Livro Completo

Minha Peregrinação

- José Roberto Dodl

Parte I - Introdução

Num certo dia de abril de 2002...

A Sônia e eu tomávamos o café da manhã, conversando, como de hábito, quando ela, de repente, olhou fixamente para mim e perguntou: Você faria novamente o Caminho de Santiago? Seus olhos brilhavam! Um sorriso e alguma ansiedade aguardaram por alguns segundos minha resposta. Surpreso com a pergunta, mas ao mesmo tempo antevendo a possibilidade de repetirmos aquela aventura, que nos encheu de alegria, disse-lhe em tom firme e sem titubear: Claro! Guardando na memória as cenas ainda recentes das caminhadas em que seus pés reclamaram de dor ao percorrerem as trilhas do Caminho, perguntei: Você está a fim de fazê-lo novamente, mesmo sentindo as mesmas dores? Ela, com a simplicidade de sempre, respondeu que, como as dores haviam cessado por completo, tinha certeza de que, com a palmilha especial que passou a usar, não voltaria a senti-las! A verdade é que, naquele momento, selamos o pacto de repetirmos a aventura em que nos envolvemos no ano passado, por quase dois meses, em solo europeu. Ainda acrescentaríamos uma forte dose de emoção às nossas expectativas ao nos lembrarmos, mais tarde, da real possibilidade de irmos ao encontro de nossa filha Gabriela, quando estivéssemos por lá! Afinal, há mais de quatro anos que não a víamos e, quando lhe dissemos que iríamos fazer novamente o Caminho ela se apressou em dizer-nos que também iria fazer todo o esforço possível para se encontrar conosco! Ela estava feliz, com saúde e trabalhando como instrutora de mergulho no sul da Tailândia. Mas era certo que também estava com imensas saudades de seus pais, de sua irmã, enfim de sua família! Todos esses pensamentos, expectativas e sonhos tomaram totalmente conta de nossas mentes pelos meses seguintes.

Bem, o primeiro passo, simples e útil foi providenciar os cajados, companheiros inseparáveis e indispensáveis para a longa jornada. Da primeira vez, ao chegarmos a Santiago, os deixamos por lá, "esquecidos" atrás da porta do quarto do hostal em que nos hospedamos. Mal podíamos prever a falta que iriam nos fazer futuramente, pois jamais tínhamos cogitado, naquela ocasião, em repetirmos tão dura caminhada! Afinal, estávamos acabando de realizar um sonho e nada nos fazia supor que esse mesmo sonho iria se repetir dali a dez ou onze meses!

No fim de semana seguinte à nossa feliz decisão, aproveitamos que nossa outra filha Cláudia e o Marco, seu companheiro, estavam de folga do trabalho, fomos até a casa deles; com ajuda deles colhi algumas varas de bambu na mata próxima. Era com elas que iria, desta vez, fabricar nossos cajados, para que ficassem mais leves que os anteriores. Providenciei em seguida duas ponteiras de ferro e as adaptei em suas extremidades. Depois, a Sônia envernizou majestosamente as hastes, pintou as aludidas ponteiras e pronto, eis dois cajados novinhos, reluzentes, que ainda levaram um adesivo com a bandeirinha do Brasil! Estavam, assim, sendo tomadas as primeiras providências para a grande aventura! Os meses seguintes seriam pontilhados de muitas outras providências, e uma delas seria o treinamento progressivo de caminhadas pela Av. Beira-Mar Norte, em Floripa. Algumas trilhas teríamos também que fazer, aproveitando para curtir, ao mesmo tempo, a paz, o astral, as belas paisagens e os recantos da Ilha. Esse treinamento seria mais útil para a Sônia, pois apesar de ela já fazer das caminhadas pelas manhãs um hábito de vários anos, era preciso intensificá-las para ir acostumando o corpo aos longos percursos das trilhas de Compostela! Como complemento, seriam necessários alguns exercícios musculares, principalmente para a região dos ombros e espáduas, tendo em vista que o peso da mochila iria exigir bastante deles! De minha parte, como corredor veterano de décadas não necessitava de maiores treinos a não ser alguns exercícios localizados também para os ombros e espáduas, o que foi ótimo, quando decidimos meses depois, já no Caminho, não despachar nada para Santiago, como fizéramos no ano anterior. Dois pesados casacos de frio, tênis, roupas de passeio, etc., foram itens que nos fizeram muita falta nos passeios turísticos quando chegávamos às cidades maiores.

Nos meses que se seguiram, estudamos um pouco mais a língua espanhola e relemos três a quatro livros sobre o Caminho. Era preciso manter viva a chama que nos animava a empreender, mais uma vez, a caminhada pela trilha Jacobéa! E isso sabíamos fazer como ninguém, pois sempre estivemos unidos em nossos projetos de vida, e a marca registrada dessa união foi a permanente busca no outro dessa chama colorida, que nos impulsiona para frente e para a vida!

Estávamos excitados demais com as perspectivas da viagem, embora faltassem ainda alguns meses. A Sônia não perdeu tempo e nas semanas seguintes foi o nosso "ponto", ou seja, providenciando as roupas, objetos como lanterna, talheres, cuia para a refeição matinal, canivete, cantil, os inseparáveis cosméticos, bloco de anotações, vitaminas, remédios, esparadrapo, gaze, ataduras, etc, verificando os casacos de frio, gorros, luvas e arrumando tudo nas mochilas. Na véspera da viagem, ainda iríamos acrescentar alimentos integrais para os primeiros dias, visto que nas cidades menores havia dificuldade em encontrá-los. A Sônia ganhou uma bota nova pois a usada no ano passo não resistiria a outra maratona de 500 quilômetros! A minha, presente da Claudinha e do Marco, estava novinha.

E assim, de objeto em objeto, enchemos as duas mochilas e o resultado foi que ficaram acima do peso previsto. A minha com absurdos 15 quilos e a da Sônia com 9, isso depois de termos feito uma reavaliação de tudo que achávamos indispensável. Bem, como conseqüência do peso extra, tivemos que rever nossos treinamentos, tanto de caminhar, aumentando um pouco as distâncias diárias, como dar atenção redobrada à musculação localizada para fortalecer ainda mais os músculos que seriam exigidos.

Defeito ou não, a verdade é que nossas viagens sempre foram super planejadas e queríamos que tudo desse cem por cento certo! Não havia em nossas mentes um lugar por menor que fosse de incertezas e receios, quanto a conseguir completar os árduos quilômetros do Caminho, pois já os tínhamos superado anteriormente.

Assistíamos seguidas vezes a programas da TV espanhola, principalmente aos noticiários, e, pela Internet, acessávamos sites que se referissem à região por onde passaríamos! Assim, ficamos sabendo em quais cidades havia hotéis, sua categoria, preços, as distâncias entre elas, temperaturas médias, e até o seu índice pluviométrico. Exageros à parte, a verdade é que ficamos impregnados de "Espanha" por meses a fio.

Dizem os entendidos em comportamento humano que a expectativa e os preparativos, via de regra, são mais prazerosos que a viagem em si. Pessoalmente, coloco em dúvida essa afirmação, a não ser que a viagem em si se torne um "desastre"!

Em 26 de agosto, compramos as passagens de avião, marcadas para o dia 15 de outubro e com retorno para 06 de dezembro. Precisamente o meio do outono, quando as temperaturas ficam mais amenas e com poucas chuvas (infelizmente esta última previsão iria dar errado!). Só não gostei dos preços cobrados pela Varig: Vinte por cento a mais em relação ao ano anterior. Esse seria o primeiro aumento entre muitos que teríamos que enfrentar durante toda a viagem, pois a troca de moeda na Comunidade Européia distorceu muito os preços por lá!

Faltando dois ou três dias para a nossa partida o meu grupo de cor-ridas resolveu comemorar com um jantar de despedida numa pizzaria na Lagoa da Conceição; depois, na véspera da viagem, fizemos outra reunião de despedida lanchando demoradamente com a Claudinha, o Marco e D.Odiléa, mãe da Sônia. Combinamos com nossos familiares e amigos trocar e-mails freqüentemente. Seria uma maneira deles viajarem virtualmente com a gente! Meus irmãos e mãe me telefonaram, no mesmo dia para desejar boa viagem! Alguns amigos mais chegados da Sônia, também curtiam tanto nossa aventura, que literalmente iriam "viajar" conosco através de mapas, guias, etc. A Glauce, amiga da Sônia desde a infância, decidiu, junto com o marido, acompanhar dia a dia cada etapa da caminhada marcando-as em um mapa com alfinetes coloridos! De todo o lado era só incentivo!

Com todos os preparativos nos "trinks", só nos restava esperar as horas passarem para o momento de voar em direção ao Velho Mundo! Estávamos em estado de graça! Era o dia 14 de outubro de 2002.