessante visitar um Ortopedista.

Uma coisa é certa: as bolhas dos pés não são um sofrimento necessário no Caminho. Teremos muitas coisas para nos ocuparmos e não necessitaremos de mais nenhuma. Definitivamente, as bolhas não fazem parte do Caminho e não existe nada de místico em relação às bolhas. Elas, na realidade, são inconvenientes e devem ser evitadas. Eu conheci vários peregrinos que desistiram do Caminho por causa das bolhas nos pés. Eu tive alguma experiência de como evitar bolhas nos pés durante minha preparação de alguns meses. Durante meu primeiro Caminho em setembro 2001, feito em 31 dias a partir de SJPP, tive uma bolhinha, apesar de todo cuidado.

Durante minha caminhada em abril de 2002, em rumo para "EL Cebreiro", peguei forte chuva a qual literalmente encharcou minhas botas. Andei algumas horas com os pés molhados e como resultado tive tres bolhas as quais surgiram rapidamente. Portanto e extremamente importante evitar que os pes se umedeçam durante a caminhada. O que passo a descrever é uma coletânea de fatos obtidos dos trekistas profissionais, maratonistas e veteranos do Caminho (minha esposa inclusive) e além da minha própria experiência em setembro de 2001 e abril de 2002. Entretanto, existem vários outros métodos para evitar bolhas. Comece a prevenção dois ou três meses antes do Caminho. Massageie os pés com álcool após as caminhadas e após o banho quente. O álcool desidrata a epiderme, ou seja, a camada mais externa do pé, aumentando sua espessura e diminuindo a chance de formação de bolhas. Leve uma garrafa plástica de álcool com você no Caminho - é de fácil aquisição nas farmácias locais. Adquira o hábito de parar após 3-4 horas de caminhada. Retire as botas e massageie os pés com álcool, principalmente em algum ponto dolorido. Durante a caminhada pare sempre que sentir algum desconforto nos pés e os massageie vigorosamente, mas com carinho. Adquira o hábito de não molhar os pés pela antes de caminhar. Massageie os pés com vaselina, nas plantas dos pés e entre os dedos. A vaselina reduz o atrito do pé com a bota e dos dedos dos pés. Coloque uma meia de algodão fininha, de preferência sem costura, (as mesmas utilizadas pelos pacientes diabéticos) para prevenir trauma na superfície dos pés. Coloque um segundo par de meias de Coolmax ou Smartwool. Essas meias são espessas e macias, diminuindo o trauma nas plantas dos pés. Elas também permitem que a umidade seja evaporada dos pés, mantendo-os secos. Eu, pessoalmente, acho que a meia fininha, de algodão, é ótima para evitar que a vaselina entre em contato com a Coolmax ou Smartwool. As botas devem estar bem calcadas, sem folga ou aperto desnecessários. Eu sou fã incondicional do bastão de caminhar. Na realidade, caminho com dois. Acho que dá sustentação, equilíbrio e estabilidade nas descidas e subidas acentuadas, poupando os pés, músculos, tendões e ligamentos. Os dois bastões foram meus companheiro inseparáveis durante minhas duas caminhada a Santiago em setembro de 2001 e e abril de 2002.

Como tratar as bolhas dos pés?

Durante o meu Caminho, em Setembro de 2001 e em abril de 2002, eu tive a oportunidade de tratar dezenas de bolhas. É impressionante como os peregrinos desconhecem os princípios básicos. Eu me lembro de minha primeira paciente, uma francesa de 70 anos, sentada, alguns quilômetros após Rocenvalles, com as pernas para cima e as bolhas ocupando a maior parte de ambos os pés. Caminhava desde o sul da Franca, com botas rígidas, com meias inapropriadas e sem vaselina. Deixei um tubo de vaselina com ela e, para minha surpresa, a encontrei em um albergue já perto de Santiago. Com os pés sarados, ela me afirmou que não tinha vindo de ônibus ou táxi. Ainda hoje paira um pouco de satisfação com a sua recuperação e dúvidas quanto ao seu meio de locomoção.

Após toda tentativa de prevenir as famosas bolhas nos pés você é vitima de uma. O que fazer? Pense duas vezes antes de "costurar sua bolha". Se for uma bolhinha ou se for profunda, melhor aplicar o Compeed. Este é um tipo de adesivo com uma superfície espessa, a qual amortece o impacto no local, aliviando a dor. Se a bolha for média ou grande, superficial, com dor, teremos que drenar ou retirar o liquido, o qual faz pressão nas terminações nervosas, causando dor. A presença de uma bolha dolorosa propicia o aparecimento de outras bolhas pela defesa voluntária ou involuntária que fazemos para aliviar a dor, colocando um peso maior no lado oposto. Após lavar o pé envolvido, com água e sabão, coloque álcool iodado na superfície da bolha, esfregando com cuidado. Lave as mãos meticulosamente. Leve consigo algumas agulhas com linha esterilizada, de algodão ou nylon 2-0, compradas em casa de material médico. Outra alternativa (muito menos segura) é utilizar agulha e linha normal, imersa em água oxigenada. Evite colocar a agulha e linha em álcool iodado pois seu contato com a derme inflamada é extremamente dolorosa - embora o álcool iodado seja o mais adequado como bactericida. Mesmo com cuidados especiais não se pode evitar totalmente uma infecção. Deve-se costurar a bolha, deixando a linha de fora em ambos os lados, para servir como dreno. Pressione a bolha com cuidado até que boa parte do líquido seja retirado. O resto será drenado durante a noite. A dor desaparecerá por completo. Procure fazer isto antes de dormir. Pela manhã retire o dreno. Não ande com o dreno para não traumatizar a derme. Não tome banho com o dreno. Coloque um bandaid no local e inspecione frequentemente. Teoricamente, a agulha e a linha podem se tornar um veículo para a introdução de bactérias dentro da bolha. Se houve uma drenagem de pus, procure um medico. As bolhas com líquido purulento ou sanguíneo devem ser levadas a atenção de um profissional, principalmente se for acompanhado de febre ou calafrios. Uma alternativa é fazer dois cortes na bolha, em faces opostas, para retirar o líquido. Este método torna mais difícil o processo de cura.

O bom senso indica de que devemos ser contra, alguém praticar algo que possa ser mais prejudicial do que a própria bolha. Uma infecção é algo que acontece e será algo muito mais sério do que uma bolha. Convivi com a dor e a aflição de muitos amigos no Caminho. Não aconselharia ninguém a costurar uma bolha sem equipamento completamente esterilizado, inclusive com luvas.

A historia natural da bolha é a absorção de liquido e o desaparecimento dos sintomas, alguns dias após a retirada do agente irritante. Em alguns casos é desfazer-se das botas e parar as caminhadas. As vezes as botas podem ser substituídas por um tênis, porém a caminhada continua como agente irritante.

Portanto um aviso aos futuros peregrinos: as bolhas dos pés devam ser prevenidas a todo custo; e pense duas vezes antes de costurar sua bolha.

Contribuição de JAN. Médico cardiologista intervensionista e clínico geral, radicado em Cleveland, Ohio, USA.