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Via Láctea - Pelos Caminhos de Santiago de Compostela

Guy Veloso

Os Quatro Elementos

Uma forte neblina cobria as matas que rodeavam San Juan de Ortega, dificultando o trajeto pela baixa visibilidade. Por pouco não me perdi entre vários ramais camponeses abertos aos prados. À medida que caminhava, ia encontrando enormes cruzes de madeira fincadas no solo que, além de servirem como pontos de referência, davam, misturadas à bruma, uma visão surreal, enigmática.

Elas pareciam brotar da terra. Eram muitas, dezenas delas espalhadas ao longo do traçado até Burgos, como se ali estivessem somente para lembrar que o Caminho de Santiago também era de sofrimento, de obstáculos; mostrando o preço que todos haveriam de pagar antes de conquistar seus ideais maiores. Aviso para que não fossem esquecidas a humildade e as experiências, boas ou ruins; carregando-as, dia a dia, junto com nossas cargas. Nosso fardo.

E a mochila pesava nas costas e os sapatos feriam cada vez mais os pés.

O percurso bifurcava-se em três vias possíveis, levando-me a escolher a mais ordinária, não por isso menos autêntica. De lá para frente, mais precisamente até a entrada da Galiza, o trajeto seria quase sempre plano, assentado sobre a antiga estrada militar romana Burdeos-Astorga, também chamada de Via Traiana.

Por roteiros de terra nua cruzei pomares, lavouras, páramos e vilarejos tranqüilos. Em um deles, Cardeñuela, uma fonte de pedra construída pelos romanos, seguia for­necendo água aos caminhantes. Ao lado, em um muro estava pintado em letras garrafais algo que todo o concheiro a passo por lá gostaria que não lhe fosse recordado: "A Santiago, 476 km".

Fazendo as contas, avizinhava-me de Burgos pelos belos montes verdes que flanqueavam a zona leste da cidade, seguindo pedras dispostas no chão em forma de flechas, vendo ao longe a metrópole que se estendia à esplanada.

Ali, juntei-me ao alegre grupo de espanhóis, os "quarentões". Com alguma dificuldade, atingimos a zona industrial, traspassando viadutos e auto-estradas, sempre com atenção redobrada pelo trânsito pesado de carretas e caminhões.

Meus colegas estavam muito bem dispostos, cantando músicas típicas de suas regiões. Também, não era por menos: eles viajavam sem nenhum peso nas costas, já que tinham fretado uma perua que levava suas cargas até o albergue predeterminado. Malandros, nada!
Eu, ao contrário, estava mudo, extenuado demais para esconder um certo mau humor, aumentado pela perda do sabor brejeiro do itinerário que ora contrastava com a poluição das fábricas e carros.

Eles me ofereceram o serviço do automóvel, o qual neguei terminantemente. Do mesmo modo agia a quem se apresentava para carregar a minha pesada mochila pelos longos quilômetros de subúrbios. Um dos peregrinos até propôs que todos revezassem nesse trabalho.

E, quando a insistência em ajudar-me já se tornava mais estafante que a gravidade sobre minhas costas, um deles falou:

- Deixem o brasileiro em paz. Cada um sabe como carregar a sua cruz.

Burgos é a maior cidade de todo o Caminho. Levantada ao lado do rio Arlanzón, teve seu desenvolvimento vinculado às tradições jacobebas, já que ali se cruzavam o Real Caminho Francês com uma das várias Rotas Marítimas que traziam devotos da Grã-Bretanha e de outras regiões insulares e que, a partir daquele ponto, avançavam por terra até a Galiza. No século XV, chegou a ter 32 hospedarias de peregrinos.

Instalado no albergue municipal, pela tarde conheci o belíssimo centro histórico-monumental de um lugar cheio de vida, como as grandes capitais européias. Sua Catedral, gótica, iniciada no ano de 1221 e só concluída no século XVI, era uma das maiores e mais afamadas nesse estilo, comparável às de Amiens, Reims, Chartres, Paris, Viena e Colônia.

Dezenas de pináculos e torres de pedra rendilhadas de gárgulas apontavam para o céu, serenas de sua glória. Arcobo­tantes sustentavam o colosso, ricamente adornado com imagens de santos e reis. Uma cúpula gigantesca terminada com estrela de oito pontas intercedia as naves laterais e central.

Em seu interior não menos magnífico, refugiei-me em uma de suas inúmeras capelas. Lá, uma escultura de Jesus pregado na cruz, de tão realista, recaía a lenda de que seus cabelos e unhas cresciam cada semana a olhos vistos.

Nada mais natural: o Caminho de Santiago já me fazia achar bastante comum um santo se materializar na terra e lutar lado a lado com valorosos soldados, assim como um galo assado cantar e estátuas de madeira exalarem um pouco de vida.

- Recomendações ao nosso apóstolo! - um aldeão que capinava à beira da via rústica pediu que eu levasse suas preces a São Tiago. Sua esposa descansou também a enxada, gritando de longe: - Por que o peregrino anda sozinho? Deve ser muito triste!

O tempo estava encoberto ao abandonar Burgos por uma estrada rural. A etapa prometia ser amena, sem nenhuma subida. Apareceram novas e imensas bolhas em meus pés; mas, antevendo um aprazível passeio através dos ermos campos de Castela, não dei muita importância.

No livro de visitas do abrigo, havia achado o registro de mais um andarilho brasileiro, Fernando, que ali passara cinco dias antes. Como provavelmente não o alcançaria, utilizei os "Correios Peregrinos" para enviar-lhe um "alô".

Tudo muito prático: entreguei o bilhete ao encargo de um peregrino-ciclista que tiraria essa diferença em dois ou três dias.

Incrível pela sua simplicidade, esse método era muito usado por grupos que, ao longo da viagem, iam desagregando-se, pois àquela altura tornava-se difícil acompanhar a "passada", o ritmo dos outros, às vezes fraco ou forte demais, mostrando como o Caminho ao mesmo tempo podia unir como também separar as pessoas.

E assim, em um conjunto de rotas desertas e rudimentares, sem telefones ou fax, os peregrinos vão se comunicando à distância, enviando e recebendo mensagens. Se para trás, pondo recados nos livros dos albergues. Se para a frente, através dos ciclistas. Era essa a técnica.

Passei por alguns povoados interessantes, fazendo como sempre questão de conhecer, fotografar e conversar com a população local. Com isso, muitas vezes demorava o dobro do tempo normal para atingir os objetivos.

Naquele dia caminhei lento, aproveitando a paisagem extensa da planura e os encontros amigáveis até Hornillos del Camino. Um pouco adiante, cheguei a um refúgio solitário em meio à grande meseta, o Arroyo Sambol, um galpão construído aos prados e cultivos, milhas distantes de qualquer povoação, com a finalidade de não desviar o autêntico traçado medieval que passava por ali há séculos contínuos.

Lá, estava só um casal de franceses. Eles haviam elegido aquela estalagem longínqua - sem colchões nem banheiro - seu lar por um dia e juntavam gravetos secos para uma fogueira que iluminaria sua noite naquele retiro.

Ajudei-os nesse trabalho logo descobrindo, pasmado, que ambos caminhavam há mais de três meses, desde que bateram a porta da sua casa e saíram andando desde ali, em Mont Saint-Michel, na Normandia.

Aos poucos foram chegando alguns aldeões de vilas adjacentes que, além de muitas histórias, traziam vinhos, queijos e salames. O mais idoso deles, sem maiores pudores, pegou a minha camisa da seleção que ora secava ao sol e agradeceu o "presente", recordando alegremente dos tempos de Pelé. Fazer o quê?

Após o banquete, resolvi partir, descansado e ávido para vencer mais algumas léguas pela ancestral Via Traiana, enquanto o velho agricultor vestia, feliz, "sua" camisa - com o 10 nas costas - ainda úmida.

Marchei através de campinas despovoadas por mais algumas horas. Eram plantios e pastagens ainda com as cores da primavera, estação que há pouco havia cedido seu lugar. O calor encharcava minha camisa pregada no corpo pelo suor, enquanto progredia solto, com a liberdade de andar para onde o nariz - e as flechas amarelas - apontavam.

A trilha tornava-se cada vez mais estreita, na largura exata de um pequeno trator. Por perto não tinha vilarejos, granjas nem mesmo currais de gado. Ninguém ao redor, muito menos carros ou máquinas. Somente uma densa vegetação rasteira estendia-se até onde a vista alcançava. Arbustos verdes em distintas tonalidades, flores do campo que também balançavam ao vento forte, em um horizonte colorido sem fim.

Havia também os passarinhos. Vinham de todas as partes, mais curiosos do que assustados. Sobre a minha cabeça faziam movimentos sincronizados e malabarismos diversos. Não paravam de cantar e davam a impressão de que voavam cada vez mais perto. E eram muitos.

Cantei alto junto com eles. Uma só música, em outro tom. Talvez tenha até dançado de mochila e tudo, não lembro. Acredito que a magia do local me tomou por inteiro.

De tão lento, resolvi parar por uns instantes em meio a uma plantação de trigo. Hipnotizado, senti uma comunhão com aqueles ramos dourados, aquela fragrância seca e com os raios solares que beijavam meu rosto.

Somente algum tempo depois, percebi que não tinha ali parado por acaso ou até mesmo por vontade própria. Era como se algo me convidasse a ficar. Parecia que há muito tempo eu já havia feito aquilo.

Passei a recordar meus dias de peregrinação. Lembrei-me da chuva, minha companheira na travessia dos Montes Pireneus. O sol flamejante das jornadas em Navarra. E o vento doce com o cheiro dos vinhedos de La Rioja.

Água, fogo, ar: faltava ainda um reino.

Em um impulso irresistível, joguei-me ao solo, um tapete ondulado de arbustos, sem medo de sujar as roupas ou de irritar a pele já muito castigada pelo sol. Toquei naquele solo rugoso e encostei meu ouvido esquerdo no que parecia ser o centro da terra.

Estirado ao chão, escutei algo. Um som vindo do coração do planeta. Inconfundível, pois ali apenas havia eu, a brisa e os pássaros a fazerem ruídos.

O tempo parou. Não havia dia nem noite. Nem horas ou segundos. Tudo porque a terra, o quarto elemento, estava falando em seu pulsar comigo. Naquele momento, éramos um só latejo de ventrículos.

Abri os olhos e tudo começou a girar. Virei-me de costas ao solo, abri meus braços e contemplei o imenso céu azul de nuvens brancas e cheias que se moviam numa velocidade assustadora, ao mesmo tempo que demonstrava uma proteção e intimidade que nunca havia percebido.

Comecei a reparar em como era o mundo visto daquele ângulo. Na altura dos olhos, os tufos de mato pareciam altas árvores, quase inatingíveis. Por elas, uma aranha - então colossal - passeava pelos seus grossos e fartos galhos. Uma abelha tornava-se vistosa águia sobrevoando suas copas frondosas, enquanto me cumprimentava.

Sim, eu vi outro mundo! Um mundo verdejante, panteístico. Senti-me pequeno a ponto de fazer parte daquela densa floresta de relva gigantesca, águias amarelas que zumbiam e de gotas de orvalho que poderiam facilmente encher meu cantil.

E meu peito tomou-se de entusiasmo por pertencer a esta, agora também minha, terra azul e verde.


©Guy Veloso, guyvel@amazoz.com.br.
"Via Láctea - Pelos Caminhos de Santiago de Compostela"
Ed. Tempo d'Imagens, 3ª edição (ilustrada com fotos).

Livro recomendado pela Associação de amigos do Caminho de Santiago - Brasil.
Obra sugerida pelas Revistas Terra, Horizonte Geográfico, Bons Fluidos, Nova e Planeta.
Mais informações: www.santiago.com.br