Livro Completo

VIA DE LA PLATA 2008 - Parte I

Oswaldo Buzzo

INTRODUÇÃO

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Com o intuito de matar saudades e rever Santiago, resolvi peregrinar novamente à Compostela neste ano de 2.008, porém, desta vez, por um roteiro diferente.
Assim, após muita pesquisa e estudo, elegi percorrer a Via de La Plata, cujo percurso de 1.000 quilômetros, desde Sevilha, venci em 29 jornadas, que findas, pude reverenciar o Santo Apóstolo em sua magnificente Catedral.
Para melhor detalhar minha odisséia, transcrevo um pouco do que vi, ouvi e senti em cada uma das etapas percorridas.



VIA DE LA PLATA - BREVE HISTÓRIA

A Via de La Plata é o caminho Jacobeu de maior extensão. Passa pelas Províncias de Sevilha, Extremadura, Salamanca, Zamora, Ourense, Pontevedra e A Coruña, atravessando espaços naturais de grande beleza, com um rico patrimônio cultural e ecológico.
Na verdade, tudo começou com os "Tartessos", uma das primeiras civilizações urbanas do ocidente a usar várias rotas comerciais na Península Ibérica. No ano 218 a. C a Espanha foi conquistada pelos romanos que utilizaram esses roteiros, em particular, a via romana "La Iter ab Emérita Asturicam", (séc I a. C), antecedente da Via de la Plata, para o deslocamento de tropas e comércio.
Octávio Augusto, nomeado Imperador em 25 a. C, mandou construir uma calçada que unisse Mérida (Emérita Augusta, capital da Província de Lusitânia) com o norte da Península, atravessando o leito dos rios Tejo e Douro, a fim de facilitar o transporte dos exércitos cuja missão era combater os bárbaros.
Esta Via chegou até Astorga (Asturica Augusta) e tinha mais de 500 quilômetros de extensão, sendo que, posteriormente, outros Imperadores, como Tibério e Trajano a ampliaram, em ambos os sentidos, até Sevilha e Gijón.
Com a queda do Império Romano, esses roteiros deixaram de ser utilizados, no entanto, a invasão árabe do século VIII atingiu, inclusive, o noroeste da Península, culminando sua conquista com a queda de Santiago de Compostela, no ano 997. Os árabes batizaram-na de Bal'latta (Blata), que significa "Caminho de Pedra".
À medida que os cristãos iam reconquistando o território espanhol, restabeleceu-se as vias de "visitação" à Santiago, sendo que, por esta antiga calçada romana, iniciou-se a verdadeira Rota de peregrinação à tumba do Santo Apóstolo.

MINHA PEREGRINAÇÃO

A aventura começou num sábado à tarde, quando embarquei rumo à Espanha. No dia seguinte, após breve translado pelo aeroporto de Madri, desembarquei em Sevilha.
Era "Domingo de Ramos" e a cidade se encontrava efervescente, pois, nessa época, milhares de turistas visitam o local interessados em assistir aos desfiles das confrarias, bem como participar dos festejos da Semana Santa.
Logo, encontrei Francisco, um engenheiro de 35 anos, que se tornou meu companheiro durante a peregrinação. Havíamos feito alguns contatos no início do ano e tivemos a oportunidade nos conhecer em São Paulo, quando participamos de algumas caminhadas com o fito de treinar o condicionamento físico. Fran, como prefere ser chamado, se mostrara animado e em excelente forma física.
No mês de março, ele estava em Barcelona, onde fazia um curso de especialização na área de implosão de edifícios. Contudo, na data aprazada, embarcou num trem a fim de se encontrar comigo. Para evitar dissabores, assim que chegou em Sevilha, ele tomou um ônibus, foi até o aeroporto e ali, pacientemente, aguardou minha chegada.
O motorista do táxi, que nos levou até o centro da urbe, informou-nos sobre a impossibilidade de adentrar ao "casco viejo", porquanto, inúmeras ruas já se encontravam interditadas por conta dos eventos religiosos programados para aquele dia. Dessa maneira, deixou-nos numa avenida larga e movimentada, onde estavam localizados inúmeros hotéis e pensões.
Assim, ficamos hospedados no Hostal Arcóbia, que nos cobrou um preço exorbitante (48 Euros), se levarmos em conta a vetustez de suas instalações. A proprietária do estabelecimento justificou tal medida sob o argumento de que as diárias estavam liberadas pela Secretaria Municipal de Turismo, em razão do interregno pascal.
Depois de nos instalarmos, viemos a saber que pernoitaríamos exatamente do lado oposto do Caminho "Via de La Plata", roteiro que acessaríamos no dia imediato.
E mais, que a magnífica Catedral da cidade se encontrava fechada, em face de sua adequação às festividades cristãs a serem realizadas naquela noite. Desse modo, não pudemos conhecê-la internamente e nem carimbar nossas Credenciais de Peregrino em suas dependências.
Ainda, revelou-se frustrada a nossa planejada visita à Associação dos Amigos do Caminho de Santiago de Sevilha, onde pretendíamos adquirir o Guia atualizado do Caminho e o imprescindível cajado, isto porque sua sede não funciona aos domingos.
Dessa forma, após um longo giro pelo movimentado centro velho da cidade, nos perdemos por conta da sinuosidade de seus becos e travessas. Por isso, demoramos muito para retornar ao hostal, retardando nossa convergência na preparação dos equipamentos e provisões, ante a iminente partida rumo à Santiago.
Mais tarde, pós minhas orações costumeiras, pronto para dormir, li um pequeno texto escrito por um experiente aventureiro brasileiro, que me fez refletir com mais propriedade sobre o motivo de estar ali, prestes a iniciar minha peregrinação:
"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver." (Almir Klink)

1ª Jornada - Sevilha a Guillena - 22 quilômetros: "O Grande Dia!"

Levantamos às 4 h 30 min, a cidade ainda dormia, quando, pontualmente, às 5 h 30 min, deixamos o hostal, e seguimos vagarosamente rumo à Catedral de Sevilha. Na verdade, naquele momento, a saída definitiva para o Caminho trouxe em meu íntimo uma mescla de temor, apreensão e alívio.
Alguns garis faziam a limpeza nas ruas, de forma que fomos obtendo informações e observando as placas indicativas. Assim, sem maiores problemas, às 6 h, chegamos ao local, marco zero de nosso roteiro, onde seria dado o pontapé inicial.
Atentos, olhamos toda a extensão ao redor do resplandescente Templo na tentativa de localizar, entre suas inúmeras portas, aquela cuja denominação "la Assunción" nos indicaria o ponto de partida para a Via de la Plata. Mais algumas perguntas a passantes locais e logo estávamos defronte ao nosso objetivo.
Imediatamente, algumas fotos foram registradas junto ao marco-zero. Depois, seguiram-se as imprescindíveis orações e partimos pela Avenida de la Constitución, acessando em seguida as "calles": Garcia de Vinuesa, Jímios, Zaragosa, Reys Católicos e Ponte de Triana. Após atravessarmos esta, giramos à direita e seguimos pela rua San Jorge y Castilla até o final.
O dia se mostrava escuro, frio e uma leve cerração encobria a cidade. Porém, pude, com uma lanterna na mão, identificar o nome das ruas, uma vez que as setas praticamente inexistem nesse trecho do percurso citatino e, quando surgem, estão pintadas numa altura de 50 cm do chão, o que torna difícil a visualização, mormente, naquela hora da manhã.
Mais à frente, passamos pela famosa "Ermida del Cachorro", onde se encontra guardada a imagem do "Gran Poder", que deu origem à Irmandade fundada em 1.431 pelos Duques de Mediona Sidonia. Que, juntamente com a Confraria de Macarena, fundada em 1.595, são as mais antigas da cidade.
No final da avenida, após ascender por umas escadarias, adentramos num grande parque que serve como estacionamento de caminhões, onde, repentinamente, as setas desapareceram.
Prosseguimos lentamente em direção à linha férrea, mas, o motorista de um carro nos orientou a tomar, exatamente, a direção diametralmente oposta àquele que vínhamos caminhando. Então, obedecendo a sinalização, cruzamos novamente o rio Guadalquivir por uma ponte "peatonal".
A partir dali as flechas se tornaram freqüentes e, com a luz do dia, foi fácil encontrar o rumo a seguir. Assim, ao invés de continuar pelo asfalto e passar por dentro do povoado de Camas, continuamos por uma larga estrada de terra à beira do rio.
Depois de ultrapassar a fazenda Gambogaz e passar sob a "carretera" SE-30, num percurso plano e deserto, acessamos uma rodovia asfaltada, de pouco tráfego, e logo adentrávamos à cidade de Santiponce.
O sol já havia assomado de todo à nossa esquerda. Próximo às primeiras casas, meia dúzia de cães, das mais diversas pelagens, nos afrontaram, ladrando furiosamente. Porém, continuamos a passos firmes pela outra calçada, fingindo ignorá-los, o que surtiu efeito, pois, nos deixaram seguir em paz.
Na entrada da urbe, destaca-se o Monastério de San Isidoro del Campo, construído por Guzmán el Bueno no século XIV. Inicialmente, pertenceu à ordem de "Cister" e mais tarde foi ocupado por monjes Jerônimos.
Atualmente, a igreja católica detém em seu poder apenas o templo e parte do claustro, sendo o restante cedido à Organização Paz e Bem, que realiza trabalho filantrópico voltado para o atendimento de pessoas com problemas mentais.
Ao ultrapassar a cidade em toda sua extensão, por uma avenida larga e bem sinalizada, vêm-se, quase no final desta, as ruínas de Itálica, importante colônia romana fundada no ano 206 a.C., por Escipion, historicamente, o primeiro assentamento romano no sul da Península Ibérica.
No final da zona urbana existe um posto de combustível. Lá funciona um bar, onde é possível utilizar banheiros e adquirir água e mantimentos. Logo à frente, numa rotatória, cruzamos a rodovia "N-630" e avistamos um bosque de eucaliptos, referencial citado em Guias. Assim, caminhamos nessa direção sem titubear.
Ali, giramos à esquerda e acessamos larga e plana estrada de terra que se perde no infinito, seguindo paralelo à movimentada rodovia, em meio a enormes plantações de trigo. Nesse trecho, pudemos desfrutar da companhia de lebres, coelhos e perdizes que deram o "ar da graça", ao cruzar o caminho à nossa frente, por inúmeras vezes.
Após uma hora de caminhada, avistamos no horizonte uma construção cilíndrica, cuja altura se via ao longe. Prosseguimos em marcha ininterrupta, porém a tal torre nos parecia sempre distante e inacessível.
Quando, no entanto, nos aproximamos dela, Fran "puxava" visivelmente a perna direita. Desse modo, resolvemos fazer uma pausa e verificar a causa das dores. Ao descalçar a bota, notamos que havia três enormes bolhas na sola e no lado do seu pé. Mau começo, pensei!
Prontifiquei-me em ajudá-lo, fiz-lhe um curativo rápido, dei-lhe um analgésico e seguimos em frente, pois, estávamos próximos de nossa meta do dia. Assim, mais 5 quilômetros percorridos num ritmo uniforme e aportamos em Guillena, ponto final de nossa primeira etapa.
Ali nos hospedamos no excelente Hostal Francês (40 Euros) e utilizamos o restaurante do mesmo estabelecimento (9 Euros) para fazermos as refeições. O proprietário, um jovem alegre, nos tratou com muita simpatia e atenção.
Mais tarde, na busca por uma "tienda" para comprar mantimentos, passei ao lado da igreja matriz da cidade dedicada à "la Virgem de Granada", cuja construção do século XV, tem interessante estilo mudéjar.
Até o anoitecer, chegaram outros cinco peregrinos que se alojaram no mesmo local onde nos encontrávamos.
Enquanto descansava, pude ler num jornal local a respeito de uma licitação em curso, para construir um moderno albergue na cidade, o que pensei ser providencial, uma vez que lá, ainda, não oferecem esse tipo de conforto ao peregrino.

Tempo gasto: 5 h 30 min
Sinalização: Excelente, após a parte urbana de Sevilha
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 5 e 17 graus.
Impressão pessoal: Trajeto plano, sem obstáculo, sendo 1/3 em asfalto, o restante por estradas rurais.

2ª Jornada - Guillena a Castilblanco de los Arroyos - 19 quilômetros: "Encontro com o Gado Vacum!"

Levantamos cedo e Fran reclamou de fortes dores em seu pé direito, apesar de ter ingerido alguns analgésicos antes de se deitar. Segundo disse, conciliar o sono durante a noite foi uma tarefa difícil, mormente, pela preocupação que tinha com seu desempenho na etapa do dia seguinte.
Após breve lanche no próprio quarto, partimos às 7 h, ainda no escuro. Próximo da igreja dedicada à "Virgem de la Granada", reencontramos as flechas amarelas e seguindo-as, logo depois, ultrapassamos uma ponte sobre o rio Rivera de Huelva.
A sinalização estava um tanto quanto confusa nesse local, obrigando-nos a perder um certo tempo para descobrir por onde deveríamos prosseguir. Porém, reencontramos o rumo certo e, mais à frente, cruzamos a rodovia que segue para Burguillos.
À direita pude observar a "Venta de la Pradera", já em pleno funcionamento. No local, há um bar, onde oferecem alimentos e pode-se tomar o desjejum.
Logo adiante, um cartaz informava que caminharíamos pela Via Pecuária Cañada Real de las Islas, em conexão com aquela que cruza Donãna-Sierra Norte. Avisava, também, que a 6 quilômetros encontraríamos a fazenda "El Chaparral" e a 16, Castilblanco de los Arroyos, nossa meta naquele dia.
A partir dali, por uma estradinha de terra sempre ascendente e muito bem sinalizada, caminhamos em meio a uma plantação de centenárias oliveiras. Depois ultrapassamos um enorme laranjal com alguns pés carregados de frutos, embora outros estivessem ainda na floração. Em alguns locais, a irrigação das plantações é feita pelo sistema de "gotejamento".
Seguíamos, cada qual, enredado em seus pensamentos, no seu ritmo. Afinal, o caminho serve para prosear, apreciar as belezas naturais e refletir. E, me impressionou a quantidade de caça pequena avistadas nesse trecho, como lebres e coelhos. Com certeza, em número muito mais abundante do que na jornada anterior.
Após transpor uma grande porteira, adentramos numa fazenda de criação de gado. Caminhávamos por verdes campos ornados de encinas e alcornoques, árvores de porte médio e nativas da região. Alguns minutos depois, nos deparamos com enormes vacas vermelhas de impressionantes chifres. Era nosso primeiro desafio, afrontar o gado vacum.
Os bovinos nos miravam fixamente com um misto de curiosidade e atenção, sem, no entanto, para nosso alívio, demonstrar nenhuma agressividade, retornando pachorrentamente a pastar.
O roteiro seguiu sempre por fazendas protegidas com cercas e cancelas que fomos abrindo e fechando. Pois esta é uma das máximas do Caminho: "quando entrares e saíres, deixai as porteiras tal como as encontrou". Numa delas, um cartaz desbotado advertia: Cuidado! Gado Bravio!
Fran coxeava da perna direita. Confessou-me que para cúmulo do azar, torcera seu joelho esquerdo, numa íngreme e brusca depressão. Fizemos, então, pequena pausa, a fim de recuperar as forças. Durante o descanso, ele ingeriu mais um analgésico e prosseguimos, pois, o sol já começava a incomodar.
Sempre subindo por um extenso bosque, no final de uma trilha extremamente pedregosa, reencontramos a rodovia que havíamos ultrapassado antes e pela qual, utilizando o acostamento, caminhamos por mais 4 quilômetros, em contínua aclividade até Castilblanco de los Arroyos, nossa meta naquele dia.
Essa cidade foi imortalizada por Miguel Cervantes em seu livro "Las dos doncellas" e, em homenagem ao autor, construíram um interessante monumento em forma de pirâmide.
Logo na entrada do "pueblo", ao lado de um posto de gasolina, localizamos o albergue. No entanto, embora seus dormitórios fossem confortáveis, não dispunham de lençóis nem cobertores.
Esses itens nos eram de suma importância, porquanto, como forma de reduzir o peso da mochila, conscienciosamente, não levamos saco de dormir. Assim, como meu relógio marcava 12 h e o hospitaleiro só retornaria à tarde para carimbar as credenciais e verificar eventuais pendências, optamos por nos hospedar na Pensão de Dona Salvadora (10 Euros/pessoa).
À tarde, após merecido descanso, dei um giro sem pressa pela pequena povoação e pude observar sua arquitetura sacra e civil. Visitei a igreja do Divino Salvador, a casa da Irmandade de San Benito, "el Ayuntamiento", etc..
Numa "tienda", comprei água e frutas para a longa jornada que enfrentaria no dia seguinte. Depois, retornei até o albergue à tarde e pude "sellar" as credenciais. Fiquei surpreso, pois, encontrei 8 peregrinos lá alojados, sendo 3 deles ciclistas que disseram ter saído de Sevilha naquele dia.
Para almoçar utilizamos os serviços do Restaurante Reina (11 euros) e, à noite, fizemos apenas um lanche comunitário no quarto da pensão.
Infelizmente, Fran se mostrava desanimado em relação a sua peregrinação, posto que além do aparecimento de mais algumas bolhas no pé, nesse dia, seu joelho esquerdo estava terrivelmente inchado e dolorido.
Diante dos fatos, fiz-lhe vigorosa massagem com uma pomada analgésica, porém, confessou-me, que mesmo tendo ingerido antiinflamatórios naquela data, as dores e o edema o molestavam sem tréguas, não dando sinais de melhora.

Tempo gasto: 5 h
Sinalização: Excelente
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 7 e 17 graus.
Impressão pessoal: Trajeto em ascensão, de razoável dificuldade, sendo 4 quilômetros em asfalto, o restante, por agradáveis estradas rurais.

3ª Jornada - Castilblanco de los Arroyos a Almadén de la Plata - 30 quilômetros: "Despedidas!"

Sabia que a primeira parte do percurso coincidia com a "SE-185", uma rodovia asfaltada e com pouco movimento.
Assim, levantei-me às 4 h 30 min e, em seguida, acordei Fran, que ressonava com dificuldade.
Meu confrade, depois de completar sua higiene matutina, foi sincero e sucinto. Disse-me que por conta das dores, tinha plena consciência de que não conseguiria completar a etapa daquele dia. Ademais, seu joelho piorara e ele sabia que se persistisse no Caminho seria mais um estorvo que boa companhia.
Diante disto, relatou-me aos prantos que ponderara muito durante a noite e resolvera desistir. Assim, decisão sacramentada, iria tomar um ônibus de volta à Sevilha e, incontinenti, regressar ao Brasil. Então, quando lá aportasse, mandaria notícias via Internet.
Confesso, sua súbita resolução me apanhou de surpresa e me causou um grande choque. Porém, raciocinei, me sentia bem e com saúde, o que me permitia prosseguir sozinho. Assim, após emocionada despedida, às 5 h 30 min, lanterna na mão, iniciei minha solitária jornada.
A lua cheia ainda brilhava no céu, o clima estava frio e propício para caminhar. Assim, fui progredindo em ritmo lento e uniforme, embora o trajeto fosse sempre em constante ascensão.
Aos poucos, a noite se desvaneceu em tênue claridade e ganhou luminosidade à medida que os minutos iam avançando. Na verdade, o clima persistia úmido e o dia se apresentava enfarruscado, com nuvens baixas e escuras.
Em ambos os lados da "carretera", existem várias fazendas e, numa delas, avistei uma grande manada de "cerdos de pata negra", famosos pelo excelente salame produzido com suas carnes.
O roteiro por onde passei segue entre inúmeras "fincas alambradas", às vezes, são duplamente, destinadas à reprodução e criação de gado. À esquerda, as mais importantes nesse mister são as fazendas "El Piquillo" e "El Tinajar", esta última propriedade da sociedade "Campo Amor", fundada em 1910, por José Vega e destina-se a "preparar" bois bravios, especificamente, para participar de "corridas" e touradas.
Depois de 16 quilômetros ininterruptos de marcha, exatamente, às 9 h, deixei a rodovia e, fletindo à direita, adentrei no Parque Florestal de El Berrocal. Caía uma fina, porém, intermitente garoa, de forma que parei junto à "Casa da Guarda" e vesti minha capa de chuva.
Apesar disso, a paisagem tornou-se bastante agradável e interessante, com bosques e campos floridos se sucedendo. Alguns cervos pastavam e, embora o trajeto seja feito no início por uma estrada asfaltada, o silêncio reinante somente era quebrado pelo perene canto dos pássaros.
Observei, ainda, que toda a extensão do Parque era muito bem cuidada e protegida. Numa curva do caminho, surpreendi uma corça e seu filhote bebendo água em uma nascente.
Mais à frente acessei uma estradinha de terra e, depois, prossegui por uma senda ascendente entre fazendas de criação de gado, até culminar no sopé do "Cerro del Calvário".
O monte faz juz ao nome, porquanto, sua subida é terrivelmente íngreme, ainda que o trajeto seja de pequena extensão. No alto, a 400 m de altura, há um mirante, de onde é possível divisar todo o Parque, bem como as adjacências, numa visão única e recompensadora.
Alguns peregrinos com os quais conversei a respeito da terrível "escalada" do Calvário, utilizaram expressões eloqüentes, como: "estar fazendo as estações", numa alusão irônica à "Via Crucis" que Jesus enfrentou em Jerusalém, tal é o grau de dificuldade que o "Cerro" oferece.
A descida foi brusca e acidentada pelo lado oposto do morro e, sob chuvisco frio e vento forte, adentrei à simpática Almadén de la Plata, minha meta naquele dia. A história diz que os romanos exploraram as minas dessa cidade, os árabes a conquistaram e os Cavaleiros da Ordem de Santiago a devolveram aos cristãos.
As providenciais flechas amarelas me encaminharam para um albergue particular, de excelente qualidade, onde, por 5 Euros, pude desfrutar de cama limpa, com travesseiro/fronha, cobertor, chuveiro aquecido, calefação e grande cozinha. A hospitaleira, dona Manuela, pessoa simples e simpática, recepcionou-me muito bem e esmera-se no trato com os brasileiros e todos "viajantes".
Depois de tomar um merecido banho e lavar as roupas, dei uma breve volta pelo povoado, onde tive a oportunidade de admirar em sua parte central, a "Torre del Relojio" e a "Iglesia de Santa Maria del Gracia", do século XVI.
Durante o passeio começou a cair uma garoa fina e contínua, obrigando-me a retornar para buscar minha capa de chuva. Em seguida, numa sortida "tienda", comprei água e mantimentos para a etapa seguinte.
Para almoçar utilizei os serviços do Bar Concha (10 Euros) e à noite houve uma ceia comunitária, no próprio albergue, que nesse dia abrigou 17 peregrinos, sendo 6 deles ciclistas.
Mais tarde, a chuva que ameaçara à tarde toda, precipitou-se com força incomum e não deu trégua à noite inteira.

Tempo gasto: 7 h
Sinalização: Muito Boa
Clima: Nublado, depois chuvoso, com temperatura variando entre 4 e 12 graus.
Impressão pessoal: Trajeto ascendente, de considerável dificuldade, sendo, no global, 20 quilômetros em asfalto, o restante por estradas de terra. Há de se considerar, ainda, a escalada do "Cerro del Calvário" no final da jornada, quando o peregrino já se encontra exaurido pela razoável quilometragem percorrida.

4ª Jornada - Almadén de la Plata a Monestério - 38 quilômetros: "Primavera à Vista!"

A jornada seria longa, porém, quando acordei às 6 h, ainda caía muita água lá fora.
Após, breve desjejum, parti às 7 h, assim que a chuva amainou. Inicialmente, caminhei por larga estrada de terra, tendo o riacho "de la Víbora", à minha esquerda. O percurso, muito bem sinalizado, estava bastante encharcado e, mais à frente, me remeteu para dentro da belíssima "finca" Arroyo Mateos, que também faz parte de uma reserva cinegética.
Duas senhoras alemãs haviam saído apressadas do albergue antes de mim, contudo, quando as avistei, ao longe, elas optavam em seguir caminhando pelo asfalto, que passava próximo dali.
Embora a trilha estivesse enlameada e extremamente lisa, em face das chuvas recentes, convicto, preferi apostar no roteiro sinalizado pelas setas amarelas, a Via Rural "Los Bonales", e não me arrependi.
Assim, durante 5 quilômetros caminhei por dentro de uma fazenda toda cercada por grossa malha de arame, onde encontrei gado bovino, "cerdos ibéricos", veados, cabras e dóceis "perros".
Também pude admirar bosques verdejantes, rios, lagos, imensos carvalhos, tudo sob intenso silêncio, apenas quebrado pelo incessante ladrar dos cães à minha passagem.
Para meu êxtase, o cheiro da terra molhada infundia outra dimensão à paisagem, pois, a chuva da noite anterior lavara o mofo invernal, realçando a chegada da estação primaveril que se iniciaria, exatamente, no dia seguinte, 21 de março.
Foi, sem dúvida, um dos trechos mais belos e tranqüilos, entre todos os que trilhei durante essa peregrinação.
Quase no final da etapa, passei diante de um monumento erigido em homenagem à José Luis Salvador, entusiasta fundador da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago de Sevilha, que ajudou a sinalizar todo o trajeto da Via de la Plata. Inclusive, em atenção a derradeiro pedido, suas cinzas foram espalhadas ao longo desse roteiro. Que descanse em paz!
Após pequena curva, 17 quilômetros percorridos, adentrei em El Real de Jara, uma vila toda pintada de branco que conta com um excelente albergue localizado logo na entrada da povoação. Aliás, a maioria dos que haviam pernoitado comigo, ali se hospedariam naquele dia.
Eram 11 h, ainda muito cedo, de maneira que parei no bar "Los Claveles" para "sellar" minha credencial, beber um café e comprar água. Depois, confiante e revigorado, prossegui, posto que, ainda, teria 21 quilômetros para vencer e sem nenhuma vila nesse próximo trecho.
Ao deixar a simpática cidadezinha, segui por larga estrada de terra levemente ascendente. Pouco depois, já no topo da elevação, fui surpreendido pela visão de um antigo castelo medieval, hoje em ruínas, mas que impressiona por sua beleza e localização privilegiada.
Trata-se, na verdade, do antigo "Castillo de las Torres". Conta a história que os soldados defendiam não somente a edificação, como também os peregrinos que iam à Santiago. E, embora esteja construído a apenas 1 quilômetro de El Real de Jara, pertence ao município de Monestério (Província de Badajoz), cujo "ayuntamento" dista uns 20 quilômetros dali.
Assim, tomei consciência, naquele instante, que acabara de deixar a Província de Sevilha para entrar na Comunidade de Extremadura.
Na porteira de uma "finca" próxima, apareceu um mastim ameaçador. Sem parar de caminhar, externei-lhe palavras baixas e suaves. O cão me acompanhou, sempre ladrando, junto à cerca, por uns 100 metros, quando, então, saí de seus domínios. Prosseguiu ladrando, porém, não deu um passo sequer, até me perder de vista no horizonte. Bom amigo, pensei!
Enquanto admirava a bucólica paisagem, a chuva retornou com intensidade, obrigando-me a vestir a capa novamente. Logo em seguida, encontrei um pequeno "monjón" preso ao chão, o primeiro dos muitos que veria ao longo dessa jornada. Trata-se de cubos de granito de 45 cm de aresta, posicionados estrategicamente nos locais em que possam surgir dúvidas sobre qual direção seguir.
As Associações do Caminho de Santiago, na Via de la Plata, têm sinalizado a Rota com flechas amarelas, cujo símbolo tornou-se conhecido pelos peregrinos. O Conselho de Cultura e Turismo da Junta de Extremadura usa cubos coloridos fixados ao chão, onde o azulejo amarelo indica a Rota de peregrinação e o verde marca a antiga "calçada romana". Desse modo, em alguns trechos, as rotas coincidem, surgindo as duas marcações.
Por mais 10 quilômetros, segui por uma estrada plana, sempre rodeada por extensas fazendas de gado, até ultrapassar um pequeno e moderno templo dedicado a São Isidro, cuja festa é comemorada no dia 15 de março. Na verdade, a construção é recente, porquanto, a antiga igreja encontra-se a um quilômetro de distância, junto a uma velha ponte.
Nesse local, fui ultrapassado por um ciclista alemão que também havia pernoitado no albergue de Almadén de la Plata. Trocamos algumas palavras, registramos uma foto e ele seguiu seu caminho, visto que pretendia encerrar sua jornada daquele dia na cidade de Fuente de Cantos. Foi ele o único peregrino com quem conversei nesse dia.
Mais um quilômetro percorrido e reencontrei a famosa "carretera" N-630, que nesse trecho corre paralela à moderna autovia nacional.
O roteiro prosseguiu por dentro de bucólico bosque de eucaliptos, localizado entre as duas rodovias, por uns 5 quilômetros, sempre em lenta ascensão até escarpada ladeira de "la Cruz del Puerto". Depois, de vencê-la, acessei uma via vicinal asfaltada, de pouco tráfego, onde caminhei até Monastério, meu destino naquele dia.
O trecho final é bastante íngreme, pois a cidade foi construída no cimo de um morro, numa altitude de 700 m. Encontrava-me extremamente exausto, porém, encontrei o Hostal Moyá logo na entrada da urbe e nele fiquei muito bem instalado (18 Euros), posto que o albergue local além de contar com apenas 4 camas, se encontrava fechado para reforma.
Para almoçar utilizei os serviços do próprio estabelecimento onde pernoitei, que oferece um excelente "menú del peregrino", por 8 Euros. Já, à noite, jantei no decantado "Restaurante Discóbolo", por 9 Euros.
A bela e simpática povoação, capital do "Cerdo Ibérico", deve seu nome ao Monastério de Nossa Senhora de Tentúdia, construído no topo de uma grande elevação, localizada a 8 quilômetros da civilização, em memória ao triunfo dos cristãos na batalha contra os muçulmanos, no ano de 1.504.
À tardezinha, apesar do frio reinante, dei um grande giro pela "city", no entanto, como era quinta-feira santa, encontrei tudo fechado, inclusive a igreja matriz e os locutórios de internet.
Pude verificar, contudo, que existem inúmeros hotéis, excelentes restaurantes, bem como variado comércio ao longo da rua principal e adjacências, prova patente da opulência e do investimento auferidos com a criação e industrialização de sua ascendente suinocultura local.
Tanto que, anualmente, em setembro, comemora-se com grande festa nessa progressista cidade, "El dia de Jamón", ("o dia do salame"), posto que existem inúmeras fábricas funcionando na elaboração, curtição e comercialização de embutidos e derivados, produzidos com a carne suína.

Tempo gasto: 8 h
Sinalização: Excelente
Clima: Nublado, depois chuvoso, com temperatura variando entre 5 e 13 graus.
Impressão pessoal: Trajeto de considerável dificuldade em face da distância a ser percorrida, apesar de ser o terreno praticamente todo plano. Destacam-se, contudo, os últimos 5 quilômetros do roteiro feitos todo em asfalto, além da brusca ascensão para se atingir Monastério, no final da longa jornada. Alguns peregrinos preferem fracionar esse percurso em 2 duas etapas, pernoitando, primeiramente, em El Real de Jara, onde existe um excelente albergue municipal.

5ª Jornada - Monestério a Fuente de Cantos - 22 quilômetros: "Sexta-Feira Santa!"

Levantei, como de praxe, bastante cedo e parti ainda no escuro, às 7 h. Precisei atravessar toda a cidade, utilizando-me da "carretera N-630" e, após um campo de futebol, obedeci as flechas e entrei à esquerda, seguindo por agradável estradinha de terra arborizada.
Numa chácara, 3 enormes cães ladravam à minha passagem. Inopinadamente, um deles saltou a cerca de pedra e veio em meu encalço. Assustado, estaquei com o cajado em punho e aguardei, porém, percebi que era um "labrador" aventureiro, a procura de um agrado. Talvez, em face de minha postura agressiva, o cão se afastou confuso e decepcionado, retornando de onde saíra.
Com o dia já claro, constatei a presença de alguns peregrinos caminhando, ao longe, no mesmo rumo que eu, dois deles me chamou a atenção, pois, vestiam "berrantes" blusas vermelhas.
Após atravessar uma porteira, a sinalização impecável pintada nas árvores e mourões cessou bruscamente. A partir dali, a marcação passou a ser feita somente por "monjóns" fincados no chão. Em razão da pequena altura, bem como por estarem fixados longe um do outro e, algumas vezes, ocultos pela vegetação rasteira, ficou bastante difícil o trajeto a seguir.
Atravessei, na seqüência, um grande pasto, baseando-me na intuição e acabei me perdendo duas vezes. Avistei quatro casais que seguiam vagarosamente na dianteira, 3 alemães e 1 francês, alcancei-os e, logo depois, ficaram para trás. Talvez, inseguros quanto ao rumo, preferiram apostar em minha impavidez.
No entanto, logo adiante, após transpor pequena estrada asfaltada, a marcação sofreu gradual melhora, pois as setas amarelas retornaram, ainda tímidas, e pude prosseguir mais confiante. Lembro-me que, durante o trajeto, passei por várias cancelas e, sem maiores dificuldades, abri e fechei-as, deixando tal qual as encontrei.
Depois de atravessar uma extensa fazenda de gado, a rota fez um giro radical à direita e o caminho seguiu por uma estrada de terra, larga e plana. Mais à frente, cruzei o rio Bodión Chico, o ponto mais baixo dessa etapa.
Prossegui por mais uns 6 quilômetros, em meio a grandes campos de cereais, até acessar uma rodovia asfaltada de pouco tráfego. Por ela segui, ainda, mais uns 2 quilômetros, até Fuente de Cantos.
Obedeci a marcação das flechas e na entrada da urbe fleti à esquerda. Logo em seguida, adentrei no albergue turístico que se encontra instalado num antigo convento franciscano, onde me hospedei (9 Euros).
Além das excelentes acomodações, a casa oferece lençóis limpos, fronhas asseadas, grossos cobertores, modernos banheiros, duchas à vontade, calefação eficiente, enfim, instalações confortáveis, dignas de um hotel.
Na verdade, eu pretendia seguir adiante, no entanto, os hospitaleiros Bito e Margarida dissuadiram-me dessa idéia, argumentando que, como era Sexta-Feira Santa, possivelmente não encontraria alojamento em Calzadilla de los Barros, 7 quilômetros à frente, minha meta naquele dia. Além do que, o albergue daquela localidade encontrava-se fechado para reforma. Assim, considerei, também, a possibilidade do Hostal ali existente estar lotado por conta dos festejos inerentes à data.
Aproveitei para fazer minhas refeições no Bar Conde, cujos serviços são excelentes. Ele está localizado próximo ao centro da cidade, onde paguei 10 Euros o almoço.
Nessa etapa pude notar contrastes na natureza, pois, há uma rápida mudança de uma região para outra, já que, bruscamente, deixei para trás as amplas extensões arborizadas por encinas e alcornoques, e adentrei em grandes planícies cobertas por plantações de cereais.
Trata-se de uma região privilegiada para o cultivo, vez que a temperatura desta zona é mais propícia do que no resto da Península Ibérica. Assim, o grão ali semeado tem um tempo menor de maturação, oferecendo, desse modo, expressivo ganho ao produtor.
Importante destacar, ainda, que a cidade é berço do famoso pintor espanhol Francisco de Zurbarán, nascido em 1.598. Ali, próximo de seu "casco viejo" encontra-se preservada a casa onde ele viveu até os 15 anos, quando mudou-se para Sevilha, a fim de dar continuidade ao seu aprendizado sob a orientação do mestre Pedro Diaz de Villanueva.
À noite fui com os demais peregrinos assistir às cerimônias sacras realizadas na Igreja Matriz, cuja construção data do século XV, sendo patrona a Virgem de la Granada.
Durante a celebração, enormes e pesadíssimos andores desfilavam imagens de Cristo e seus apóstolos. E, a medida que iam chegando, sobre os ombros fortes de homens ali denominados de "costaleros", os ritos das músicas se tornaram solenes, porém, breves.
Após o jantar, retornei ao local de pernoite, que por sinal, estava lotado. Ficamos alojados em 6 quartos, cada qual contendo 2 beliches, num total de 24 pessoas. Muitos, no entanto, estavam fazendo turismo e caminhariam apenas até o Domingo de Páscoa.
Assim, após a festa da "Pascoela", que seria comemorada na segunda-feira, permaneceriam no Caminho somente os verdadeiros peregrinos.

Tempo gasto: 5 h
Sinalização:Excelente até 10º quilômetro percorrido, depois, sofrível, melhorando após o 15º quilômetro.
Clima:Ameno, com sol, temperatura variando entre 4 e 15 graus.
Impressão pessoal:Trajeto fácil e agradável, em leve descenso, quase todo em estrada de terra, sendo apenas os últimos 2 quilômetros em asfalto.