Livro Completo

VIA DE LA PLATA 2008 - Parte III

Oswaldo Buzzo

13ª Jornada - Aldeanueva del Caminho a Fuenterroble de Salvatierra - 43 quilômetros: "Subindo sempre!"

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A jornada seria longa e difícil, assim, levantei à 5 h e parti às 6 h, ainda no escuro.
Os primeiros 10 quilômetros foram feitos pelo acostamento da "N-630", um percurso em leve, porém, constante ascensão.
Às 8 h, adentrei à simpática e bela cidade de Banõs de Montemayor, cujas águas termais jorram numa temperatura de 42º C, sendo seus banhos famosos antes mesmo da dominação romana, no ano de 218 a. C. Porém, naquele dia, tudo ali estava fechado, ninguém na rua, apenas, alguns carros circulavam apressados.
Interessante notar que as grandes planícies por onde havia trilhado nas jornadas pretéritas, tinham desaparecido e, ao meu redor, visualizava enormes montanhas, à exceção do sul, de onde vim caminhando.
O roteiro prosseguiu por um caminho de terra, paralelo à rodovia, num traçado que coincide com a antiga calçada romana e, mais à frente, tornou a fundir com a "carretera". Mais alguns quilômetros e ultrapassei a divisa das províncias de Cáceres e Salamanca, de sorte que saía da região de Extremadura para adentrar à Castilla e León. Imediatamente as marcações deixaram de ser feitas nos "monjóns" terrestres e voltaram a ser, unicamente, por flechas suspensas.
Sempre subindo, atingi a cidade de Puerto de Béjar. Ali o roteiro segue à esquerda pelo denominado "Caminho Real", uma via utilizada desde a antiguidade pelos romanos e, posteriormente, pelos peregrinos que demandavam à Compostela.
A estrada de terra, larga e bastante arborizada é extremamente deserta, agradável e cercada por intermináveis bosques, onde sobressaem castanheiras e carvalhos. Mais à frente, logo após brusca descida, ultrapassei o rio Cuerpo de Hombre sobre a famosa "Puente de Magdalena", uma visão imperdível.
Na saída da ponte, vi vários miliários, dois dos quais me chamaram a atenção, vez que há inscrições gravadas: CXXXIII e CXXXIV, indicando os anos 123 e 124 d. C, dedicados aos imperadores Caracalla e Trajano.
O caminho seguiu em meio a um grande vale, numa estrada rural gramada e de fácil trânsito. Às 11 h, 23 quilômetros percorridos, iniciei forte subida por uma trilha pedregosa, que no final desaguou na cidade de Calzada de Béjar.
Ali existe um excelente albergue particular, novo e confortável, próximo da entrada da vila, batizado de "Alba Soraya", não por acaso, pois, trata-se dos nomes das filhas dos hospitaleiros Manuela e Maxi.
O povoado tem mais ou menos 100 habitantes, é extremamente simpático e acolhedor. E, ainda, mantém vivo seus encantos etnográficos, como balcões de madeira adornados por gerânios, vigas ao exterior assentadas sobre colunas pétreas e pessoas sentadas nas portas das casas em animadas conversas.
Encontrei um bar aberto e nele lanchei e tomei café. Aproveitei a pausa para rápida visita à igreja de "la Asunción", que, surpreendentemente, encontrava-se aberta. O Sr. Antônio, o responsável pela manutenção do templo, me recebeu com simpatia e "sellou" minha credencial.
Contou-me, também, alegremente, que um dos irmãos do Padre Blás, a quem teceu rasgados elogios, reside naquele "pueblo" e que o Cura, com freqüência, vem visitá-lo, para felicidade e orgulho da população local.
Na parede direita do presbitério, pude admirar uma fotografia, onde aparecem dois religiosos. Ante minha curiosidade, o sacristão explicou que ambos foram fuzilados na Guerra Civil espanhola e que serão declarados santos em breve. Identificou os "beatos" como Julián, de Salamanca, e Antônio Maria Martin, de Calzada de Béjar, batizado naquela igreja, asseverou-me, indicando a pia sacra.
Descansado, contudo, pensativo, segui em frente por uma estrada plana e arborizada. Na seqüência, despertou minha atenção um grupo de 8 cegonhas correndo pelo campo à caça de comida. Imaginei filhotes no ninho, aguardando a mãe com a esperada refeição. E essa cena insólita se repetiu mais algumas vezes ao logo desse dia.
No meu lado direito, uma enorme cadeia de morros, cobertos de neve no cume, me acompanhou durante boa parte do trajeto, um deleite para meus olhos. O caminho seguiu entre fazendas de criação de gado da raça Morucha e, numa delas, dois homens consertavam uma porteira.
Perguntei-lhes sobre as montanhas ao fundo e disseram-me que se tratava da célebre "Sierra de Béjar", famosa por abrigar numerosos hotéis de luxo em seus arredores. Ali, no inverno, em razão da extensão de suas alças, com declive suave e tratamento especial do manto de neve, torna-se um local ideal para desportes em família e são freqüentes os campeonatos de esqui, inclusive, a nível nacional.
Segui em frente, por uma agradável estrada rural orlada por grandes carvalhos, sempre em leve ascensão e cheguei, às 12 h 30 min, em Valverde de Valdelacasa, pequena povoação, onde não encontrei nenhum comércio aberto.
O sol brilhava com intensidade no céu límpido e azul, porém, a temperatura mantinha-se baixa, em virtude da agradável brisa fria que soprava do norte.
O caminho prosseguiu por asfalto, sempre subindo e, depois de 4 quilômetros, cheguei em Valdelacasa, às 13 h. Nesse trecho ultrapassei 2 peregrinas alemãs, por coincidência irmãs, que haviam pernoitado em Calçada de Béjar.
Na cidadezinha, também, não vi nenhum bar ou "tienda", onde pudesse aplacar minha sede, contudo, num local próximo, dois senhores enchiam inúmeros tambores numa fonte, certamente, para matar a sede do gado em alguma fazenda da redondeza.
Indaguei-lhes sobre a qualidade da água, pois, meu estoque estava se findando. Disseram-me que o líquido que jorrava do cano maior não era confiável, contudo, o que vinha através do menor fluxo era de excelente qualidade. Assim, dessedentei com folga e aproveitei para encher a garrafa plástica que levava.
Seguindo as flechas, prossegui pelo asfalto e, 2 quilômetros à frente, acessei agradável e larga estrada de terra pelo lado esquerdo e, por ela segui, sempre subindo, ainda por mais 5 quilômetros, até chegar, às 15 h, em Fuenterroble de Salvatierra, cidade situada no cume de um morro, à 1.000 m de altitude.
Estava na terra do famoso Padre Blás Rodriguez, um dos maiores "paladinos" dessa Rota. Assim, imediatamente me dirigi ao belo albergue localizado no outro extremo do pequeno vilarejo.
Na entrada da vivenda, uma frase esculpida em madeira me chamou a atenção: "A ti peregrino imortal que está no caminho, que o amor e a paz de Deus te acompanhem sempre e que com sua voz dócil, passe pela terra semeando o bem."
No entanto, não consegui me hospedar nesse local, pois o hospitaleiro, um holândes, não compreendia meu idioma, e com muita dificuldade pude entender que sem possuir saco de dormir não poderia me abrigar, pois não forneciam mantas. Desse modo, não insisti, vez que as noites ali são enregelantes e sem cobertor eu congelaria.
Assim, procurei outra alternativa e me hospedei na Casa Rural Páqui (25 Euros), excelente habitação. Para almoçar utilizei os serviços do Bar Pasebre, o único existente no povoado, visto que, para complicar era sábado e as duas únicas "tiendas" existentes na cidade já haviam cerrado suas portas.
Mais tarde retornei ao albergue, um dos mais acolhedores do Caminho, para "sellar" minha credencial. Atendeu-me, então, o cozinheiro do Padre Blás, um senhor italiano muito simpático, que desfez o mal entendido.
Disse-me que o albergue fornece sim lençol e mantas aos peregrinos e, o pagamento era feito através de donativos. Contudo, tal informação chegava tardiamente, isto porque, embora sozinho, estava muito bem acomodado.
O Cura Blás, o maior "ícone" desse roteiro, estava ausente à testa de uma peregrinação pelos distritos "cercanos", e só retornaria na segunda-feira, de modo que, infelizmente, não pude conhecê-lo.
Esse desencontro, sinceramente, lamentei em profusão, porque sua "benção" pessoal é um desejo de todo peregrino que percorre esse Caminho.
À tardinha fiz breve "siesta", depois visitei a igreja de Santa Maria la Blanca, magnífica construção gótica do século XV, de sólida torre, com um espetacular retábulo atribuído ao famoso artista espanhol Churriguera.
Junto ao templo existe um pequeno e instrutivo parque dedicado à Via de la Plata, onde há explicações a respeito de sua origem, técnica de construção, puentes, etc..
À noite retornei ao albergue para uma ceia comunitária, junto com os outros 9 peregrinos ali alojados. Nessa oportunidade, pude conhecer o interior daquela abençoada construção e, confesso, algumas frases ali gravadas me chamaram a atenção.
Por exemplo, no alpendre da porta de entrada em direção aos dormitórios, uma expressão em várias línguas saúda a todos, nestes termos: "Dei ordens aos meus anjos para que protejam o teu caminho". À saída, pelo lado interno, outra locução dirigida ao peregrino que parte: "Busca a paz sempre e com ela caminha".
Sem dúvida, este povoado de apenas 250 habitantes, foi um dos lugares mais emblemáticos que conheci e pernoitei durante minha peregrinação, talvez, naquele em que me senti mais protegido pelas forças celestes.

Tempo gasto: 9 h
Sinalização: Excelente
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 4 e 15 graus.
Impressão pessoal: Um percurso de singular beleza até a metade da jornada. No entanto, desde o início, existe perene aclividade e 2 morros consideráveis a serem vencidos. Há de se considerar, também, que aproximadamente 16 quilômetros são feitos em asfalto. No geral, um trajeto bastante cansativo e de grande dificuldade. Em vista da rudeza dessa jornada, muitos preferem fracioná-la em duas etapas, pernoitando em Calzada de Béjar, onde existe um excelente albergue particular.

14ª Jornada - Fuenterroble de Salvatierra a San Pedro de Rozados - 30 quilômetros: "Pico de la Dueña!"

Era um domingo que amanheceu ventoso e com intensa cerração. Fazia muito frio quando deixei o local em que me hospedei. Parti, exatamente às 7 h da manhã.
Bem agasalhado, desci pela rua principal da cidade em direção ao alberque e, ao chegar na frente do prédio, verifiquei que ali reinava o mais absoluto silêncio, nenhuma luz acesa, ninguém acordado. Tinha esperança de tomar café naquele local santo, contudo, em vista da imobilidade reinante, decidi seguir adiante.
Observando a sinalização, deixei a cidade por uma estrada vicinal asfaltada de escasso tráfego, onde caminhei uns mil metros, se tanto, com minha lanterna na mão para conferir a sinalização. Depois, fleti à direita, seguindo por larga, plana e bem conservada estrada de terra, situada entre extensas fazendas de criação de gado, sempre em perene ascensão.
Lentamente, um toque avermelhado no horizonte anunciou a aproximação do "astro-rei". Não demorou muito e surgiu uma borda estreita, marcada por intensa luminosidade. Era o sol levantando atrás de uma colina, ao longe. De alguma forma, sem parecer que se movimentava, se tornou cada vez mais visível, até que, minutos mais tarde, se fez dia.
A vegetação cambiara novamente, agora predominavam os pastos com algumas árvores isoladas e pequenos morros. No percurso atravessei alguns bosques, mas, afora os animais, não vi carro ou alma viva em todo o trajeto.
Depois, de uma grande reta, ultrapassei uma enorme cruz dedicada a "Antônio", um ermitão que ali vive numa rústica cabana feita com troncos e ramos de árvores.
Às 9 h, 11 quilômetros percorridos, defronte a uma grande porteira, encontrei uma bifurcação bem sinalizada: à direita deveriam seguir os ciclistas através de uma pista asfaltada. E, à esquerda, os que iriam a pé, como eu. Deixei a "finca Morucha", à minha esquerda, fazenda destinada à criação de touros bravios, e prossegui beirando uma cerca de arame.
O trajeto em brusca ascensão tornou-se áspero e selvagem. Havia muitas pedras, mato rasteiro e ramosas árvores a complicar o roteiro deste caminhante. E o céu que se apresentava claro e límpido, bruscamente começou a escurecer, com nuvens negras e pesadas.
O "tramo" final da subida ao cume se fez cada vez mais ríspido e íngreme, por uma trilha estreita, ao lado de grandes rochedos de puro granito. Próximo ao topo da montanha, passei ao lado de grandes torres que servem para captação de energia eólica, qual seja, transformam o vento em energia, já que ali ele sopra com constância e violência.
Lentamente galguei os derradeiros "acidentes geográficos" e, às 10 h, exatamente, ultrapassei o "Pico de la Dueña" que, com 1.200 m de altitude, é o ponto mais alto de toda a Via de la Plata. Fazia muito frio lá em cima, além de ventar com força.
No ponto de maior altitude, destaca-se uma grande cruz de ferro dedicada à Santiago, que ali foi fincada por um artista e peregrino chamado Salvador Castellano, natural da cidade de Zafra.
A vegetação naquele ponto é formada predominantemente de pequenos "robles", para nós, carvalhos, cujas folhas parecem deterioradas, como se estivessem acometidas por alguma enfermidade ou sofrido ataque de pragas, ou mesmo, resultado da intensa umidade ali reinante.
Naquela hora, uma grande cerração cobria o ambiente e, em seguida, começou a nevar, por sorte, eu já estava próximo de um grande bosque de pinheiros e, a partir dali, comecei a descer pelo outro lado do morro. O declínio foi brusco e áspero, forçando, sobremaneira, minhas panturrilhas e joelhos.
Já no sopé, segui à beira do asfalto por uma trilha enlameada e com muita vegetação, quando iniciou uma perene garoa, obrigando-me a vestir a capa de chuva.
Às 11 h 30 min, 22 quilômetros percorridos, passei pela "finca Calzadilla de los Mendigos", um local que abriga grande construção e se dedica à criação de porcos "rojos", para abate, e de touros bravios, para "corridas". A zona ao redor é tipicamente cerealista, ainda que um tanto árida.
O caminho continuou plano e agradável, porém, a chuva tornou-se intensa e, logo depois, desabou um pesado temporal. Continuei em frente pela imensa "planura salmantina" e, uma hora depois, observando a sinalização, virei à esquerda e segui por mais 2 monótonos quilômetros, em meio a plantações de trigo, até atingir, às 13 h, San Pedro dos Rozados.
Nessa cidade fiquei hospedado no excelente albergue privado "El Miliário" (9 Euros). A proprietária, Sra. Elena, que trata a todos com carinho e inigualável desvelo, foi uma das pessoas mais cativantes e atenciosas que conheci na Rota.
Para o almoço, utilizei os serviços do bar Moreno (9 Euros) e à noite jantei no bar Los Claveles (10 Euros).
À tardinha, o tempo estiou e pude passear pela vila, um "pueblo" de casas brancas e de pouca altura, construídas em torno de um pequeno e artístico campanário, delicadamente restaurado. Visitei, então, a igreja de San Pedro, edificada no início do século XVII, que curiosamente se encontrava aberta, certamente por ser domingo.
Estávamos em 5 pessoas no albergue, sendo que 2 franceses encerrariam sua peregrinação no dia seguinte. Ainda, meus 2 amigos alemães, Karl e Walfrid, que confirmaram sua ida até Compostela.
Em relação aos demais peregrinos que haviam pernoitado em Funterroble no dia anterior, tomei conhecimento, no dia seguinte, que as duas irmãs alemãs embarcaram num ônibus até Salamanca, de onde retornariam para sua terra natal. Os outros prosseguiram por mais 4 quilômetros, até Morille, onde existe um novo e confortável albergue.

Tempo gasto: 6 h
Sinalização: Excelente
Clima: Nublado, depois chuvoso, com temperatura variando entre 0 e 12 graus.
Impressão pessoal: Um percurso fácil e bonito até o início da ascensão ao Pico de la Dueña. Depois de transpô-lo, o roteiro continua plano, agradável e monótono até San Pedro de Rozados. No geral, uma etapa bastante interessante, com razoável dificuldade, no caso de seguir pela parte mais alta da montanha.

15ª Jornada - San Pedro de Rozados a Salamanca - 25 quilômetros: "Metade do Caminho!"

A chuva deixou o clima úmido, ventoso e frio. Quando saí às 7 h da manhã, reparei num termômetro pendurado do lado externo do albergue que marcava exatos, 2º C.
Parti do povoado sob os ruídos dos animais madrugadores, muitos latidos de cães e cantos de galo. Uma sinfonia única.
Ainda no escuro, segui por uma estrada de terra plana e larga e, mais à frente, acessei uma rodovia vicinal asfaltada que me levou, em descenso, durante uma hora, até a cidade de Morille.
Tudo estava silencioso e deserto na pequena povoação, ninguém circulava pelas ruas, apenas alguns cães ladraram à minha passagem diante do novo e moderno albergue, instalado numa vistosa residência, onde antigamente funcionava o Posto de Saúde local.
Ultrapassei a pequena vila e prossegui por trilhas bem demarcadas, situadas entre inúmeras fazendas de criação de gado.
Logo à frente, após transpor pequeno riacho, me senti feliz ao alcançar a marca dos 500 quilômetros percorridos, qual seja, metade da jornada cumprida. A manhã estava agradável e meu coração pulsou jubiloso pela conquista.
Apesar do frio reinante, o sol brilhava com intensidade e o chão gramado se encontrava coberto por uma fina camada de orvalho.
No topo de pequena elevação, quando ainda faltavam 15 quilômetros para encerrar a jornada, pude avistar, ao longe, emocionado, as torres da Catedral de Salamanca a se destacar no horizonte.
Naquele local, segundo a história, houve a famosa batalha de Arapiles, frente aos franceses, em 22/07/1812, que serviu de prenúncio à derrocada napoleônica. Nesse memorável dia, a Espanha e seus aliados conseguiram reunir ali 51.900 homens que combateram o exército Galês, composto por 47.000 soldados. É fato que, fruto da renhida luta, nesse dia morreram aproximadamente 18.000 homens, sendo, 13.000 franceses.
O percurso restante, todo plano, se tornou fácil e agradável. Quando ainda restavam 10 quilômetros a percorrer, passei próximo à Miranda de Azán, cidade situada a 300 metros do Caminho.
Já próximo do final da jornada, no topo de um pequeno morro, há um interessante cruzeiro fincado, onde pude, então, desfrutar de visão privilegiada de Salamanca, minha meta naquele dia.
A entrada na parte urbana da cidade se faz por ruas bem sinalizadas, entre grandes olmeiros e, às 12 h, eu atravessava uma enorme ponte romana situada sobre o majestoso rio Tormes, cuja construção data do ano 100 d. C, época do governo do imperador Trajano. Dali pude divisar as torres de suas estupendas Catedrais, a velha e a nova.
Salamanca, conhecida na antiguidade como "Helmantike", Helmantica" e "Salmantica", foi conquistada por Aníbal no século III a.C e, posteriormente, esteve sob o domínio dos romanos. Também, foi ocupada pelos muçulmanos que, posteriormente, foram derrotados por Raimundo de Borgoña, no ano de 1.085, para, depois, integrá-la definitivamente aos reinos cristãos.
Hospedei-me no Hostal Sara (42 Euros), situado próximo aos famosos jardins de "Calysto e Melibea" e, para refeições, escolhi um dos inúmeros restaurantes que funcionam nas imediações.
No retorno ao local de pernoite, permiti-me fazer breve reflexão. Afinal, conseguira atingir um patamar intermediário, no qual podia relaxar, observar o Caminho até ali percorrido e alegrar-me por ter superado inúmeras dificuldades. Agora era imprescindível recarregar as baterias e elevar o espírito para enfrentar os desafios que me aguardavam à frente.
Mais tarde, após breve descanso, fiz um "tour" pelo centro da urbe, que recebeu da Unesco o título de "Patrimônio da Humanidade". Pude visitar, então, alguns prédios que fazem parte de seu conjunto monumental, como a Casa das Conchas, sua Universidade, fundada pelo rei Alfonso IX, em 1.218, bem como o Convento das Dueñas e o Palácio de Anaya, dentre outros.
Depois, segui para a Plaza Mayor, considerada a mais bonita entre todas existentes na Espanha, em razão de sua esmerada configuração. Realmente, a construção, datada de 1.729, nos impressiona pela simetria e beleza, posto que contém 88 arcadas e é adornada por 96 obeliscos, 112 luminárias de época e, exatas, 247 varandas.
Enquanto admirava o maravilhoso conjunto arquitetônico, encontrei com meus amigos alemães, Karl e Walfrid, que estavam chegando naquele instante.
Registramos algumas fotos para a posteridade, e eles seguiram em frente, pois, iriam pernoitar num albergue particular situado próximo à saída da cidade, já que o estupendo refúgio municipal, um edifício de pedra integralmente reformado, situado próximo da Catedral nova, estava em obras.
À noite a temperatura caiu bastante e resolvi fazer apenas um leve lanche no quarto do Hotel.

Tempo gasto: 5 h
Sinalização: Excelente
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 4 e 17 graus.
Impressão pessoal: Um percurso fácil, bonito e em perene descenso, coroado pela chegada à metade da jornada em Salamanca, belíssima e temática cidade, Patrimônio Universal da Humanidade.

16ª Jornada - Salamanca a El Cubo de la Tierra del Vino - 36 quilômetros: "Um dia complicado"!

Para alguns peregrinos, Salamanca é a meta de seu Caminho, pois, encerram sua aventura nessa magnifica e emblemática cidade. Para outros, no entanto, é o ponto de partida rumo à Santiago. Já, no meu caso, eu havia percorrido exatos 518 quilômetros até aquela localidade, restava continuar, porquanto, minha meta final era mesmo Compostela.
A saída da cidade foi fácil, senti que não era tão extensa quanto as outras cidades maiores e, praticamente, tudo em linha reta. Basta partir da Plaza Mayor, depois, seguir pela Calle de Zamora, Avenida de Mirat, Paseo del Dr. Torres Villanoel, Avenida de Portugal e Plaza de la Glorieta, passando à esquerda da Plaza de Toros. A sinalização está no solo, contudo, quase impossível de se ver, mormente, quando ofuscada pela iluminação urbana.
Levantei às 6 h e às 7 h, iniciei minha jornada. Fazia muito frio, com a temperatura na casa dos 5 graus, ótima para caminhar desde que bem agasalhado. Apesar do horário, muitas pessoas já circulavam pelas ruas, dessa forma, se eu ficasse em dúvida, confirmaria meu rumo indagando aos passantes.
Depois de deixar a parte urbana, uma grande avenida, reta e plana, com calçadão lateral, me levou, após 1 hora de caminhada, até Aldeaseca de Armuña. Ali cheguei quando o dia já clareava e num movimentado bar situado à beira da "N-630", tomei meu desjejum.
Em seqüência, seguindo as flechas e os mapas que portava, entrei à esquerda por estrada rural, em meio a imensas plantações de trigo. Mais à frente, passei sob um grande túnel, pois ali existem canteiros de obras que servem de suporte para a construção de uma nova rodovia.
Dois quilômetros adiante, o Caminho se achava obstruído, pois, a cancela que deveria acessar uma "finca" se encontrava fechada com cadeado. Cuidei de escalar o obstáculo, porém, não consegui atravessar o "Arroyo de la Encina", logo adiante, porque a ponte que antes ali existia, fora destruída. Tal infortúnio acabou por obstar meus passos, vez que o rio naquele ponto é bastante largo e profundo.
Sem alternativa, precisei retornar até Aldeaseca e seguir pelo acostamento da "carretera" até uma rotatória, 2 quilômetros adiante. Ali, flechas indicavam que deveria seguir à esquerda, numa estrada vicinal asfaltada, por mais 1.500 m, até a cidadezinha de Castellanos de Villiquera.
Assim, essa manobra infeliz me fez caminhar 5 quilômetros "de graça", atrasando em uma hora meu percurso. Após Castellanos, o roteiro segue entre grandes plantações de sorgo e cevada, por uma estrada larga e plana, de terra batida. Um percurso bucólico, monótono, contudo, extremamente silencioso e agradável.
Mais 5 quilômetros percorridos e cheguei à Calzada de Valdunciel, cidade que não oferece nenhum tipo de serviços ao peregrino, no entanto, dentro do possível, é preciso aprovisionar água, pois, serão mais 20 quilômetros a vencer até El Cubo del Vino, sem local para se abastecer do precioso líquido. Pude ver e admirar nesta pequena povoação, a igreja de Santa Elena, construída no século XII.
Após uma pausa para recompor as energias, prossegui em frente e, um quilômetro adiante, cheguei novamente à beira da "famosa" N-630. Desde Salamanca, essa rodovia está sendo duplicada, de maneira que, nesse local, as obras confluíram com o caminho de terra por onde seguia o roteiro antigo, qual seja, beirando a rodovia pelo lado esquerdo.
Tentei seguir sobre o leito da estrada em construção, porém, 1 quilômetro à frente tive meus passos obstruídos por uma enorme vala. Pior, uma grande edificação cimentada, além de uma cerca metalizada impediam minha passagem para a "carretera", que distava uns 100 metros dali.
O correto seria seguir pelo asfalto, logo de chofre, quando o encontrei. Entretanto, não detinha tal informação. Por conta de mais este lapso, precisei, retroceder uns 500 metros até acessar a "N-630", quando, então, prossegui pelo acostamento da "carretera" por uns 5 quilômetros, até a "Báscula".
Nesse local, tem origem um excelente caminho em terra, bastante arborizado, que me conduziu depois de 5 quilômetros até o Presídio de "Cárcel de Topas", a maior penitenciária da Espanha.
Depois de passar em frente ao enorme complexo, o caminho volta a coincidir com o asfalto, e por ele segui até El Cubo de la Tierra del Vino, a primeira povoação da Província de Zamora, onde cheguei às 16 h, exausto e desgastado, em razão dos infortúnios sofridos nessa longa jornada.
Na cidade existe um novo e moderno Albergue Municipal, porém, encontrei dificuldades para localizar a pessoa responsável pelas chaves. Como me encontrava extremamente fatigado, optei por me hospedar próximo dali, na Pensão de Dona Carmen (10 Euros), onde também fiz minhas refeições (8 Euros).
Mais tarde, após banho e almoço, fui dar um giro pela cidadezinha. Aproveitei para conhecer a santa igreja, cujo padroeiro é Santo Domingo de Guzmán e fazer compras numa "tienda". Ao retornar à Pensão, encontrei numa rua paralela meus amigos alemães, Karl e Walfrid, que chegavam naquele instante.
Acompanhei-os até o albergue que já se encontrava aberto. Enquanto os dois se instalavam pude visitar calmamente o interior do prédio, observar sua construção recente que contém 3 quartos, cada um com 2 beliches.
Além disso, possui agradável sala de estar e ampla cozinha. No lado exterior há uma grande área cercada onde existe tanque e grandes varais para secar as roupas. Tudo muito limpo e bem conservado.
Na saída, vi uma placa explicativa ali instalada pela Fundação Ramos Castro. Nela, um pensamento me chamou a atenção:
"Neste lugar, em que todos trabalham, dia após dia, havia uma pequena cidade. Por aqui passou Aníbal, o cartaginês, com seus elefantes, no ano 220 a. C e, depois, se radicou em Sanabria. Deixaram pegadas e trouxeram pessoas. Que também você, caminhante, qualquer que sejam seus passos pela vida, esforce-se em viver decentemente, cultivando as virtudes humanas todo santo dia."
Mais tarde, quando retornei ao local de pernoite, senti-me solitário e sinceramente arrependido por não ter aguardado a hospitaleira, isto porque, certamente teria ficado muito bem acomodado, além de ter companhia para conversar.

Tempo gasto: 9 h
Sinalização: Boa, no entanto, é importante lembrar que o trecho entre Aldeaseca de Armuña e Castellanos de Villiquera, deve ser feito obrigatoriamente pelo asfalto (N-630), como forma a se evitar surpresas desagradáveis como as ocorridas comigo
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 4 e 17 graus.
Impressão pessoal: Um percurso difícil, primeiramente, pelo erro a que fui induzido a cometer logo depois da cidade de Aldeaseca de Armuña. Depois, as obras de duplicação da N-630, após a cidade de Calzada de Valdunciel, obriga o peregrino caminhar pelo acostamento da rodovia, dividindo espaço com intenso tráfego de veículos por quase 20 quilômetros, o que nos deixa inquietos e preocupados, em face o barulho e do latente perigo.

17ª Jornada - El Cubo de la Tierra del Vino a Zamora - 33 quilômetros: "Um pérola chamada rio Duero"!

Acordei às 6 h e, conforme havia combinado no dia anterior, às 6 h 45 min, dona Carmen serviu-me um proveitoso café da manhã que tomei na cozinha da habitação.
O dia se apresentava frio, com temperatura próxima a zero grau e imensa cerração cobria toda a cidade.
Bem alimentado, iniciei minha caminhada às 7 h, por uma rodovia vicinal asfaltada que segue em direção à Casaseca de Campeán. Porém, logo à frente, após, atravessar a ponte sobre o "Arroyo San Cristóbal", as flechas me direcionaram para larga e plana estrada de terra, à esquerda.
Segui, então, tendo pelo lado esquerdo, grandes plantações de trigo e uva, e pela direita, em paralelo, a via férrea, atualmente desativada.
Nessa zona a paisagem está inundada pelo cultivo de cereais, porém, de quando em vez, pequenos bosques de álamos e encinas rompem a monotonia do liso horizonte, onde os raios do sol começaram a despontar, exatamente, às 8 h.
Depois de 5 quilômetros, numa agradável toada, girei à esquerda e, em seguida, à direita, continuando por larga e agradável estrada de terra, até chegar, às 9 h 45 min, em Villanueva de Campeán.
Parei num bar para tomar café, depois, retemperado, prossegui por outra larga e plana estrada de terra, tendo por ambos os lados, imensas plantações de uva.
Um senhor fazia sua caminhada matinal, tendo partido de San Marcial, cidade que via à minha frente.
Paramos para conversar um pouco e ele se apresentou como Sr. Nicolau. Contou-me que antigamente a cultura principal da região era a uva, no entanto, atualmente a tônica ali é plantar trigo.
Explicou-me que as vindimas necessitam de muita mão de obra, pois, as podas, amarrações e colheitas são todas feitas manualmente, enquanto que nas outras culturas, tudo é altamente mecanizado, minorizando os custos.
Depois das despedidas, prossegui e, logo após, ao acessar pequena elevação, pude contemplar a cidade de Zamora, ao longe, distante ainda 13 quilômetros. Porém, o trajeto seguiu fácil, sempre em descenso e por estradas rurais muito bem sinalizadas.
Próximo de um cruzamento campestre, assustei um bando de perdizes. Muitas voaram de imediato, no entanto, algumas, lépidas, ainda dispararam em meio ao milharal antes de alçarem vôo, com seu zumbido característico.
Já no bairro de San Frontis, têm-se a visão de sua famosa catedral de cúpula bizantina, construída no cimo de uma elevação, tendo em torno uma grande muralha. É uma imagem única desta pequena cidade de "Castela Y León", uma jóia rara, sobretudo pelas inúmeras construções romanas que ainda preserva.
Às 13 h 20 min, atravessei enorme "puente medieval" construída no século XII, sobre o belíssimo rio Duero, que banha a cidade.
A faustosa edificação possui 16 arcos que suportam o tráfego diário de centenas de veículos e, devido sua largura limitada, existem semáforos colocados em suas extremidades para regular o trânsito que se movimenta num sentido e, ao cabo de alguns minutos, a direção de fluxo se inverte.
No final dessa magnífica obra, dobrei à direita e logo acima cheguei à Plaza Mayor da belíssima e inesquecível Zamora, exatamente, às 13 h 30 min.
Ali fiquei hospedado no Hotel Dona Urraca, 4 estrelas de luxo (46 Euros). Para almoçar utilizei os serviços do excelente bar Jarama (8 Euros), localizado próximo dali.
A cidade é conhecida por suas 19 igrejas, numa das quais, nominada de Santiago de los Caballeros, construída em estilo romântico, no século XI, foi sagrado cavaleiro "El Cid", cultuado herói espanhol.
Mais tarde, após descansar, dei uma volta pelas adjancências e pude conhecer, então, a soberba Catedral da urbe, cuja construção data do século XII, além da Casa del Cid, do século XI, situada junto à muralha da "Puerta de Olivares", onde se descortina uma impressionante visão do rio Duero.
A jornada que enfrentaria a seguir já me preocupava, assim, optei por fazer um leve lanche no quarto do hotel e deitar cedo, pois, o dia seguinte prometia ser extremamente desgastante.

Tempo gasto: 6 h 30 m
Sinalização: Excelente, praticamente impossível se perder nessa etapa
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre zero e 15 graus.
Impressão pessoal: Um percurso fácil e plano, feito todo ele por estradas rurais em meio a imensos vinhedos, sempre em leve descenso, uma das etapas mais tranqüilas e agradáveis de todo o Caminho.

18ª Jornada - Zamora a Tábara - 46 quilômetros - "Adeus à N-630!"

Por uma feliz coincidência, o hotel onde me hospedei situava-se próximo da Praça de São Lázaro, qual seja, local onde passa o roteiro do Caminho.
Assim, como de praxe, levantei-me às 6 h e parti, ainda no escuro, às 7 h. Caminhei primeiramente pela Calle Obispo Nietto e, depois, pela Calle Cuesta de la Morana até atingir uma rotatória.
Aí acessei novamente a "N-630" e segui pelo acostamento da rodovia.
Uma hora depois, 7 quilômetros percorridos, cheguei à Roales del Pan, pequeno "pueblo", onde encontrei vários bares abertos. Num deles entrei e tomei proveitoso desjejum.
Na sequência, segui por uma estrada de terra larga e plana, tendo a "N-630" próxima e à minha direita. O caminho é todo reto, monótono e trilhado em meio a enormes plantações de trigo, com ampla visão derredor.
O trecho todo é feito sobre um chão bastante pedregoso, cujas pedrinhas soltas torna o caminhar incômodo e fatigante.
Às 10 h 30 min, 19 quilômetros percorridos, passei por Montamarta, simpática povoação onde existe um excelente albergue particular.
Já saindo da cidade, pude admirar extasiado a igreja de "La Virgem del Castillo", do século XVI, fincada no topo de uma grande elevação, longe do centro urbano e ao lado do cemitério da cidade.
Mais 6 quilômetros em lenta ascensão e encontrei a bifurcação das 2 "carreteras".
Se continuasse em frente iria até Granja de Moreruela.
No entanto, como não tinha intenção de seguir em direção ao Caminho Francês, mais especificamente à Astorga, dei um adeus emocionado e definitivo à "N-630", rodovia que me acompanhava desde Sevilha e havia sido minha referência durante toda a Rota, para adentrar à esquerda, na "N-631", em direção à Tábara.
Logo em seguida, cheguei ao Embalse de Ricobayo que é alimentado pelo rio Esla e atravessei a enorme massa de água ali represada pela moderna "Puente de la Estrella".
A partir dali, enfrentei um dos trechos mais difíceis de todo a roteiro, pois, a "carretera" não tem acostamento e em face do intenso trânsito de veículos, a todo momento precisei sair do asfalto e vice-versa. Foi um percurso tenso, duro e cansativo, sob sol ardente, que me exauriu sobremaneira.
Quatro horas depois, 16 quilômetros à frente, passei pela pequena vila de Pozuelo de Tábara e num bar à beira da rodovia, fiz uma pausa reparadora para comer um lanche e comprar água, pois meu estoque do preciso líquido a muito havia acabado.
Depois, caminhei ainda mais 6 terríveis quilômetros, até aportar à Tábara, onde cheguei às 17 h. Na cidade fiquei alojado num albergue municipal, novo e moderno, infelizmente, localizado um tanto longe do civilização.
No prédio existem 20 camas disponíveis, banheiros duplos, água quente, calefação em todos os ambientes e uma grande cozinha equipada com TV.
No exterior foi construída uma bem equipada lavanderia e ainda existe um amplo local para estender a roupa lavada.
Ficamos alojados ali em 6 peregrinos, todos do sexo masculino, sendo 3 de nacionalidade alemã, 2 italiana.
Depois de tomar banho, retornei à cidade para carimbar minha credencial no bar Robles, onde, também, combinei jantar à noite. Em seguida, comprei mantimentos numa "tienda" e, em seqüência, no prédio da Prefeitura local, pude acessar a Internet gratuitamente.
No centro da urbe existe uma grande praça, no centro dela foi construída uma estátua em homenagem ao famoso poeta espanhol León Felipe, que nasceu nesse lugar.
E num dos extremos desse largo se encontra a Igreja de Nossa Senhora de Assunção, conhecida como "El Convento", construída no ano de 1.559, que ainda conserva belíssimos arcos românticos em sua cripta.
Porém, a "jóia" deste pequeno "pueblo" é o antigo monastério de San Salvador, de estilo visigótico, fundado pelo abade San Froilan, no século IX. No ano de 970 albergou mais de 600 monges, nominados de artífices do "Beato de Tábara", que copiaram numerosos manuscritos, cujos originais se encontram expostos no "Archivo Histórico Nacional de Madrid".
Às 20 h, eu e os demais peregrinos fomos à cidade para a saborosa e aguardada "cena", por sinal, de excelente qualidade (10 Euros). No final, graciosamente, o proprietário nos brindou com uma dose de "oruco", um bebida digestiva de agradável paladar.
Na hora de dormir ocorreu um fato interessante: Eu estava sem saco de dormir e no albergue não existiam cobertores, incidente que me passara despercebido até então.
Todavia, Gianfranco, um dos peregrinos italianos, "emprestou-me" um casaco de veludo vermelho, tamanho "GGG", e mais uma enorme bermuda, agasalhos que ele havia encontrado na parte superior de seu beliche, certamente "esquecidos" por algum peregrino antecessor e que, inferi pelas medidas, devia ter mais de 2 metros de estatura.
Para me aquecer, vesti a indumentária sobre o meu pijama e, embora a temperatura noturna beirasse zero grau não passei frio, posto que além de estar protegido pelo "estranho vestuário", os aquecedores permaneceram ligados, ininterruptamente.

Tempo gasto: 10 h
Sinalização: Boa
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 5 e 19 graus.
Impressão pessoal: Um percurso fácil e interessante até o acesso da "N-631", onde cheguei após percorrer 24 quilômetros. Porém, a partir desse marco, que atingi às 11 h 30 min, encontrei muita dificuldade para vencer os derradeiros 22 quilômetros, em vista do calor reinante e, mais ainda, por falta de acostamento na rodovia, obrigando-me a fazer verdadeiros malabarismos para não ser atropelado. Nesse passo, o percurso final foi um dos mais duros que enfrentei em toda a minha jornada. No geral, uma etapa longa e extremamente cansativa. No entanto, quem dispuser de mais tempo poderá pernoitar em Montamarta, onde existe um bom albergue municipal.