Livro Completo

VIA DE LA PLATA 2008 - Parte II

Oswaldo Buzzo

6ª Jornada - Fuente de Cantos a Villafranca de los Barros - 47 quilômetros: "A Etapa Mais Larga!"

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A previsão metereológica indicava chuvas para a tarde daquele sábado, de forma que resolvi sair bem cedo, sem tomar o desjejum, visto que o mesmo somente seria servido às 7 h 30 min. Para tanto, combinei com o Bito, na noite anterior, que partiria às 6 h. Assim, pedi a ele que abrisse o portão principal do albergue nesse horário, pleito com o qual concordou de imediato.
Desse modo, levantei-me às 5 h e tive tempo de lentamente me preparar para a jornada do dia. Depois, postei-me no aguardo do prestativo hospitaleiro. Contudo, o relógio da torre do mosteiro badalou 6 h 30 min, e não visualizei nenhuma movimentação de pessoas dentro do recinto.
Sem saber a quem recorrer, não me restou alternativa a não ser escalar o enorme portão de aço que guarda o Convento. Com a mochila nas costas, subi pela grade, descendo do lado oposto e, ato contínuo, principiei minha jornada pelas silenciosas ruas da urbe.
A manhã apresentava-se fria e neblinosa, o que dificultava a visibilidade. No entanto, havia verificado no dia anterior o roteiro para melhor me orientar sobre a saída da cidade. Assim, tranqüilamente, localizei as flechas e logo depois deixava a zona urbana, seguindo por uma plana e larga estrada de terra batida.
Uma hora mais tarde, quando o dia principiou a clarear, pude observar algumas plantações de uvas, as primeiras das muitas que encontraria dali para frente.
Às 8 h, 7 quilômetros percorridos, passei por Calzadilla de los Barros, pequena povoação que ainda dormia, pois, não avistei alma alguma se movimentando pelas ruas. À frente, na imensa planura, o sol começava vagarosamente a aparecer e, em seguida, a imensa bola amarela explodiu em raios de luz, ao levantar-se na linha do horizonte, num espetáculo único em que poucas ocasiões tive o privilégio de contemplar.
Fiz ali uma pausa e observei a imponente igreja do Divino Salvador, empedrada em sua abside, o que lhe dá um aspecto de fortaleza. Sua construção se iniciou no século XV e possui um dos melhores retábulos gótico-renascentista que, infelizmente, não pude apreciar, vez que se encontrava fechada.
Nesta cidade existe um albergue, porém, fica a uns 2 quilômetros do centro da urbe, na "Pradera de San Isidro". Trata-se, é bem verdade, de um alojamento juvenil, instalado numa fazenda onde existem lagos, igreja e dois amplos edifícios, com espaço suficiente para abrigar, aproximadamente, 60 pessoas. Contudo, obtive informações, no dia anterior, de que todo o complexo passava por amplas reformas.
O caminho seguiu agreste, por trilhas bem sinalizadas, até encontrar à frente a rodovia "N-630". Caminhei uns quinhentos metros pelo acostamento e logo dobrei radicalmente à esquerda por uma estrada de terra, tendo, por ambos os lados, inicialmente, fazendas de criação de gado, depois, plantações de oliveiras e imensos campos agricultáveis a perder de vista.
No trajeto, praticamente todo plano, cruzei alguns riachos e pude contemplar duas grandes lagoas à minha esquerda. Também, inúmeras cegonhas buscavam alimentos no solo, próximo à trilha, saltitando grotescamente, de quando em quando, à minha passagem.
Às 11 h, mais 15 quilômetros percorridos, entrei em Puebla de Sancho Perez, pequena vila, onde encontrei inúmeros bares abertos. Num deles, fiz providencial pausa para repasto e café. Aproveitei para observar o templo paroquial de Santa Lúcia, padroeira da cidade, construída em estilo mudéjar, que, no século XVI, passou a chamar igreja de Nossa Senhora de Belém.
Depois, segui à beira da linha férrea, e embora a sinalização nesse trecho esteja bastante confusa, não me perdi. Assim, entrei em Zafra pela estação ferroviária local e acessei, então, a grande e larga avenida denominada "Paseo de la Estación", por onde segui até o centro dessa linda e simpática cidade.
A urbe encontra-se encravada nas proximidades da Serra do Castellar, sobre um amplo e suave vale. O seu nome deriva do árabe Safra. Historicamente, foi reconquistada à dominação mourisca pelo exército de Fernando III, em 1.241, sendo, à época, incorporada definitivamente à coroa de Castilla e León.
Sem dúvida, esta foi a primeira "grande" urbe por qual passei desde a partida de Sevilha. Conta hoje com 15.000 habitantes, sendo um dos maiores povoados da Província de Badajoz.
É famosa por sua estratégica localização e foi conhecida, na época dos romanos, como "Restituta Lulia Imperial" e, posteriormente, durante a dominação árabe, passou a chamar "Safar y Sarga". Nesse local é realizada todos os anos, em outubro, a Feira Internacional de Gado, sendo considerada uma das mais importantes de toda Espanha.
No entanto, apesar da beleza reinante em suas praças, monumentos e construções, não me senti tentado a permanecer naquela localidade, pois, ainda era muito cedo. Então, tomei café num bar próximo a igreja matriz e consultei os mapas que portava, onde verifiquei que a saída da urbe apontava como referência as enormes torres do templo dedicado à São Francisco.
Assim, continuei seguindo as flechas e mais tarde deixei a parte urbana por uma estradinha de terra, em direção à pequena elevação. Do alto, pude observar, a uns 2 quilômetros dali, a cidade de Los Santos de Maimona, minha meta naquele dia.
Atravessei a extensa zona urbana e notei que o local era lindo e agradável. Segui até próximo da igreja matriz desse antiqüíssimo povoado, cuja fundação registra os anos 50, onde pude colher informações de um morador que se mostrou gentil às minhas indagações.
Disse-me que existia um albergue na cidade, contudo, eu precisaria apanhar as chaves no prédio do "Ayuntamento" e depois retornar por onde eu viera. Desse modo, precisaria subir o morro por um 1 quilômetro, e, numa porteira, adentrar a esquerda, pois, o refúgio está localizado no pico da elevação, cercado de um portentoso bosque de pinheiros.
Numa "tienda" próxima, comprei água, frutas e chocolate. Depois, desanimado e indeciso, sentei-me na praça para repensar a situação. Enquanto lanchava, estudei meus mapas. Já havia caminhado 33 quilômetros e o relógio marcava 13 h. Achei muito cedo para encerrar a jornada, sem contar que o dia mantinha-se nublado, o clima fresco e eu não me sentia cansado.
Resolvi, então, seguir em frente e, depois de cruzar o rio Robledito por graciosa ponte, prossegui numa estrada rural, plana e deserta. Em seqüência, passei próximo a um imenso olival e, mais à frente, por interessante plantação de amendoeiras.
A trilha cortava terrenos cercados, tanto à esquerda como à direita, onde grossa malha metálica se estendia por vários quilômetros, sempre sobre um infinito planalto. Mais adiante, observei uma grande placa, cujo texto continha um protesto ameaçador contra a possível instalação de uma refinaria petrolífera naquele local.
O roteiro seguiu à direita, pelo Caminho de los Moros, cruzou a linha férrea e, mais à frente, sob a rodovia "N-630". Às 16 h 30 min, depois de percorrer mais 15 quilômetros, cheguei à Villafranca de los Barros.
Esta belíssima e hospitaleira cidade teve grande expressão no período das peregrinações religiosas, pois, chegou a pertencer à Ordem de Santiago, obtendo em meados do século XIV, a categoria de "cabeza de la Encomienda", importante galardão, à época.
Ali me hospedei no excelente Hotel Diana (32 Euros), visto que o albergue turístico existente na localidade já estava lotado de "peregrinos", por conta da Semana Santa.
Na verdade, era sábado de Aleluia e haja vista os festejos inerentes à data, o comércio se encontrava quase integralmente cerrado. Mesmo assim, numa padaria comprei água e mantimentos para o dia seguinte, vez que a jornada até Torremegia seria de 28 quilômetros e sem nenhum "pueblo" intermediário.
Aproveitei, ainda, para conhecer o interior sacro da igreja matriz local, dedicada a "Virgen del Valle", cuja edificação data do século XVI. A majestosa construção possui planta retangular e três naves, onde sobressai sua porta principal, chamada "del Perdón", cujas figuras talhadas em pedra demostram excepcional obra de arte.
Por fim, a chuva anunciada para aquele dia chegou às 17 h e entrou noite a dentro. Contudo, já me encontrava devidamente abrigado.
Mais tarde, visto que não havia almoçado, desci para jantar no restaurante do próprio hotel, onde foi servido um excelente "menú" festivo, pelo qual paguei 12 Euros.

Tempo gasto: 10 h
Sinalização: Excelente
Clima: Nublado e frio, com temperatura variando entre 3 e 10 graus.
Impressão pessoal: Trajeto fácil e plano e, tirante a parte urbana das cidades, todo feito em terra, por agradáveis estradas rurais.

7ª Jornada - Villafranca de los Barros a Mérida - 44 quilômetros - "Um Domingo Festivo!":

Era Domingo de Páscoa e resolvi chegar cedo ao meu destino a tempo de almoçar. Assim, parti por volta das 6 h 30 min, sob um frio implacável, que beirava zero grau. Na saída da cidade, por sorte, encontrei um bar aberto e nele pude fazer proveitoso desjejum.
Passei depois nas proximidades do Colégio dos Jesuítas, e saí pelo "caminho velho", uma estrada de terra larga e plana, entre imensas extensões de vinhas a perder de vista, o que me lembrou um verdadeiro mar verde.
Depois de algum tempo a paisagem tornou-se monótona, contudo, vale ressaltar o sentimento de liberdade que o derredor oferece, devido ao espaço aberto, sem uma única cerca. É algo incomensurável.
Desse modo, o trajeto seguiu fácil e agradável, sobre uma estrada larga de solo argiloso. Assim, às 10 h e 18 quilômetros percorridos, parei defronte à entrada de acesso a Almendralejo, localidade famosa por seu vinho e vindimas.
Solitário, fazia minhas anotações próximo de uma caixa d’água, em frente à rotatória de acesso à urbe, quando um casal de ciclistas espanhóis me ultrapassou. Foram estes, os únicos peregrinos que avistei nesta jornada.
É importante enfatizar que a cidade está situada à beira da rodovia "N-630" e se encontra há quase 4 quilômetros de distância do Caminho. Portanto, para pernoite, somente é recomendada em caso de emergência ou extrema necessidade. Cumpre frisar que, a partir dela, os vinhedos dividem espaço com pés de oliveiras e grandes campos de plantação de cereais.
Naquele horário, o sol havia aparecido, a temperatura estava agradável e eu bastante animado. Assim, segui adiante e 10 quilômetros depois, exatamente às 12 h, adentrava em Torremegia, minha meta naquele dia, sob o espoucar de uma salva de rojões, evocando a data festiva de Páscoa.
A cidadezinha, fundada por Don Gonzalo Mejia, uma das mais estranhas pelas quais atravessei em todo o Caminho, é formada por uma vila de origem medieval, porém, chama a atenção o fato de que todas suas ruas são perpendiculares. É evidente que ocorreu um fenômeno anômalo, ao inverso daquilo que se conhece de outras povoações, cujo crescimento se deu em círculos, ao redor de templos católicos.
No entanto, no caso vertente, sucedeu algo inédito, visto que a Igreja de "N. S. de la Concepción", do século XIV, a padroeira da urbe, está situada num de seus extremos, ao final de uma grande rua, sendo ela, a última edificação deste surpreendente "pueblo".
A temperatura marcava 11 graus, fazia frio e, apesar de já ter percorrido 28 quilômetros, não me sentia cansado. Assim, na dúvida entre ficar ou seguir adiante, sentei-me numa arborizada praça para lanchar. Enquanto isso aproveitei para estudar o Guia que portava. Por sinal, o casal de ciclistas que me ultrapassara anteriormente, também descansava num banco ao lado.
Mérida estava próxima, apenas 16 quilômetros à frente. Revigorado, após a refeição, resolvi partir. Antes porém, numa loja de conveniência instalada num posto de combustível à beira da "N-630", adquiri água e chocolates.
O trajeto inicial se faz pela "carretera", no entanto, após uns cinco quilômetros adentrei à direita, numa estrada rural arborizada, em franco descenso, entre vinhedos e olivais, e, por ela, cheguei ao meu destino, exatamente às 16 h.
O acesso à cidade é feito por uma enorme "puente medieval", sobre o rio Guadiana. Segundo os Guias editados, trata-se da maior de todas as pontes construídas durante o império romano, com 792 m de extensão e ornada com 60 arcos.
Fundada pelo imperador Octávio Augusto, no ano 25 a.C., e tombada como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, Mérida é famosa pelas suas inúmeras construções e monumentos, impecavelmente preservados. A exemplo de seus Teatro e Anfiteatro Romanos, Templo de Diana, Arco de Trajano, O Circo o Hipódromo, Aqueduto de los Milagros, Casa do Mitreo, Columbários, Basílica de Santa Eulália, dentre outras relíquias conservadas desde a época da invasão romana.
É imperioso ressaltar que Mérida talvez seja a cidade mais emblemática de toda a Via de la Plata. Para muitos, ponto de partida em direção à Santiago e, quiçá, aquela com mais história de todo o roteiro.
Ali, fiquei hospedado no Hostal Senero (28 Euros), próximo de La Plaza Mayor, onde almocei no Restaurante Nano (11 Euros) e, num "cyber-café", cujos proprietários eram de nacionalidade equatoriana, pude acessar e remeter notícias pela internet.
As ruas da urbe se encontravam movimentadas e o fluxo de turistas era intenso, até porque, no dia seguinte seria feriado, em comemoração da "Pascoela" em toda a Europa. Assim, tive a idéia de me juntar a um grupo, a fim de conhecer e visitar algumas das inúmeras atrações arqueológicas oferecidas por essa inesquecível "metrópole".
Mais tarde, adquiri víveres e, à noite, fiz apenas um lanche rápido em meu quarto, enquanto estudava mapas e anotações, já me preparando para a dura jornada que enfrentaria no dia seguinte.

Tempo gasto: 9 h
Sinalização: Ótima
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 3 e 13 graus.
Impressão pessoal: Trajeto fácil, agradável, plano e feito em chão de terra, por excelentes e bem cuidadas estradas rurais, exceto os 5 quilômetros percorridos em asfalto, logo após a saída da cidade de Torremegia.

8ª Jornada - Mérida a Alcuéscar - 39 quilômetros - "Surpresa Agradável!":

O roteiro de saída de Mérida foi modificado porque obras obstruíram o caminho antigo que seguia à esquerda, em direção a represa de Proserpina. O proprietário do Hostal onde pernoitei me orientou resumidamente como deveria proceder na manhã do dia seguinte.
Assim, atualmente, deve-se seguir em direção à Avenida de La Plata, situada próxima ao antigo Aqueduto romano. Nela tem início as marcações de solo, através dos conhecidos "monjóns" de granito. Ao atingir a "rotonda" da N-630, seguindo as flechas, deve se tomar um caminho de terra à direita, nominado de "Via Pecuária", que contorna a rotatória e depois transpõe uma rodovia por baixo.
Desse modo, observando as marcações, prossegui por uma estrada cascalhada, depois caminhei dentro de uma grande fazenda de gado, numa trilha em ascensão, tendo a rodovia "N-630" do meu lado esquerdo, à curta distância.
O roteiro é desértico, porém, interessante, vez que segui por um campo relvado, depois, no meio de bosques, até atingir um grande parque florestal, com bancos para descanso e mesas empedradas, onde podem ser feitos piqueniques e reuniões informais.
O caminho prossegue, então, por uma estrada vicinal asfaltada, atravessa sobre a rodovia "N-630"e, do outro lado, funde-se com o "tramo" do antigo roteiro.
Assim, até o acesso à El Carrascalejo, pequeníssima povoação que não oferece nenhum tipo de serviço ao peregrino, pude caminhar em meio a fazendas de criação de porcos e ovelhas, orladas por "matorrales" e "jaras", na verdade, mirrados arbustos típicos dessa zona.
Ali cheguei às 10 h 15 min, após 15 quilômetros percorridos. Mais 3 quilômetros à frente em franco descenso e às 11 h adentrei em Aljucén, povoação que dispõe de um bom albergue e alguns bares. Numa "tienda", próxima da igreja matriz, dedicada à Nossa Senhora da Consolação, comprei água e frutas. Aproveitei a cortesia da casa e experimentei o saboroso vinho de pitarra, um produto típico desta região.
Em seguida, pela avenida principal deixei a cidade e, sobre a rodovia "N-630", cruzei o rio Aljucén, um belo e vigoroso curso d’água. O Caminho deixa a "carretera" e segue à direita por uma estrada de terra e à esquerda vê-se um posto de combustível, onde também existe bar e uma loja de conveniência.
O trajeto seguiu agradável e fácil, por larga estrada de terra, em meio a inúmeras fazendas de criação de gado, sempre ladeado por alcornoques e encimas, árvores nativas da região. Ali se encontra o Parque Natural de Cornalbo, área de preservação ambiental, conhecida naquela região como "Cordel del gato".
Nesse trecho, as flechas estão pintadas nos troncos das árvores ou mourões que ladeiam o traçado. Durante o trajeto, avistei muitos bichos como coelhos, veados, pássaros silvestres e inúmeras aves de rapina, em plena faina.
Foram 15 quilômetros solitários até encontrar a famosa Cruz de San Juan que alguns chamam da "Niño Muerto". Depois dela, segui à direita por uma dura estrada pedregosa, ladeada por belas chácaras e casas de veraneio.
Numa delas, um senhor idoso pressentiu minha presença pelo aviso dos cães, pois, me aguardava no portão e, quando passei, puxou conversa. Tratava-se de um "jubilado" residente em Mérida, mas que, quase todo o dia, vinha cuidar de sua propriedade campestre.
Foi uma grata conversa, contudo, eu estava cansado e logo nos despedimos. Mais acima o caminho faz pequena curva e dali pude avistar Alcuéscar, povoação construída na ladeira sul do morro do Calvário, minha meta naquele dia.
Na cidade hospedei-me no albergue situado dentro do "Convento e Hospital de Esclavos de Maria y de los Pobres", uma agradabilíssima surpresa, pois, Angel, o hospitaleiro, me acolheu como um irmão, na verdadeira tradição da hospitalidade peregrina. Destinou-me um quarto individual e despojado, onde havia uma cama e um pequeno lavabo, sendo os banheiros coletivos, todos novos e bem aparelhados, divididos em masculino e feminino.
Mais tarde dei uma volta pela urbe. Naquela data comemorava-se a "Pascoela" e tudo se encontrava fechado, inclusive a igreja matriz dedicada a Nossa Senhora da Assunção. Não encontrei nenhum bar aberto e não havia uma única "tienda" em funcionamento, que me possibilitasse adquirir água e provisões para a etapa do dia seguinte.
O jantar foi servido pontualmente às 20 h e estava estupendo. O "menu" era composto de sopa de macarrão, salada mista, carne de frango, acompanhado por pão, vinho, frutas e chocolate como sobremesa. Um verdadeiro banquete oferecido gratuitamente, visto que nada cobram pela hospedagem. Em troca, aceitam apenas donativos, podendo cada qual ofertar aquilo que suas posses permitam.
Finda a refeição, colaboramos com uma grande faxina no local. Depois, fomos para a cozinha e lavamos os pratos e talheres. Enfim, deixamos tudo limpo e brilhando, em agradecimento ao dadivoso alimento recebido.
Consultando seus livros, Angel me informou que há mais de 6 meses não passava um brasileiro por aquele local. Pelos seus registros, o último ali pernoitara em setembro/2007.
Curioso, indaguei-lhe como podiam oferecer tanto sem nada cobrar. Em resposta, disse-me que ali praticam, literalmente, obra de caridade, nos moldes em que estudara durante a catequese, pois a doutrina prega que se deve sempre "dar pousada ao andarilho cansado". Então, concluiu, se não o fizermos, quem irá se encarregar disto?
Realmente, um local de gratíssima lembrança pelo carinho e atenção recebidos na ocasião, extensivo a todos os 13 peregrinos que pernoitaram ali naquele recinto.

Tempo gasto: 9 h
Sinalização: Ótima
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 5 e 14 graus.
Impressão pessoal: Trajeto agreste e plano, todo feito em chão de terra, por excelentes e bem cuidadas estradas rurais. Apenas os derradeiros 4 quilômetros são feitos por uma trilha pedregosa e acidentada. A distância é razoável, assim, há os que prefiram pernoitar em Aljucén, fracionando o trajeto em duas etapas.

9ª Jornada - Alcuéscar - Cáceres - 40 quilômetros - "La Ciudad Monumental!":

No albergue existe 1 máquina para venda de refrigerantes e cerveja, a preço de custo, mediante a inserção de moedas. Há outra que serve café, de formas variadas. Ali tomei 2 "capuccinos" antes de partir, exatamente às 7 h e, como sempre, sozinho. Pois os demais peregrinos ainda estavam dormindo, porque, por certo, fariam um percurso de menor extensão.
O dia apresentava-se extremamente frio, com forte cerração. Porém, a saída da cidade está muito bem sinalizada de forma que não encontrei dificuldade em localizar o itinerário. Inicialmente, trilhei por um senda situada entre várias chácaras.
Em quase todas as casas encontrei cão a ladrar com fúria à minha passagem, o que me impressionou devido à penumbra do amanhecer, quando ainda não se está de todo desperto e qualquer barulho nos causa apreensão e sobressaltos.
À propósito, li numa revista especializada que a "paixão canina" na Espanha começou no início dos anos 90 e expandiu-se rapidamente, como um raio. Hoje, em toda a Península Ibérica é raro encontrar alguma habitação em que não exista um ou mais "perros". Aliás, segundo as estatísticas, a Galícia é a região com maior densidade de cães em todo o território espanhol.
Prosseguindo, mais à frente, acessei uma estrada plana e bastante arborizada que me conduziu, após monótonos 10 quilômetros, até Casas de Don Antônio.
A entrada neste pequeno povoado se faz sobre o rio Ayela, por uma bela "puente medieval" de origem romana. Porém, o traçado do caminho apenas bordeja esse pequeno vilarejo. Mesmo assim, é possível visualizar, à distância, sua belíssima igreja matriz, dedicada a Nossa Senhora da Assunção, uma portentosa edificação do século XV.
O trajeto seguiu plano, beirando grandes fazendas de gado pelo lado direito da rodovia, passando, em diversos locais, junto a alguns "miliários" da época romana e, também, sobre uma pequena e graciosa ponte medieval pela qual se transpõe o riacho Santiago.
Mais à frente atravessei a "N-630" e avistei, distante uns 600 m do roteiro, a cidade de Aldea del Cano. A partir dali, a trilha estreita-se e torna-se bastante acidentada, porém o percurso permanece plano e bem sinalizado e, em muitos trechos, as setas estão pintadas nos troncos das árvores que ladeiam a trilha.
Além de grandes rebanhos bovinos, o gado ovelhum é uma constante nesse trecho, sempre acompanhados por pastores e seus fiéis cães guardadores.
Logo depois de atravessar uma pista de vôo, na verdade, o aeroporto de Cáceres, pude avistar Valdesalor, onde cheguei, exatamente às 12 h, após transpor o rio Salor sobre uma grande e belíssima ponte romana, ainda bem preservada.
Esta cidade foi fundada em 1963, aliás, uma criação do Instituto de Colonização durante a implementação do célebre "Plano Badajoz", sendo uma das grandes empresas do Generalíssimo Franco.
Em seus arredores plantavam algodão, tabaco e maiz, porém, posteriormente entrou em decadência em face às disposições européias que regulamentam tais culturas. Atualmente, em declínio, conta com apenas 620 habitantes e é uma povoação integralmente dependente de Cáceres.
Um fato interessante a respeito dessa localidade revela que ao término de sua construção, num dos locais cavados, foram encontrados 160 denários, antiga moeda romana de prata, datados do ano 81 a.C.
O caminho neste trecho apenas ladeia a cidade e por lá não vi estabelecimento de comércio. No entanto, logo à frente, à beira da rodovia, encontrei um posto de combustível com bar e restaurante, onde tomei café, fiz um lanche e pude renovar as forças, pois, ainda me restavam 11 quilômetros a percorrer.
A partir dali a sinalização se encontra bastante deficiente. É preciso ultrapassar a Autovia Nacional sobre uma passarela, porém, ao descer do outro lado, não encontrei flechas, apenas, um largo caminho de terra que segue paralelo à "N-630".
Embora, um tanto inseguro, pude observar no solo marcas de botas, certamente, de outros peregrinos que me antecederam. Assim, mais confiante, prossegui em frente e, após uns 3 quilômetros, avistei novamente as abençoadas setas amarelas pintadas num mourão de pedra, fincado junto a enormes cercas alambradas que delimitam uma zona militar.
Depois de vencer íngreme e pedregosa ladeira, já no topo da elevação denominada "Puerto de las Camélias", pude divisar Cáceres, minha meta naquele dia. E, logo depois, adentrava à sua zona urbana.
O acesso à cidade se faz por larga e movimentada avenida. Nesse ponto, as flechas desapareceram e sem direção, me perdi. Então, fui pedindo informações aos transeuntes, até chegar, às 15 h, ao centro histórico da cidade. Hospedei-me, próximo dali, no Hostal Qazeres, onde só havia apartamentos duplos, ao preço de 37 Euros.
Após banho e almoço, fui visitar a "Ciudad Monumental", que está concentrada no alto de uma elevação e é famosa por seus castelos, edifícios religiosos, igrejas e monumentos da era medieval. Com destaque para o Palácio Episcopal, o Palácio dos Golfines e a Catedral de Santa Maria, em estilo gótico, todos do século XV.
Fundada por Lúcio Cornélio Barbo, no século I a. C., era uma colônia romana nominada de "Norba Cesarina" e desde o ano de 1.986, seu "casco antigo" é Patrimônio da Humanidade declarado pela UNESCO.
Neste dia, mais uma vez, não vi nem encontrei nenhum outro peregrino, nem mesmo aqueles com os quais havia pernoitado na noite anterior.

Tempo gasto: 8 h
Sinalização: Boa até Valdesalor, depois um tanto deficiente
Clima: Com temperatura variando entre 3 e 15 graus.
Impressão pessoal: Trajeto agreste e plano, todo feito em chão de terra por excelentes estradas rurais. Apenas os derradeiros 5 quilômetros foram feitos em uma trilha bastante pedregosa. A entrada em Cáceres é longa e um tanto opressiva. Há que se considerar, também, a distância percorrida de razoável amplitude.

10ª Jornada - Cáceres a Cañaveral - 45 quilômetros: "O Caminho da Solidão!":

Levantei-me, como de costume, às 6 h, mas, só parti às 7 h, pois o dia apresentava-se frio e nublado.
A saída da cidade se faz caminhando em direção a "Plaza de Toros", ultrapassando-a pelo lado esquerdo. Até ali não encontrei nenhum referencial, no entanto, logo abaixo, as primeiras flechas amarelas deram o "ar da graça".
O monumento a "La Lavandera" é a última alusão à zona urbana de Cáceres. Logo à frente adentrei a uma pista asfaltada privativa a pedestres e ciclistas. Por ela prossegui até uma rotatória e ali encontrei o primeiro "monjón" de granito, cuja seta indicava o acostamento de uma movimentada rodovia vicinal.
Em pouco tempo, o brilho da cidade ficou para trás e, agora, somente as luzes dos faróis de veículos me guiavam. Durante um bom tempo, o único som que ouvi foi o zumbido de motores e pneus sobre o pavimento asfáltico.
Mais à frente, 2 quilômetros percorridos, adentrei pelo lado esquerdo em uma estrada de terra, cujo leito plano e agradável, me levaram à Casar de Cáceres, onde cheguei às 8 h 30 min, após percorrer 11 quilômetros. Observei as casas e pude ver o sol da manhã iluminar os telhados e as folhas da primavera que caiam das árvores, atapetando a bela cidadezinha em brilhantes tons de vermelho e dourado.
Algumas crianças iam à escola, possivelmente em Cáceres, e esperavam o ônibus numa esquina. Um casal idoso caminhava pela calçada, um deles se apoiava numa bengala, enquanto o braço livre entrelaçava orgulhosamente o da companheira. Num cruzamento adiante, o guarda de trânsito discutia com um motorista de caminhão e, por toda a parte, os lojistas se preparavam para mais um dia de labuta, expondo seus artigos.
Senti, naquele momento, que as cenas corriqueiras daquele cotidiano não faziam parte do meu mundo. Assim, segui adiante e, mais à frente, passei defronte à igreja matriz, dedicada à Nossa Senhora de "la Asunción", edificada no século XV, cujo estilo gótico, predominante em sua fachada, se mostrava muito interessante. Um detalhe me chamou a atenção em seu telhado e torres laterais: inúmeros ninhos de cegonha em açodada construção.
Na cidade existe um bom albergue, localizado na praça central do povoado, em frente ao prédio do "Ayuntamiento". Porém, como não há nada perfeito, os peregrinos que ali pernoitaram e com quem conversei posteriormente, reclamaram do barulho noturno de conversas de jovens que freqüentam a praça. E, ainda, do relógio instalado no prédio da Prefeitura, cujas campanadas sonoras, a cada quinze minutos, dificultavam conciliar o tão almejado sono.
No trajeto encontrei diversos bares abertos, vez que a cidade é de razoável tamanho. Num deles entrei e fiz meu desjejum. Vale mencionar que este "pueblo" é famoso por suas tortas, na verdade, são queijos cremosos feitos com leite de ovelha. Fiquei curioso, mas, não pude experimentar a iguaria, pois, só vendem a peça inteira, o que arrefeceu minha gula.
Já saindo da povoação, passei ao lado de vistosa igrejinha dedicada à Santiago. A partir dali, eu percorreria mais 34 quilômetros totalmente despovoados, sem possibilidade de adquirir água ou mantimentos.
Numa rua à frente, fleti à esquerda e logo acessei agradável e larga estrada de terra que segui, tendo por ambos os lados, imensas fazendas, a perder de vista. Assim, caminhei sempre no topo de uma elevação, onde a visibilidade do horizonte é ampla, pois o roteiro atravessa zonas praticamente sem vegetação alta, porém, há muito verde ao redor, graças aos pastos sem fim.
Nesse planalto, vestígios da época romana interagiam com a natureza onde pássaros, animais silvestres e gado leiteiro, permanecem num ambiente árido e, aparentemente, imutável. Durante esse trajeto surgiram algumas cancelas. Depois de passar pela "Finca de Cumbre Oscura", caminhei num trecho bem conservado da antiga calzada romana, entre muros de pedras alinhadas, ao longo de vários quilômetros, num traçado invariável, apesar dos séculos transcorridos.
O caminho seguiu plano, deserto e agradável por uns 15 quilômetros até que avistei à direita, ao longe, o imenso "Embalse de Alcântara", minha meta naquele dia.
O local surpreendeu-me pela visão de grandes domos de granito que assumem formas caprichosas, criadas pela natureza no afã de imitar-se a si mesma. São enormes figuras pétreas, estáticas, esculpidas pela ação da chuva, sol e vento, cujos formatos lembram um osso, um touro e um dinossauro.
Sem dúvida, obras de arte expostas sob o azul do céu, durante milhares de anos. Assim, deslumbrado, fiz uma pausa para reflexão, admiração e fotos.
Logo à frente, segui em direção à "N-630", porém, próximo à rodovia, dobrei à direita e segui paralelo a ela por aproximadamente 1 quilômetro, através de uma trilha extremamente perigosa e acidentada devido a bruscos e acentuados aclives e declives. Desse modo, acredito que a melhor opção é seguir direto pela "carretera", isto porque, logo à frente, os caminhos se fundem.
Ao atingir a confluência, prossegui mais 5 quilômetros por asfalto, num percurso difícil, triste e solitário, provavelmente, reflexo do dia cinzento.
Após ultrapassar duas enormes pontes que cortam, respectivamente, os rios Almonte e Tajos, deixando para trás o club náutico e a estação ferroviária, cheguei às "ruínas" de Alcântara. Ali, uma placa à beira da pista informava que havia um albergue turístico situado a 500 metros, à esquerda, em direção à represa, onde a hospedagem custava 15 euros.
Ainda era cedo, ventava forte e o local encontrava-se completamente deserto. Um prédio localizado à beira da pista onde antigamente funcionava o Hostal Miraltajo, se achava abandonado e em escombros. Fiz ali uma pausa para lanchar e recobrar as forças.
Desanimado, em virtude do desconforto e solidão que sentia naquele local, resolvi prosseguir em frente, embora já tivesse caminhado 30 quilômetros. O caminho segue à direita da "carretera", em razoável aclive, por uma larga e pedregosa estrada de terra. Por ali também passava a antiga calçada romana e, assim, nesse trecho, ambos os roteiros se fundem.
Mais acima, prossegui entre enormes fazendas de criação de gado, num extenso planalto, com ampla vista da região. Logo à frente, numa ravina, visualizei Canãveral no horizonte e, embora estivesse distante uns 10 quilômetros, sua inesperada aparição robusteceu, sobremaneira, meu desalentado ânimo.
Numa curva do Caminho, avistei, ao longe, 3 peregrinos à minha frente. Tal visão me deixou, ao mesmo tempo, curioso e animado. Segui-os, durante mais de uma hora e lentamente me aproximei do grupo, quando já faltavam uns 3 quilômetros para chegar.
Assim, ultrapassei-os, ao fazeram uma pausa para refrigério. Cumprimentamo-nos e soube, então, que eram franceses, estavam todos na faixa etária dos 60 anos e haviam pernoitado em Casar de Cáceres.
Mais à frente, uma placa indicava a direção a seguir: à esquerda, aqueles que pernoitariam em Canaveral como eu; à direita, aqueles que iriam adiante, possivelmente, até Grimaldo, 9 quilômetros à frente.
Às 15 h passei sobre a famosa ponte medieval de São Benito, interessante construção do século XIV, ainda perfeitamente conservada. Uma leve subida e logo cheguei novamente à "N-630", rodovia que corta Canãveral, em toda sua extensão.
Pude notar curioso que na entrada da povoação existe uma grande fonte, talvez a maior construção nesse estilo que vi desde Sevilha. Também, observei as originais formatações das chaminés instaladas nas vivendas desse povoado, uma obra típica da região.
Segui, então, em frente, pelo asfalto até o Hostal Málaga, onde cheguei às 15 h 30 min, e fiquei muito bem instalado, por 20 Euros.
O proprietário, Sr. Alfonso, pessoa especialíssima, ao verificar que eu me encontrava extremamente cansado e faminto, insistiu para que eu, primeiramente, tomasse banho e almoçasse (8 Euros), para só depois fazer meu registro no estabelecimento e receber o pagamento da diária.
Mais tarde saí para visitar a cidade e comprar provisões para o dia seguinte. Na Casa da Cultura consegui acessar a internet, graciosamente. E, ainda, pude conhecer a igreja dedicada a Santa Marina, do século XIV, padroeira da urbe.
À noite, no bar do Hostal, encontrei Juan, um simpático senhor de nacionalidade chilena, expulso de seu país por Pinochet. Disse-me que morou e lecionou dez anos no Brasil, sendo, 5 deles no estado de São Paulo. É Artista Plástico de renome, radicado a alguns anos naquela localidade e consegue se expressar em oito diferentes línguas, inclusive, no idioma russo.
Foi, sem dúvida, um revigorante congraçamento, regado a um saboroso vinho tinto, que deixou gratíssima lembrança, mormente pelos "causos" relatados de perseguições políticas vivenciadas pelo meu interlocutor, ao tempo em que morava na nossa abençoada pátria.
Mais tarde, fiz apenas um leve lanche no quarto onde pernoitaria, preparando-me para a dura jornada que enfrentaria no dia seguinte.

Tempo gasto: 8 h 30 min
Sinalização: Normal
Clima: Nublado e ventoso, com temperatura variando entre 3 e 10 graus.
Impressão pessoal: Trajeto longo e bastante cansativo. Sem dúvida, uma das etapas mais difíceis de toda minha peregrinação, mormente, pelos derradeiros 15 quilômetros, posto que trilhados numa estradinha extremamente pedregosa, que magoam sensivelmente os pés. Há que se ponderar, também, a longa e árdua distância percorrida nessa jornada.

11ª Jornada - Cañaveral a Carcaboso - 40 quilômetros: "Superação!":

Estava escuro, ventava forte e fazia muito frio quando deixei o Hostal às 6 h 30 min, porquanto, como a jornada seria longa, resolvi partir bem cedo.
Segui pelo asfalto até o final da zona urbana, contudo, naquele ponto as flechas simplesmente desapareceram. Procurei indícios de sinalização nas placas, árvores, mas, debalde. Assim, me sentindo inseguro e sem ter a quem recorrer, retornei a um posto de combustível localizado na saída da cidade.
Lá, aguardei a chegada de um funcionário que abriu o estabelecimento, exatamente às 7 h, quando pude, então, obter informações mais consistentes. Desse modo, segui pelo asfalto, em forte ascensão, até ultrapassar a estação ferroviária de Renfe, que deixei à minha direita.
Logo à frente acessei uma rotatória e, ainda pelo asfalto, tomei o rumo de Puerto de los Castanhos. Uns 200 metros depois, as flechas me conduziram a um caminho de terra, à esquerda, e logo passei em frente de uma igrejinha dedicada a San Cristóbal.
Iniciou-se, então, forte subida na direção de um morro, através de uma senda "cortafuegos", onde no topo existe uma torre de repetição de sinais para TV. Ali, a paisagem mudou bruscamente e passei a caminhar por um frondoso bosque de pinheiros, em grande descenso, finalizando defronte um grande hotel, à beira da "N-630".
A partir dali, o caminho seguiu em meio a agradável bosque de encinas e enormes fazendas de criação de gado. O terreno era plano e arborizado, o que, sem dúvida, tornou o trecho um dos mais belos e fáceis de todo o Caminho.
Mais à frente, há um muro de pedras, à esquerda, cuja extensão se perde no horizonte, sem contar as inúmeras cancelas que precisei abrir e fechar. Sem dúvida, um dos "tramos" mais interessantes e belos por onde passei.
No entanto, em certo lugar topei com 8 vacas, de enormes chifres, deitadas na trilha, que me olhavam fixamente. Aterrorizado, passei rapidamente entre elas, quase roçando-as (três eram negras e cinco vermelhas). É certo que me observavam com atenção, porém, não moveram um só músculo.. Aliás, um desafio superado, sob forte tensão. Ufa!!
Depois disso, percorri mais 3 quilômetros e visualizei setas indicando a entrada da cidade de Grimaldo, localizada a uns 500 metros do Caminho, à beira da "N-630", onde existe um razoável albergue.
Mais à frente, caminhando por larga estrada de terra, num cruzamento chamado "Cuatro Términos", seguindo a sinalização, fiz largo giro à direita e iniciei forte descida que terminou junto ao Embalse de Riolobos.
Na seqüência, acessei uma estrada em asfalto de pouquíssimo tráfego e segui por ela aproximadamente 1 quilômetro, até entrar à esquerda por larga e plana estrada de terra, em direção à "Finca Valparaíso".
Para minha surpresa, debaixo de uma árvore, dois peregrinos descansavam. Eram Karl e Walfrid, simpáticos alemães, que haviam pernoitado em Grimaldo. Karl se expressava bem em inglês, de maneira que pudemos conversar sem maiores dificuldades. Ao mesmo tempo ele servia de intéprete para Walfrid, pois, este só compreendia sua língua pátria.
Após uma pausa para fotos e curta prosa, segui adiante e depois de ultrapassar a "Fuente del Sapo", prossegui tendo, à minha direita um grande canal, com importante volume de água, que serve para irrigar as hortas e plantações existentes naquele trecho.
Então, às 12 h, cheguei a um cruzamento, onde me quedei pensativo. Pois, as setas indicavam que deveria seguir à esquerda, por uma via de terra, em direção à Aldehuela del Jerte. Porém, os "monjóns" sinalizavam que eu deveria seguir adiante, por uma estrada asfaltada que coincide com a antiga calçada romana.
Naquela malfadada data, verificando meus mapas, optei pela segunda alternativa que, por certo, não foi uma boa escolha, pois, precisei superar inúmeras dificuldades, até atingir meu objetivo.
Estrategicamente, depois de minha experiência nesse trecho, concluí que a passagem por Galisteo, "la Ciudad Muralla", além de encurtar significativamente o trajeto, é, sem dúvida, a melhor opção.
Desse modo, segui 11 quilômetros por asfalto, num trajeto dificílimo, sem sinalização e sob sol escaldante, até reencontrar a "N-630". Então, fleti à esquerda e segui ainda por 2 quilômetros pela rodovia até atingir, às 14 h 30 min, a cidade de Carcaboso, minha meta naquele dia.
A pequena vila, cuja fundação data do século XIII, é famosa pela qualidade dos doces ali fabricados, como roscas, bolos de leite, quitutes, etc.. Ademais, apenas, 11 quilômetros, pela "carretera" EX-307, me separavam de Plasência, famosa cidade espanhola, uma das maiores da Província de Cáceres.
Assim, curioso, pesquisei o "estranho" nome "Carcaboso" que advém de "cárvara", cujo significado é uma grande valeta ou canaleta produzida por uma corrente de água, provavelmente porque a cidade se encontra assentada sobre um terreno extremamente argiloso, onde o fenômeno da erosão é uma constante.
Ali fiquei hospedado na pensão de Dona Elena Carrascal Repilado (10 Euros), uma senhora simpática e amável, que se tornou uma das principais "referências" da Via de la Plata, posto que trata todos os peregrinos com extremado carinho e apreço. Por sinal, localizei-a descansando no bar Ruta de la Plata, que pertence a um de seus genros.
A construção do alojamento é recente, confortável e pode abrigar até 11 pessoas. Embora o banheiro seja de uso coletivo, tive a oportunidade de ocupar um quarto individual, onde existia 2 camas. Mais tarde chegaram os 2 alemães que havia ultrapassado, Karl e Walfrid, além de 2 ciclistas espanhóis.
Fiz minhas refeições no restaurante do novíssimo Hostal Ciudad de Cáparra (10 Euros), de excelente qualidade. Mais tarde saí para fazer compras numa "tienda" e aproveitei para conhecer a igreja de Santiago Apóstolo, cujas colunas de sustentação na porta de entrada, exibem os números CII e CIII, anos 52 e 53 d. C, época áurea dos Imperadores Trajano e Adriano.

Tempo gasto: 8 h
Sinalização: Um tanto ruim até Puerto de los Castanhos, depois torna-se excelente.
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 3 e 17 graus.
Impressão pessoal: Trajeto bonito e fácil nos primeiros 27 quilômetros do percurso. Após, bastante cansativo pelos derradeiros 13 quilômetros, feitos em asfalto, sob sol quente. Há que se considerar, também, a longa distância a ser percorrida nessa jornada.
Importante: Optar pelo roteiro que passa pela cidade de Galisteo, sem dúvida, o mais atraente e de menor extensão.

12ª Jornada - Carcaboso a Aldeanueva del Camino - 38 quilômetros: "O grande desafio!" -

Finalmente, me deparava nesse trecho com a etapa "Rainha" de todos os Caminhos. Isso me deixou assaz preocupado e acabei não dormindo bem. Por conta disso, às 5 h 30 min, já estava desperto me preparando para uma intensa e inesquecível jornada.
No dia anterior havia verificado a saída da cidade, de forma que parti ainda no escuro, às 6 h 30 min, por ruas desertas e logo adentrei em larga e plana estrada rural, muito bem sinalizada, sempre bordejando um grande caudal de água.
Assim, segui em meio a enormes fazendas de criação de gado, delimitada por porteiras, onde pacíficos rebanhos de gado ruminavam mansamente. Em diversas ocasiões tive que passar ao lado das reses, sempre com muita cautela.
Ao final de uma "finca" ultrapassei o canal de Jerte, que possui um volume d´água superior a todos aqueles que havia transposto naquele dia. Mais à frente, adentrei por bosques de "alcornoques" despidos de folhas e casca, onde havia enormes pedras repletas de mugos e ruínas da estrada romana, num trajeto plano, silencioso e verdejante.
Às 10 h, 15 quilômetros percorridos, aportei à "finca de Venta Quemada", onde existe somente uma grande casa à beira do asfalto. Porém, verifiquei que não havia possibilidade de conseguir mantimentos, posto que ali não se pratica nenhum tipo de comércio.
O fato é que os sitiantes da região, dedicam-se, apenas, ao pastoreio e fabricação de queijos. Ademais, quando o leite está em processo de coalho, não podem interromper o processo para atender peregrinos que, amiúde, solicitam água no intuito de repor o precioso líquido no corpo.
Fiz ali breve pausa para o lanche e alongamento, pois, sentia um princípio de cãibras na perna esquerda. Depois, revigorado, segui em frente. O roteiro prosseguiu em franco descenso, entre árvores de grande porte, num trajeto plano, agradável e sem maiores dificuldades.
Às 11 h 30 min, depois de percorrer um total de 20 quilômetros, cheguei ao magnífico Arco quadriforme de Cáparra, de 9 metros de altura, o ponto alto desta jornada. Trata-se de uma enorme construção solitária num grande planalto, em meio a um olival e ruínas de antigo "ayuntamento" romano. Num miliário próximo, recentemente recuperado, há uma inscrição do ano CX (60), época em que Nero era o Imperador de Roma.
Segundo os historiadores, a povoação ocupava uma área total de 15 hectares e chegou a ter 2.000 habitantes, uma cifra muito superior à população de inúmeras cidades que cruzei pelo caminho, algumas das quais não superam uma centena de pessoas.
Existem grandes escavações sendo feitas próximo dali, pois Cáparra foi, durante séculos, motivo de atenção por parte de curiosos e eruditos, centrada especialmente em seu elemento mais atrativo e melhor conservado: o "Arco Tetrapylon", único do gênero na Península Ibérica.
Fiz novamente uma pequena parada para fotos e lanche, depois prossegui por um caminho plano e agradável, entre grandes pastagens, cruzando vários riachos e porteiras até sair, mais à frente, numa estrada asfaltada, que vai até Zarza de Granadilla. À minha direita podia observar a magnífica "Sierra de Gredos", que é composta por uma impressionante cadeia de montanhas.
O caminho de terra seguiu paralelo à rodovia, até alcançar mais abaixo a "N-630", onde é preciso prestar atenção, porque neste ponto o Guia está defasado. Nesse local, as flechas indicam que devemos passar por baixo de um pontilhão e depois transpor o rio Ambroz, sobre pedras.
Em seguida, observando as setas, ultrapassei uma porteira fechada à cadeado e entrei numa grande fazenda de gado, onde, um enorme rebanho pastava. Num poste de cimento, três grandes setas indicavam a direção a seguir.
Assim, segui as flechas, mas, logo me perdi, pois as marcações desapareceram. Desesperado, com meu estoque de água se findando, saltei mais 3 cercas e sem saber para onde me dirigir, por fim, acabei, com grande dificuldade, retornando embaixo do pontilhão.
Atualmente, paralela à N-630, passa a "Autovia Nacional", mas, a sinalização não foi modificada, o que induz o caminhante a erro, como aconteceu comigo.
O correto é acessar a "carretera" N-630, que esta à esquerda da Autovia, e por ela seguir mais 7 quilômetros, indo até Aldeanueva del Camino, minha meta naquele dia. Assim, nesse trecho, exceto os dois ciclistas que me ultrapassaram no trigésimo quilômetro, não visualizei nenhum outro peregrino no caminho.
Ali fiquei alojado no Hostal Montesol (15 Euros), onde também fiz minhas refeições (8 Euros).
Depois de tomar meu banho, almoçar e lavar roupas, fui dar uma volta pela graciosa cidadezinha, onde a maioria das habitações possui bem cuidados balcões floridos. Famosos, na localidade, são os ramos de castanheira que ali tem utilidade na fabricação artesanal de cestos, bengalas e cajados.
Aproveitei, então, para conhecer o albergue, onde carimbei minha credencial. A hospitaleira Balbi, uma senhora simpática que reside próximo dali, me contou que havia chegado naquele dia, apenas dois ciclistas, porém, tinham seguido de táxi até Plasência para consultar um médico ortopedista, vez que um deles sofreu uma queda e estava com sérios problemas em um dos joelhos.
No retorno ao local de pernoite, parei para conhecer as igrejas de San Servando e de Nuestra Señora del Olmo, ambas do século XV. E, ainda ultrapassei a "puente medieval sobre la Garganta de la Buitrera", célebre construção de um só arco, cimentada sobre rocha viva há mais de 2.000 anos, sendo considerada uma jóia da arquitetura militar romana.

Tempo gasto: 9 h
Sinalização: Excelente até o cruzamento da "N-630" com a Autovia Nacional.
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 4 e 17 graus.
Impressão pessoal: Trajeto bonito e fácil nos primeiros 32 quilômetros de percurso. Depois, bastante cansativo pelos derradeiros 7 quilômetros feitos em asfalto, sob sol quente. Há que se considerar, também, a longa distância a ser percorrida nessa jornada.
Importante: Observar, com atenção, o encruzo da "carretera" N-630 com a Autovia Nacional, quase no final da jornada.