Livro Completo

VIA DE LA PLATA 2008 - Parte IV

Oswaldo Buzzo

19ª Jornada - Tábara a Calzadilla de Tera - 34 quilômetros - "Rio Tera e Piopos":

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Vinha caminhando desde a 3ª etapa sozinho, porquanto, sempre que possível, pernoitava em Hostal e, mesmo quando dormia em albergues, partia muito cedo, de forma que raramente encontrava algum peregrino durante o trajeto. Dessa forma, me sentia profundamente solitário.
Gianfranco, o italiano, necessitava comprar sua passagem de retorno à sua casa (Santiago de Compostela à Milão), e estava preocupado, pois, talvez, não encontrasse mais lugar disponível na data aprazada.
Tentara no dia anterior fazer tal operação, via Internet, porém, seu limitado conhecimento de informática não lhe permitiu executar essa "difícil" tarefa. Como me viu "teclando" com desenvoltura, solicitou ajuda em tal mister.

Prontamente acedi, de maneira que resolvemos seguir juntos nessa etapa e na primeira localidade onde pudéssemos "navegar", eu tentaria solucionar seu problema. Assim, levantamos às 6 h, tomamos proveitoso desjejum na cozinha do albergue e, às 7 h 20 min, quando o dia principiou a clarear, saímos para cumprir uma jornada muito tranqüila que seria, em princípio, de apenas 23 quilômetros.
O percurso seguiu por estradas rurais de fácil acesso, agradável e plano. Entretanto, confesso que estava um tanto preocupado pela parceria. Contudo, Franco, apesar de mostrar certa idade e carregar uma mochila que pesava inimagináveis 12 quilos, caminhava rápido e fizemos uma boa dupla.
Durante o trajeto fomos conversando e ele me contou um pouco de sua vida como desportista: Disse-me que na juventude sempre praticara esportes, tendo disputado campeonatos nacionais nas modalidade de esqui, montanhismo, escalada, corrida e natação. De maneira que, aos 71 anos, recentemente completados, esbanjava saúde e dinamismo.
Numa larga pista de terra vimos um rebanho de ovelhas que se movimentava em nossa direção. Um pastor e quatro mastins as guardavam. Repentinamente os cães nos avistaram e partiram ao nosso encontro.
Prosseguimos caminhando sem demonstrar medo, cajado em posição de defesa, mas, internamente, eu estava em pânico. Quando os animais estavam a ponto de nos alcançar, pararam de chofre e deixaram de ladrar ao ouvir o som estridente de um apito. Mansamente, quase contrariados, deram meia-volta e retornaram de onde vieram. Ufa, foi um outro belo susto que passei!
Às 10 h, 14 quilômetros percorridos, em ótimo ritmo, passamos por Bercianos de Valverde, pequena povoação fundada por colonizadores provenientes do Província del Bierzo, onde não encontramos nenhum tipo de serviço, seja bar ou "tienda".
Logo depois de ultrapassar a cidade, num banco de pedra caprichosamente edificado, debaixo de um enorme pinheiro, fizemos uma pausa para lanchar e recompor nossas forças. Após o descanso, prosseguimos, sempre por largas, planas e bem sinalizadas estradas de terra, pelo caminho "de las bodegas".
Dois quilômetros à frente, vencemos razoável elevação e, em seqüência, principiamos a descer por agradável estrada em cascalho, bastante arborizada. Numa curva, avistamos um casal de raposas que, assustado, fugiu para um bosque lateral. Logo depois, pudemos ver no horizonte Santa Croya de Tera, interessante povoação que atingimos às 12 h.
A cidade tem uma grande e bem conservada praça pela qual passamos em direção à última casa da localidade, onde se localiza o Albergue particular "Casa Anita", famoso por sua hospitalidade, pois, seus proprietários, Ana e Domingos, são referências nesse Caminho. Porém, um bilhete pregado na porta dizia que naquele dia as instalações seriam abertas após às 13 h.
Consultei o relógio e vi que ainda era muito cedo. Então, como o dia estava fresco e nós estávamos bem dispostos, retiramos as respectivas mochilas, sentamos num banco próximo dali e começamos a estudar os mapas e planilhas que portávamos.
Franco estava muito bem informado, pois, tanto em Sevilha quanto nas outras grandes localidades onde o Caminho passa, como Mérida, Salamanca e Zamora, comparecera à Oficina de Turismo e conseguira informações atualizadas sobre os "refúgios", bem como quais estavam em funcionamento naquele mês de abril.
Observando as anotações, verificamos que 11 quilômetros à frente havia uma pequena cidade com um albergue municipal novo, recém inaugurado, além de possuir bares e uma "tienda". Decidimos, assim, seguir adiante, pois, dessa forma, ocuparíamos melhor nosso tempo e abreviaríamos a etapa do dia seguinte, um sábado.
Antes de partir, entretanto, Franco ligou do celular para outro peregrino italiano de nome Miquelle, que havia saído mais tarde de Tábara, avisando-o de nossa decisão. Este gostou da idéia e confirmou, então, que seguiria nossos passos.
Num bar próximo, adquirimos água e prosseguimos por rodovia asfaltada. Logo à frente ultrapassamos uma grande ponte sobre o rio Tera e chegamos à Santa Marta de Tera. Trata-se de uma pequena povoação onde também há albergue municipal, porém, em péssimas condições.
Na sua igreja matriz, uma construção do século XI, existe gravada na porta principal, a imagem de Santiago peregrino, do século XII, que é a estátua mais antiga que se conhece, dedicada a este Santo em toda a Espanha.
Próximo do templo, dobramos à esquerda e seguimos por uma larga e bem sinalizada estrada de terra, tendo o majestoso rio à nossa esquerda. Prosseguimos, caminhando por alamedas bem demarcadas, situadas entre inúmeros pés de chopos ("piopos", em italiano) e álamos, num trajeto plano, fresco e extremamente agradável.
Em algumas ocasiões, ultrapassamos pontes sobre pequenos canais de água, que levam o precioso líquido desde o rio principal até as propriedades adjacentes, com a finalidade de irrigar pomares, plantações de cereais e hortas que ali existem em abundância, em razão da fecundidade da terra.
Foi este um dos trechos mais belos e agradáveis que desfrutei em toda a Via de la Plata, em meio a um extenso vergel, tendo como "pano de fundo", ao longe, a majestosa serra de "la Carballeda".
Sem maiores intercorrências, às 15 h, chegamos em Calzadilla de Tera, simpática povoação. Imediatamente, nós nos dirigimos à casa do Alcaide a fim de apanhar as chaves do albergue. Depois nos alojamos no andar superior de um grande prédio recentemente construído e que serve de "refúgio peregrino".
Ali existem confortáveis acomodações para 6 pessoas. E no andar inferior funciona a "Associação dos Jubilados", onde, às 17 h, "sellamos" nossas credenciais.
Mais tarde, depois de banho tomado e roupas lavadas, chegou Miquelle e tomou posse de sua cama, ficando nós três tranqüilamente hospedados, cada qual em um dos cantos do enorme salão de pernoite.
Mais tarde, compramos provisões numa "tienda" e ficamos sabendo que na cidade não havia Internet funcionando naquele horário. Contudo, a proprietária daquele comércio se condoeu das preocupações de Franco e permitiu que utilizássemos seu computador pessoal, de forma que, não sem dificuldades, pude realizar a compra de sua passagem aérea de retorno à Itália, para o dia 18 de abril.
À noite, fomos os três jantar no bar local (10 Euros). No retorno, embora não existisse cozinha no albergue, Miquelle que carregava um pequeno fogareiro e respectivo bujão de gás na mochila, graciosamente nos preparou uma chávena de chá, excelente calmante que concorreu para uma proveitosa noite de descanso.

Tempo gasto: 8 h
Sinalização: Boa
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 3 e 15 graus.
Impressão pessoal: Um percurso fácil, plano, extremamente agradável, talvez o de menor dificuldade entre todos que havia trilhado.

20ª Jornada - Calzadilla de Tera a Cernadilla - 34 quilômetros - "Uma decisão infeliz!"

Pela programação feita, a jornada seria curta, pois, pernoitaríamos em Mombuey, de forma que tranqüilamente levantei-me às 6 h 30 min. Fizemos um café utilizando o pequeno fogareiro do Miquelle e parti juntamente com o Franco, às 7 h 15 min.
A saída da cidade foi feita ao lado das ruínas de uma igreja abandonada, erigida em homenagem às santas sevilhanas, Justa e Rufina. Naquele local as setas estavam confusas, de forma que perdemos um bom tempo até encontrar o rumo certo.
É necessário descer até o asfalto para depois retornar, ao lado de um grande canal de água utilizado para irrigação, que nos acompanhou o percurso todo pelo lado esquerdo.
Efetuamos o trecho inicial com rapidez, pois, o terreno era plano e ao clarear o dia aportávamos em Olleros de Tera, um pequeníssimo "pueblo" com típicas casas de adobe, onde encontramos tudo fechado.
Na saída do povoado existem 2 sinalizações no solo: uma, segue o asfalto, indicada para ciclistas. E outra, prossegue em chão de terra, à direita, só para caminhantes.
Seguimos este roteiro, no entanto, após atravessarmos junto ao Santuário de Nossa Senhora de Agavanzal, as setas desapareceram.
Naquele trecho estavam sendo feitas obras no entorno do "embalse" local, de forma que, indecisos quanto ao rumo a seguir, após fazermos uma grande volta, retornamos, até o asfalto para, em seguida, prosseguimos, até transpor uma ponte sobre a grande represa ali existente.
Creio, então, a fim de evitar percursos desnecessários, como ocorreu naquele dia, que o correto ao sair da cidade de Olleros de Tera e seria seguir diretamente pelo asfalto, qual seja, o mesmo roteiro indicado para aqueles que estão de "bike".
Depois, seguimos por graciosa estradinha vicinal asfaltada, sempre bordeando o embalse, até Villar de Farfón, onde chegamos às 9 h e fizemos breve pausa para água e lanche.
O percurso a partir dali era extremamente agreste e plano, sempre entre bosques nativos, o que tornou o trajeto agradabilíssimo. Estava um dia claro, de céu limpo e uma leve brisa trazia fragrâncias silvestres ao nosso encontro.
Em bom e animado passo, logo adentrávamos à Rionegro del Puente, cidade onde existe um novo e excelente albergue.
Esta povoação está situada entre as serras de "la Culebra y la Cabrera" e nela se encontra o Santuário de Nossa Senhora de Carballeda, com uma interessante igreja de 3 naves. Neste "pueblo" de forte tradição jacobéa, existiu um hospital de peregrinos e ainda hoje conserva a "Confradía de los Falifos", a primeira e a mais antiga confraria dedicada ao Caminho.
Junto ao Santuário existe uma grande estátua em homenagem a Diego de Losada, fundador da cidade de Caracas (Venezuela), que nasceu neste povoado em 1.511.
Fizemos pequena pausa para lanche ao lado do rio Negro, que corta e dá nome à povoação, depois, prosseguimos mais 9 quilômetros por trilhas agrestes, localizadas dentro de enorme fazenda de gado vacum, sobre uma extensa planície. Nesse derradeiro tramo, o referencial são os postes de eletricidade, pois o roteiro segue sob a fiação elétrica.
Às 12 h 15 min, após percorrermos exatos 25 quilômetros, aportamos em Mombuey, nossa meta naquele dia.
Imediatamente, nós nos dirigimos até o Hostal Rapina com a intenção de conseguir as chaves do albergue local. O proprietário disse-nos que atualmente as chaves ficavam em poder do Cura e que este passara há pouco dizendo que visitaria uma pessoa em localidade próxima, retornando somente depois das 15 h.
Sem outra opção, nós nos sentamos, pedimos lanche e vinho, e ficamos a conversar. Novamente Franco esparramou seus mapas na mesa a fim de estudar possíveis alternativas, como forma de melhor ocupar nosso tempo. Descobrimos que 9 quilômetros à frente havia pequena vila, onde existia um albergue municipal com capacidade para alojar 5 pessoas, além da localidade possuir um bar e um "tienda".
Resolvemos, então, de comum acordo, seguir em frente, pois, assim, abreviaríamos a etapa domingueira, uma decisão que mais tarde, infelizmente, se revelaria equivocada e desditosa.
Rapidamente, compramos água, acertamos as contas e seguimos em direção ao centro da povoação, passando ao lado da igreja de Nossa Senhora de Assunção, onde se destaca sua torre fortaleza de estilo templário, construída no século XIII.
Deixamos a cidade por uma estrada vicinal asfaltada e por ela seguimos sem dificuldades, passando primeiramente por Valdemerilla, depois, Cernadilla, onde chegamos às 15 h 30 min. As chaves do albergue ficavam na residência do Alcaide, porém, ele fora auxiliar na debelação de um foco de incêndio que ameaçava atingir o município.
Postamo-nos, então, a aguardar seu retorno, sentados sob uma sombra, defronte à paróquia de Nuestra Senõra de las Candelas, construída no século XVII.
Mais tarde, ficamos muito preocupados, pois uma senhora que residia próximo dali, nos informou que o único bar existente na povoação fechara suas portas às 12 h e somente reabriria no dia seguinte. Da mesma forma, a única "tienda" da localidade também cerrara suas portas às 13 h e só voltaria a funcionar na segunda-feira.
Assim, quedamo-nos tensos e aborrecidos, pois ainda não havíamos almoçado e, para complicar nossa delicada situação, nada tínhamos para jantar.
Por sorte, aquela boa cidadã, Dona Vitória, condoeu-se de nosso drama. Primeiramente, serviu-nos refresco com bolachas, aplacando momentaneamente nossa fome. Depois, gratuitamente, nos doou um pão, dois gomos de lingüiça, iogurte e água, permitindo-nos fazer razoável refeição noturna.
O Prefeito finalmente chegou, cobrou 3 Euros de cada um pelo pernoite e encaminhou-nos ao "refúgio". Enquanto nos dirigíamos para o local, Franco conversou por celular com Miquelle convidando-o a nos fazer companhia, porém, este atrasara-se em sua jornada e decidira dormir em Mombuey.
O albergue tinha 5 tatames colocados diretamente no chão, sobre os quais nos deitamos. E, ainda, várias mantas, que me foram muito úteis, pois, fez muito frio durante a noite. Também, existe razoável cozinha onde pudemos fazer nosso "magro" repasto, regado a um excelente chá de maçã encontrado na despensa.
Ocorre que possivelmente o local não era utilizado há algum tempo, nem sofrera limpeza alguma, pois tudo ali cheirava à mofo, além de conter enorme camada de pó em todos os seus objetos. Tal calamidade obrigou-nos a promover uma grande faxina em seu interior, para que ficasse razoavelmente habitável.
Mesmo assim, além da fome que me corroía as entranhas, sofri com minha rinite alérgica, possivelmente por culpa do bolor que empestava o ambiente. Foi, sem dúvida, a pior das noites que passei no Caminho.

Tempo gasto: 8 h
Sinalização: Normal
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 3 e 15 graus.
Impressão pessoal: Um percurso bonito, fácil e plano, com pouco asfalto depois da Mombuey. Atenção especial para a saída, após ultrapassar a cidade de Olleros de Tera, quando deve-se optar pelo asfalto, qual seja, mesmo tramo onde seguem os ciclistas. No mais, um trajeto razoavelmente arborizado, rude e bucólico.

21ª Jornada - Cernadilla a Puebla de Sanabria - 25 quilômetros - "Um Domingo Especial"

Dormimos muito mal, quase não pregamos o olho durante a noite, assim, às 5 h, já estávamos acordados, doidos para "botar o pé na estrada". Contudo, depois do chá matutino, fizemos demorada limpeza no recinto, deixando tudo asseado, guardando cada utensílio em seu devido lugar.
Às 6 h 30 min, iniciamos nossa jornada e de acordo com as informações que detínhamos, prometia não oferecer maiores dificuldades. Estava escuro e fazia muito frio, porém, o roteiro está muito bem sinalizado naquela região. Com a lanterna eu verificava as flechas e não tivemos problemas para encontrar o rumo a seguir.
Na obscuridade do pré-alvorecer, próximo de algumas árvores, avistamos um bando de cervos pastando. Notei um par de machos jovens, o restante era formado por fêmeas com crias. Quando sentiram nosso cheiro, dispararam em direção a um bosque próximo. Ali ficaram, estáticos, nos observando de longe, num espetáculo mágico e transcedental.
Uma agradável estrada vicinal asfaltada em meio a muitas árvores nos conduziu, primeiramente, a San Salvador de Palazuelo, depois, até Entrepeñas, pequenas vilas onde encontramos tudo fechado.
Próximo dessa última povoação existe uma grande represa, com expressiva quantidade de água, que leva o nome de "Embalse de Cernadilla".
Finalmente, às 9 h, após percorrermos 9 quilômetros, chegamos em Asturianos e ali, com imensa satisfação, encontramos o bar Carmen aberto. Fizemos, então, grande pausa para repor forças e recarregar energias, através de um reforçado desjejum.
Na sequência, passamos por Palácios de Sanabria e Remesal, caminhando por trilhas selvagens, em meio a muitas árvores, porém, há que se tomar muito cuidado, pois, nesse trecho a sinalização se mostra deficiente e bastante confusa, mas o percurso é interessante, agradável, plano e arborizado.
A partir dessa última cidadezinha, os derradeiros 10 quilômetros do trajeto se faz por asfalto, através de estradas vicinais, com escasso tráfego de veículos.
Logo à frente, transpusemos Otero de Sanabria e, mais tarde, Triufé, este, um pequeníssimo, contudo, famoso "pueblo", de considerável conotação histórica, pois, em sua igreja matriz, no ano de 1.506, houve importante reunião entre os reis Fernando "el Católico" e Felipe "el Hermoso", visando resolver os problemas de sucessão do trono espanhol, pós a morte da rainha Isabel II, "la Católica".
Percorremos mais 4 quilômetros em grande descenso e, finalmente, às 12 h 30 min, atravessamos grande ponte sobre o rio Tera e adentramos em Puebla de Sanabria, importante e progressista cidade localizada próxima à "Sierra de la Culebra", cuja fundação remonta o século VII.
No ponto mais alto da urbe, situa-se um imponente castelo medieval, construído no século XV, pelo Conde de Benavente. Junto dele encontra-se a igreja dedicada a Santa Maria del Azogue, do século XII. Outras edificações próximas, todas datadas da idade média, compõem um interessante Conjunto Histórico-Artístico, que dão um toque especial a essa bela e turística localidade.
De um mirador instalado próximo ao convento de São Francisco, descortinam-se espetacular vista do rio Tera e vales adjacentes onde esse curso de água corre. Ainda, se pode contemplar a parte baixa da cidade e avistar uma pequena praia artificial onde o pessoal aproveita para refrescar-se nos finais de semana.
Observando a banda invertida, impressionou-me a visão, ao longe, dos morros que separam a Província de "Castilla y León", da Galícia, locais inóspitos que me aguardavam, pois, por eles caminharia nas jornadas subseqüentes.
Fiquei hospedado no Hostal Carlos V (30 Euros) onde seu proprietário, Sr. Carlos, trata os peregrinos com muito carinho e apreço. Para almoçar utilizei o restaurante do próprio local onde me hospedei (9 Euros). E à noite fiz apenas um lanche, utilizando os mantimentos que adquiri num supermercado próximo.
Miquelle chegou por volta das 16 h e hospedou-se no mesmo local onde eu estava. Franco, no entanto, recusou-se a permanecer na cidade, vez que ali não existe mais albergue. Porquanto, o antigo refúgio que funcionava no edifício onde se localiza o "Ayuntamiento", foi recentemente desativado.
Assim, ele optou por apanhar um trem na Estação Ferroviária local e foi dormir em Requejo, 12 quilômetros à frente, o que me deixou bastante entristecido, posto que ali findava, também, nossa profícua parceria.

Tempo gasto: 6 h
Sinalização: Normal, contudo, deficiente no trecho compreendido entre as cidades de Asturianos e Remesal
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 2 e 17 graus.
Impressão pessoal: Um percurso fácil, plano e, no final, em pronunciado descenso, sendo os derradeiros 10 quilômetros feitos por estradas asfaltadas. No geral, um trajeto bastante arborizado e agradável.

22ª Jornada - Puebla de Sanabria a Lubián - 32 quilômetros - "Uma data Inesquecível"

A meteorologia previa, já há algum tempo, chuva forte em toda Península Ibérica a partir daquela data. O mais interessante disso tudo é que lá, dificilmente, erram as predições.
E como iria enfrentar um trecho de montanha, fiquei assaz preocupado, pois a serra abriga a cidade de Podornello, situada a 1.329 metros de altura, povoação de maior altitude de toda a Via de la Plata.
Assim, levantei-me às 6 h e desci as escadas rumo ao refeitório, meia hora depois. Para minha surpresa, o proprietário já estava com o bar aberto. Assim,foi gratificante e encorajador ingerir um café quente acompanhado de bolachas e frutas, antes de iniciar minha jornada.
Aliás, eu deveria seguir pela cidade até sua Plaza Mayor e ali reencontrar o roteiro do Caminho. No entanto, o Sr. Carlos me disse que tal providência seria desnecessária, e me orientou pegar um atalho alternativo.
A partir do Hostal, deveria acessar uma rua perpendicular que passaria próximo ao prédio da Guarda Civil e, logo à frente, transporia o majestoso rio Castro, cujas águas banham a cidade.
Foi o que fiz e, assim, depois de atravessar a "ponte velha", dobrei à esquerda, seguindo por asfalto pelo acostamento da antiga "carretera" N-525, cujo tráfego era escasso.
Quatro quilômetros depois, com o dia amanhecendo, as flechas me direcionaram à esquerda, através de um pasto. As trilhas que encontrei se encontravam extremamente barrentas, mal conservadas e invadidas por mato alto. Fui labutando por meio de pântanos escorregadios, sem sinalização confiável, e na primeira oportunidade que tive, retornei ao asfalto.
Segui por mais quatro quilômetros pelo acostamento até um local em que o "roteiro" indicava seguir o lado direito. Naquele local, obedecendo as flechas amarelas, adentrei em uma agradável estrada de terra entre pinheiros, castanheiras e bétulas que me levou, mais acima, até Terroso, pequena vila, onde tudo se encontrava fechado.
Prossegui através de agradáveis trilhas rurais, orladas por carvalhos centenários até atingir, às 9 h 30 min, Requejo, pós vencer 12 quilômetros. A cidade tem forte influência "gallega", e a maioria de suas casas foi construídas com balcões e escadarias de pedra.
Ali existe um moderno e bem equipado albergue particular, além de alguns Hostais. Num bar próximo à "carretera" fiz providencial pausa para ingerir proveitoso café com pão.
Em seqüência, acessei uma estrada asfaltada, ladeada, em toda sua extensão, de castanheiras e madressilvas, árvores típicas da região. Um quilômetro depois, adentrei numa trilha agreste em meio a uma fechada mata.
Nesse "tramo" o caminho é sombrio, às vezes, com túneis formados pela exuberante vegetação que o ladeia. A trilha é efetivamente pouco transitada, no entanto, extremamente bela. Em alguns locais, há trechos inundados, por isso, não é um roteiro adequado para trilhar na estação das chuvas.
O trajeto é efetivamente espetacular e plano, em meio a imenso bosque nativo, repleto de samambaias, sempre à beira de encachoeirado e serpenteante regato, na verdade, o rio Castro mais próximo de sua nascente. Em alguns trechos, a paisagem revelou-se tão perfeita, como um cristal finamente lavrado.
Depois de uma hora nessa toada, saí num caminho de terra, fiz um giro de 90º e iniciei a subida da temível "Sierra de Podornello".
Vagarosamente, trilhei por caminhos ascendentes, passei ao lado de uma fábrica de fertilizantes abandonada, depois, sob a Autovia Nacional e, finalmente, no cume da montanha, saindo novamente na "N-525" que me levou até a pequena vila de Podornello, onde cheguei às 12 h, após percorrer 24 quilômetros.
Parei na "fuente del Mergullo", ponto turístico do "pueblo", para lavar o rosto e saciar a sede, pois, a frígida água que ali escorre, provém de uma nascente localizada na base de um morro próximo e é exaltada pelos moradores em razão de suas propriedades medicinais.
O tempo estava mudando drasticamente, nuvens carregadas vindas do sul cobriam todo o céu, e deixava o ambiente frio e carregado. Apressado, desci rapidamente e, logo abaixo, na saída da cidade, encontrei um Hostal/Bar onde aproveitei para ingerir providencial café com um "bocadillo" de queijo. Depois, prossegui já em franco descenso e, logo adiante, acessei uma rodovia secundária asfaltada.
Próximo de Aciberos, quatro quilômetros à frente, as flechas me direcionaram à esquerda, por trilhas selvagens, situadas em meio a muito verde e inúmeros riachos murmurantes. Foi extremamente agradável seguir pelos bosques nativos, sempre em declive, até atingir, às 14 h, a cidade de Lubián, minha meta naquele dia.
O nome Lubián provém de lobo, já que nessa zona boscosa, abundavam estes animais até pouco tempo, porém, foram lentamente dizimados e hoje não mais existem nessa região. Um detalhe me chamou a atenção, neste povoado não existe uma única rua reta.
O fato decorre da urbe estar situada nas faldas de uma montanha. Assim, suas vias de tráfego vão se enlaçando em diferentes alturas. Ainda, observei que todas as casas são feitas em pedra, por sinal, material muito abundante nesta área. E os telhados são todos em ardósia, não se vendo uma única telha convencional nas construções locais.
O prédio do alberque é uma edificação nova e moderna, composto de dois andares, todo revestido de pedra talhada, tornando-o muito acolhedor e mais parece uma Casa Rural.
Pode abrigar até 20 peregrinos e possui calefação, grande cozinha, banheiros funcionais, um verdadeiro luxo, tudo isso cedido ao peregrino, por 3 Euros o pernoite. A hospitaleira, Dona Conchi, me forneceu um cobertor para dormir, pois, no local não havia mantas.
Às 15 h, depois de tomar meu banho e lavar minhas roupas, teve início uma forte ventania, seguida de uma tímida garoa que se avolumou, paulatinamente e, às 16 h, desabou um pesado temporal.
Nesse mesmo horário, ouvi pancadas na porta principal e, ao abri-la, deparei-me com Miquelle que, mesmo trajando portentosa capa de chuva, encontrava-se literalmente, "molhado até os ossos".
Mais tarde, a chuva amainou e pudemos ir até o centro do povoado fazer compras em uma "tienda". Ao saber que eu completava 57 anos naquela data, meu amigo propôs cozinhar uma "pasta italiana" na cozinha do albergue, no intuito de me homenagear. Compramos, então, os ingredientes, depois entramos no bar do Javi para um brinde merecido, regado à encorpado vinho regional, para festejar meu "cumpleaños".
Quando a noite caiu, nossa alegria transbordava ao sabor do delicioso vinho. Enquanto conversávamos, Miquelle preparou e serviu saborosa macarronada, acompanhada de salada mista, ovos fritos e pão. Tudo isto, mais o consistente vinho "Crianza de la Rioja".
Lá fora a chuva caía sem cessar, enquanto, no aconchego da sala de jantar, nos deliciamos com o saboroso repasto e brindamos, por diversas vezes, aquele inolvidável dia, para mim, sem dúvida, de gratíssima recordação.

Tempo gasto: 7 h
Sinalização: Deficiente até o oitavo quilômetro percorrido (sugiro seguir pela "carretera"), depois, excelente até o final - Clima: Nublado, com temperatura variando entre 2 e 12 graus.
Clima: Nublado, com temperatura variando entre 2 e 12 graus.
Impressão pessoal: Um percurso bastante interessante, mormente após Requejo. A escalada da serra de Podornelo foi bastante dura e íngreme, todavia, gratificante pelo encanto da paisagem ao derredor. Importante destacar que o trajeto entre Requejo e o sopé da serra de Podornelo, talvez, tenha sido o trecho mais belo e precioso que trilhei em toda a Via de la Plata.

23ª Jornada - Lubián a La Gudiña - 25 quilômetros - "Chuva e Galícia!"

Choveu com intensidade a noite toda e quando me levantei, às 6 h, o mau tempo persistia. Mesmo assim, otimista, fiz minhas abluções e preparativos, como de costume.
Internamente, me encontrava em ebuliente sublimação. Pois, estava próximo de cumprir meu almejado objetivo, sonho de qualquer peregrino que faz o Caminho: aportar à Compostela.
Assim, quando se vem de muito longe, como no meu caso, o ato de estar quase pisando em terras galegas, nos deixa consternado e nos anima a afrontar com mais força e intrepidez as derradeiras etapas faltantes, já que nosso destino final parece estar ao "alcance das mãos".
Às 7 h, quase pronto para partir, acordei Miquelle, conforme havíamos combinado na noite anterior. O italiano levantou-se, olhou pela janela, coçou a barba por fazer, observou o temporal que se abatia lá fora e confessou:
- "Eu já tenho 62 anos e, sendo assim, não sou mais criança, muito menos "doido varrido". Santiago me aguarda em sua Catedral, mas, me quer saudável, jamais enfermo. De forma que já decidi: não caminharei hoje! Aguardarei a hospitaleira vir limpar o albergue e vou solicitar-lhe que me providencie um táxi!.
Dito isto, entrou novamente em seu saco de dormir e, pouco depois, ressonava tranqüilamente.
Assim, esperei, pacientemente, o aguaceiro amainar e bem protegido, vesti minha capa de chuva e segui pelo asfalto até o bar do Javi. Como previsto, o estabelecimento já se encontrava aberto e repleto de trabalhadores digerindo a refeição matinal. Lá dentro, enquanto deglutia o desjejum, me entrevistei com um morador local sobre a melhor maneira de chegar a La Gudiña, naquele dia.
Ele reforçou o que ouvira no dia anterior, qual seja, desaconselhou-me a caminhar pelas trilhas, em face do traçado contemplar obrigatoriamente as serras locais e, com certeza, deveriam estar encharcadas e perigosas.
Incentivou-me, então, a seguir sempre pelo asfalto que, embora representasse um trajeto insípido e duro, ao menos era seguro em razão do clima reinante.
Após tomar meu café, segui em uma estrada secundária asfaltada, uns 2 quilômetros, até o Santuário de "la Virgem de la Tuíza". Naquele local, seguindo as instruções recebidas, virei à direita e, ainda pelo asfalto, prossegui mais 6 quilômetros até me encontrar com a "carretera" N-525.
Naquele lugar, a chuva ainda caía forte, tingindo a paisagem em volta de branco. A partir dali, restavam 16 quilômetros para atingir meu destino final.
Uns dois quilômetros à frente, deixei a Província de Zamora e adentrei em Orense, ou seja, estava finalmente na Galícia. E ela, fazendo jus a fama de ser um dos locais mais úmidos do mundo, recebendo-me a caráter, pois, a chuva não deu trégua o dia todo.
Às 10 h 30 min, quando ainda faltavam 10 quilômetros para chegar no meu destino, uma perua de transporte escolar parou ao meu lado, buzinando intensamente. Dentro estava Miquelle que me convidou para seguirmos juntos no inusitado "táxi". Respondi-lhe que estava bem e completaria o restante do percurso a pé.
Nessa etapa, utilizei sempre o acostamento da rodovia em sentido contrário ao fluxo de veículos e, passei nos povoados de Vilavella, O Pereiro e O Canizo, até atingir, às 12 h 30 min, La Gudiña, cidade situada nos contrafortes do sistema montanhoso que divide as Províncias de Orense/León, meu objetivo naquele dia.
Enquanto caminhava, aproveitei para fazer breve retrospecto do que tinha vivenciado até aquele momento, quase 800 quilômetros percorridos:
Sevilha é o início, a aventura, as grandes extensões sem "pueblos", água ou presença humana, além do clima extremamente quente.
Já, na Extremadura, o caminho transforma-se em história. Os vestígios romanos, a Emérita Augusta, a "Calçada Romana", Cáceres, o Arco de Cáparra, etc..
Mais à frente, adentrando à Provincia de Castilla e Leon, vão se esbatendo os vestígios da dominação itálica. Salamanca é grandiosa, com sua Catedral majestosa e igrejas onipresentes, o seu saber, a Universidade, tudo intimamente ligado à Igreja Católica.
Em continuação, cheguei à cidade de Zamora, famosa pelas Confrarias, os encapuçados, a Páscoa. Para mim, uma religiosidade difícil de compreender, pois privilegia a crucificação de Jesus.
Todavia, embora uma cidade austera e carrasquenta, tem seu lado melífluo. Porquanto, é afamada pelos seus farináceos, posto que oferece em cada esquina uma "tienda" de pães e doces deliciosos.
Próximo à Granja de Moreruela optei em deixar a Via de la Plata, que prossegue até Astorga, onde se atrela ao Caminho Francês. Preferi, então, seguir pelo roteiro Sanabrês, este sim, uma senda de espiritualidade e interiorização.
Na seqüência, são uma constante os "pueblos" praticamente abandonados, mas não esquecidos, uma vez que placas fincadas pela Fundação Ramos de Castro falam da povoação, de seus habitantes, da historia, remetendo-nos sempre a uma reflexão... "Caminante, el cordón de la vida és lo que importa, los demás son verdades relativas. Que la andadura te entrañe com la esencia del vivir"...
Sem dúvida, a emoção maior que senti foi adentrar à Província da Galícia, pois, ali já estava próximo da consecução de mais um sonho, qual seja, rever pela terceira vez Santiago de Compostela, meu destino final.
Em La Gudiña, fiquei hospedado no albergue de la Xunta, por certo, o melhor que pernoitei. No piso superior ficam os dormitórios, que contêm 24 beliches. Ainda, 4 duchas, 4 lavabos, e 8 banheiros. No piso inferior há cozinha, sala de estar, banheiros, escritório, sala de TV, etc. Um verdadeiro luxo!
Ali encontrei instalado, além de Miquelle, um peregrino alemão de nome Olaf, que naquele dia ficara de "molho", pois, segundo me contou, não se sentira bem ao acordar. Em compensação, confidenciou-me que os outros seis hóspedes, inclusive meu amigo Gianfranco, tinham seguido de trem para Laza, devido à intensidade da chuva que desabara, qual seja, naquele dia ninguém caminhara.
Um detalhe me chamou a atenção no espaçoso "refúgio", que dispõe de um quadro onde várias cópias da chave da porta de entrada são disponibilizadas aos peregrinos. Dessa forma, aquele que resolver dar uma volta no "pueblo", pode retornar sem problemas de acessibilidade ao edifício, um confortável sistema não oferecido em qualquer outro.
Para almoçar utilizei os serviços do bar Oscar (9 Euros), que recomendo, mormente pelo seu delicioso "Caldo Gallego". O edifício da Biblioteca Municipal está localizado próximo ao albergue e lá pude acessar a Internet, graciosamente.
Mais tarde dei um breve giro pelo povoado e aproveitei para conhecer a igreja de San Martinho, cuja construção data de 1.619.
Comprovei, ainda, por onde deveria seguir no dia seguinte, pois, a partir desta cidade existem duas opções para se chegar à Ourense. Uma, mais plana e longa, passa pela cidade de Verín. E a outra, mais curta e acidentada, segue através de Laza. Escolhi este último, por onde seguirei.
À tardinha, Miquelle entusiasmado com o conforto e funcionalidade da ampla cozinha do albergue, resolveu ser "mestre-cuca" novamente, de maneira que nós três, os únicos ocupantes do imenso estabelecimento, saímos para comprar mantimentos e, depois de pronta a refeição, jantamos com fartura, comunitariamente.
A chuva havia dado ligeira trégua ao anoitecer, mas retornou com fúria logo depois e seguiu noite adentro, proporcionando-me um sono reparador, e, ao mesmo tempo, inquietante, em razão da dura jornada que enfrentaria na manhã seguinte.

Tempo gasto: 5 h
Sinalização: Foi o único trecho em que não tive condições de avaliar "in loco", contudo, os outros peregrinos que haviam feito o trajeto no dia anterior, ao serem perquiridos, confirmaram que todo o roteiro está muito bem sinalizado
Clima: Chuvoso, com temperatura variando entre 0 e 10 graus.
Impressão pessoal: Um percurso todo feito por asfalto, debaixo de chuva e, em face das adversidades encontradas, valeu para testar minha pertinácia e obstinação, não me deixando abater pela brusca e violenta mudança climática que vivenciei.

24ª Jornada - La Gudiña a Laza - 35 quilômetros - "Caminhando pelas Nuvens!"

Choveu durante a noite toda e a tempestade sucedia, ininterruptamente, sempre acompanhada de fortes trovoadas e intensa ventania. A água batia na janela próxima de minha cama e me deixava preocupado, porquanto sabia que a jornada daquele dia seria, deveras, complicada.
Acordei às 6 h, surpreendentemente, com o barulho feito pelo despertador do celular de Miquelle. Levantei-me e perguntei-lhe porque iria sair tão cedo, visto que nunca iniciava sua trajetória antes do dia clarear.
Para minha surpresa, respondeu que novamente não iria caminhar naquele dia, pois, não era nenhum "maluco", haja vista o clima reinante. Prevendo que o tempo não melhoraria, pesquisara no dia anterior os horários disponíveis e iria tomar o trem que fazia o percurso La Gudiña/Laza, diariamente, às 7 h. Instou-me a seguir com ele.
Seu convite feito à "queima-roupa", me deixou confuso e indeciso, visto que também prezava por minha saúde. Olaf se levantara também e fazia alongamentos num dos cantos do imenso salão onde pernoitáramos. Quando o inquiri, respondeu que ao contrário de Miquelle, naquele dia, iria "à luta", pouco lhe importava a intensidade do frio ou da chuva que caía lá fora.
Complementando, explicitou-me que em sua pátria existe um ditado contundente que ele ferrenhamente exercitava, qual seja: clima e pessoas são agentes dissociativos e excludentes, isto queria dizer, algo físico e atemporal não pode nem deve interferir, necessariamente, na decisão da outra.
Imediatamente, minha hesitação desapareceu e, confiante, afirmei-lhe que iríamos juntos afrontar o destempero celeste, com o qual, prontamente concordou. Assim, após o desjejum matinal preparado na cozinha do albergue, partimos por volta das 7 h 15 min, sob forte aguaceiro.
Seguimos por uma rua paralela à "carretera" até um marco que assinala os dois caminhos possíveis a seguir para chegar à Orense: À esquerda, passando pelas cidades de Verin e Xinzo de Limia, segundo as informações disponíveis, era o percurso mais bonito e fácil.
Todavia, mais longo, acrescendo à jornada, um total de 9 quilômetros. Assim, optamos em fazer o recomendado pelo guia que portávamos e prosseguimos à direita, em direção às cidades de Laza e Vilar de Barrio.
O trajeto inicial foi feito por uma estradinha asfaltada, sempre em perene ascensão. Lentamente o dia foi clareando, sem, no entanto, a chuva dar sinal de parar.
Mesmo assim, em bom passo, fomos vencendo as distâncias, passando, primeiramente por Venda do Espiño, depois, Venda Tereza, Venda Capela e Venda Bolaño, todas pequeníssimas vilas que não oferecem nenhum tipo de serviço ao peregrino.
Praticamente, toda primeira metade dessa etapa foi trilhada na crista de altos morros, acima de 1.100 m de altitude e, deslumbrados, podíamos observar abaixo de nossos pés as nuvens que rodeavam as montanhas.
Infelizmente, a magnífica vista que dali se descortinava, era prejudicada pelo mau tempo reinante. Creio que num dia ensolarado a paisagem ao derredor deve ser algo incomensurável.
Porém, às vezes, havia mais claridade propiciada pela intensa movimentação dos vapores aquosos, tínhamos então uma exuberante visão dos profundos vales que nos cercavam, de ambos os lados da rota. Em algumas situações, parecia-nos estar caminhando praticamente sobre um tapete branco, com a terra abaixo de nossos pés.
Em determinado ponto, contemplamos, ao longe, um pântano no sopé de uma grande serra, na verdade, o "Embalse de las Portas". E, de trecho em trecho, via-se a linha do trem que serpenteava, aqui e acolá, num vai e vem até Orense. Trata-se, na verdade, da imensa "Sierra Seca", cujo traçado é conhecido por "Verea Vella".
Muito embora tenhamos nos perdido quase no final e, por conta da ausência de sinalização, feito grande e desnecessário volteio por uma rodovia asfaltada, depois de 20 quilômetros percorridos, exaustos e ensopados, aportamos à Campobecerros, às 11 h 45 min.
Na cidade encontramos o bar da Isabel aberto e ali fizemos providencial e necessária pausa para lanche e café com conhaque. Existia um aquecedor à lenha instalado no meio do recinto e aproveitamos para secar nossas roupas e aquecer mãos e pés que estavam a ponto de congelar.
Refeitos, passamos ao lado de "la Iglesia de la Asunción, e prosseguimos por uma estrada asfaltada situada entre grandes montanhas, sempre subindo, até alcançar Porto Camba, pequena vila que também não oferece nenhum tipo de serviço.
A se destacar neste pequeníssimo "pueblo" que todas as casas foram construídas com pedras de ardósia. Inclusive a igreja de San Salvador, de estilo barroco, também foi edificada com esse tipo de material.
Continuamos em frente, ainda em ascensão, até atingir, ás 13 h, uma cruz fincada no topo da encosta pelos frades do "Monastério de los Milagros", em memória aos peregrinos falecidos enquanto trilhavam o Caminho.
Ali, finalmente, abandonamos o piso asfáltico e seguimos por uma larga estrada de terra à esquerda, agora em grande descenso. O céu continuava cinzento e pesado, porém, a chuva tinha cessado.
As visões que se sucediam lá de cima eram realmente maravilhosas e alcançavam a linha do infinito horizonte. Depois de mais uma hora de caminhada, ultrapassamos dentro de "As Eiras", pequeno e deserto "pueblo" galego.
A partir desse povoado, tudo se faz por asfalto. Assim, prosseguimos descendo entre grandes bosques de pinheiros, num constante ziguezague, até atingir, às 15 h 15 min, a cidade de Laza, nosso destino, naquele dia.
Um simpático morador nos conduziu até a escritório da Proteção Civil, onde preenchemos uma ficha cadastral e foi-nos entregue uma chave do albergue que, por sinal, encontra-se a uns 400 metros do centro do cidade.
O edifício está situado num centro polidesportivo e possui quatro dormitórios, com oito camas em cada um deles. Além disso, disponibiliza cozinha, frigorífico, secadores, ampla sala de estar, abundante e moderno mobiliário, é amplo, sólido, confortável e muito bem gerido.
Ali, além do amigo Miquelle, encontrei o Francisco, um peregrino português que chegara pelo "tramo" de Verín. Nos instalamos os quatro confortavelmente num único quarto e tivemos uma noite bastante agradável.
Fiz, à tarde, após breve "siesta", um giro pelo povoado e pude ver que o lugar é cheio de alusões aos seus animados e peculiares carnavais.
Famoso ali é um bonito e original cruzeiro, do século XV, construído sobre quatro grandes pilares, ainda que se encontre atualmente num espaço restrito e tenha sua visão obstruída pela fiação aérea que conduz eletricidade às casas contíguas.
Para jantar, utilizamos o serviços do bar Blanco (10 Euros).
Imperioso enaltecer a refeição preparada pela esposa do proprietário, pois, estava deveras supimpa, seguramente, uma das mais saborosas que ingeri em todo o Caminho.

Tempo gasto: 8 h
Sinalização: Boa no início, porém, um tanto confusa na chegada à Campobecerros. Após essa cidade, o restante do percurso está muito bem sinalizado
Clima: Chuvoso até às 12 h, depois, encoberto, com temperatura variando entre 0 e 8 graus.
Impressão pessoal: Uma etapa quase toda feita por asfalto, sendo os primeiros 20 quilômetros sob intensa chuva. No global, um trajeto de grande dificuldade, mormente em sua primeira metade, com inúmeras ladeiras a serem vencidas. Em compensação, um percurso de incomum beleza, de inesquecíveis paisagens em quase toda a jornada.