Livro Completo

VIA DE LA PLATA 2008 - Parte V

Oswaldo Buzzo

25ª Jornada - Laza a Xunqueira de Ambia - 34 quilômetros - "Bar de las Conchas!"

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Acordei como de costume às 6 h. Para minha decepção, a chuva voltara e lá fora caía forte borrasca. Vagarosamente, os demais também se levantaram, de forma que tomamos o desjejum quase comunitariamente.
Às 7 h 30 min, quando a chuva finalmente amainou, parti sozinho, debaixo de leve garoa. Os primeiros 3 quilômetros são feitos em asfalto, pela rodovia local 113, até Soutelo Verde, um "pueblo" pequeno e deserto.
Já era dia claro, a garoa havia cessado, mas, as nuvens continuavam baixas e carregadas. Passei ao lado da igrejinha local e depois prossegui entre vinhedos, mas, em breve retornava ao asfalto e por ele alcancei, após, mais 3 quilômetros, a vila de Tamicelas.

A partir dali inicia-se forte e íngreme subida, sobre pedras polidas e escorregadias. A chuvinha persistia, de forma que precisei manter firme concentração, posto que a altitude inicial é de 400 m, e após 3 quilômetros de dificultosa ascensão, atinge 1.000 m de altura.
Sem dúvida, um dos grandes "obstáculos" a ser superado nessa Rota. Contudo, a visão que se descortinava lá do topo era realmente espetacular, o que compensa todo o esforço despendido.
À propósito, existem peregrinos que preferem vencer este portentoso desafio, subindo pelo asfalto, porém, alguns consideram esta opção mais difícil que o roteiro tradicional, além de exceder em quase 4 quilômetros o caminho de terra.
Existem, ainda, estatísticas de que pela "carretera" há que se sobrepujar 67 curvas, algumas delas com grande inclinação em seu traçado.
Às 10 h, 12 quilômetros superados, cheguei em Albergueria, simpática cidadezinha de casas toscas e silenciosas. Parei no "Bar das Conchas", realmente um local rústico, místico e imperdível.
A parte interior resulta curiosa, posto que é integralmente revestida de lambris de madeira talhada e suas paredes e teto estão tomadas por milhares de vieiras, onde encontram-se gravados nomes e datas, lembrança de peregrinos que por ali transitaram, legando a este pequeno recanto um ambiente tipicamente "jacobeo".
O Sr. Luiz, o proprietário, foi extremamente simpático e atencioso comigo e, por certo, com todos os visitantes. Prontamente, me cedeu uma concha que autografei e, em seguida, como num ritual, fixou-a na parede do estabelecimento. Acredito que ficará lá para sempre, como testemunha de minha passagem por aquele local.
Depois de tomar saboroso café e comer algumas bolachas, prossegui por estradas rurais, em meio a muito verde. Pouco à frente, no topo do monte Talarinho, cruzei uma grande cruz de madeira, a famosa "Cruz de los Segadores".
A partir daquele ponto o caminho entra em grande descenso e por ele atingi, às 12 h, Vilar de Barrio que, comparando com as demais desta etapa, é uma vila de razoável porte. Na entrada dessa povoação, do lado direito, vale a pena fotografar um esplêndido conjunto de hórreos, integralmente preservados.
A chuva apertou e resolvi não fazer mais paradas. Assim, prossegui em frente, primeiramente por asfalto até Bóveda e Vilar de Gomareite. Depois, por planas, retas e monótonas estradas de terra, sempre em meio a muito verde, numa zona boscosa onde abundam os grandes carvalhos.
Na verdade, caminha-se sobre a laguna seca de Antela que, segundo os historiadores, foi no passado, a maior superfície de água doce de toda a Península Ibérica. Nessa marcha, passei por Bobadela, Pedroso e Cima de Villa, pequeníssimos "pueblos" que não oferecem nenhum tipo de serviço.
Finalmente, às 14 h 30 min, cheguei ao Albergue de Peregrinos de Xunqueira de Ambia, situado no Pavilhão Polidesportivo da cidade.
No entanto, precisei caminhar mais 1.000 m, até a urbe, mais especificamente, até o bar Retiro, onde apanhei as chaves com a proprietária, Sra. Marina. Uma hora depois, enquanto me banhava, chegou o Francisco e, mais tarde, Miquelle e Olaf.
O albergue necessita de manutenção, contudo, é espaçoso e confortável. Por volta das 17 h, na grande e funcional cozinha do prédio, improvisamos um lanche comunitário, onde discutimos as peripécias do dia e planos para a jornada seguinte. Em seguida, fomos todos ao "pueblo" fazer compras e navegar na Internet.
Na cidade, cujo nome evoca a aparição de Nossa Senhora da Assunção, num juncal, há o famoso e belíssimo Monastério de Santa Maria la Real, do ano de 1.164, construído em estilo românico, que possui um harmonioso claustro em estilo tardogótico, uma visita indispensável para os caminhantes.
Por sinal, até o final do século XIX, esta povoação chegou a contar com um hospital de peregrinos que podia abrigar mais de 100 pessoas e era parada obrigatória aos que se dirigiam à Santiago, em face da hospitalidade ali dispensada.
À noite retornamos os quatro novamente à simpática povoação, desta vez para jantar no café-bar "Saboriño" (8 Euros).
Na volta ao albergue, uma surpresa agradável: além do silêncio reinante, o céu se mostrava límpido e integralmente coalhado de estrelas. No entanto, fazia um frio "de rachar", com a temperatura exterior beirando a marca de zero grau.

Tempo gasto: 7 h
Sinalização: Normal
Clima: Tempo chuvoso, com temperatura variando entre 3 e 12 graus.
Impressão pessoal: Uma etapa sem grandes dificuldades, a não ser pela íngreme encosta a ser vencida após a cidade de Tamicelas. Em compensação, o Bar das Conchas, em Albergueria, é imperdível e faz a diferença nesse percurso.

26ª Jornada - Xunqueira de Ambia a Orense - 22 quilômetros - "Só Asfalto!"

A previsão metereológica indicava tempo bom para aquele dia. Acordei às 6 h e observei que todo espaço ao redor do albergue se encontrava envolto por forte neblina. Seria um percurso bastante curto, se comparado com os outros já sobrepujados, de maneira que, sem pressa, ingeri algumas frutas, aguardei o dia clarear e parti, às 7 h 30 min, sob intenso frio.
Atravessei Xunqueira de Ambia em sentido longitudinal, acessei uma estradinha asfaltada e por ela segui até Outerelo, pequeníssimo vilarejo. Ali as flechas me direcionaram para a direita, no entanto, logo a sinalização desapareceu e me perdi. Depois de muitas voltas sem encontrar as "benditas" setas, resolvi retornar ao asfalto e por ele segui até A Pousa.
Nesta vila encontrei um grupo de três hórreos, muito bem conservados, que me chamaram a atenção, pois, guardavam perfeita e singela harmonia com o ambiente ao seu redor. Esclarecendo, que se tratam de construções típicas da Galícia utilizadas, ainda hoje, para a guarda de grãos, em locais altos e bem protegidos, à salvo dos pássaros e de roedores.
Pouco depois adentrava à Salgueiros, um "pueblo" de razoável porte. A partir desse povoado, até o final da jornada, todo o percurso é feito obrigatoriamente pela "carretera", num trajeto insípido e duro, porém, muito bem sinalizado.
Sempre descendo, atravessei inúmeras vilas, e em alguns lugares encontrei bares abertos. Num deles fiz uma pausa para o café e lanche.
Nesse ritmo, ultrapassei Gaspar, Castellada, Ousende, A Neta, Venda do Rio e Pereiras, este último, um pequeno vilarejo onde avistei abundantes plantações de uvas do tipo "Ribeiro", famosíssimas na Espanha pelo especial vinho extraído da fruta.
Em seguida, passei por Castellada e, depois, por Reboredo, a povoação mais importante que cruzei desde o início desta jornada. Nela está localizado o polígono industrial de Orense.
Ali o intenso tráfego de veículos, aliado ao ensurdecer barulho dos maquinários em ação, além da intensa poluição expelida pelas chaminés das fábricas provocam um choque nos peregrinos acostumados ao silêncio e o ar puro das trilhas rurais.
Uns 5 quilômetros depois, atravessei a pequena vila de Seixalbo, um "pueblo" diferente, com inúmeras casas de ardósia e dois bonitos cruzeiros feitos de pedra maciça. Na parte mais alta da urbe, destaca-se a igreja de San Breixo, construída no século XII.
Adentrei à zona urbana, quase sem notar, e quando as flechas misteriosamente desapareceram, aproveitei e conversei com passantes. Assim, às 12 h 30 min, cheguei à Plaza Mayor de Ourense, simpática cidade, capital de Província de mesmo nome.
Sua origem data o século VI, quando os reis Teodoro e Mirón estabeleceram ali sua corte. E seu nome deriva de um topônimo, de origem germânica. No caso, "Wrum sae", significa "lago quente". Tomando-se como referência a Avenida de Zamora, chega-se à "As Burgas", um manancial termal com um caudal de 300 litros por minuto, onde a água sai a 67º C.
Subindo por algumas escadarias, no topo de uma elevação, encontrei o convento de São Francisco, uma faustosa construção datada do ano de 1.305.
Lá existe um albergue particular, no entanto, só abriria às 14 h para receber os peregrinos. Como havia principiado a chover e me encontrava exausto, optei por me hospedar no Hostal Cândido (22 Euros), situado na Avenida del Progresso.
Orense é uma bela, rica e progressista cidade. No seu centro histórico, além de interessantes monumentos, existem inúmeros e sofisticados restaurantes. Após, reconfortante banho, num deles, almocei soberbamente, por 8 Euros. Retornando ao local de pernoite, encontrei em uma rua Francisco, o português, que informou estar alojado juntamente com Miquelle e Olaf, no "refúgio" onde eu havia desistido de dormir.
Mais tarde fui conhecer a grandiosa Catedral de San Martin, do século XII. Uma surpresa agradável, pude assitir a uma missa e participar da comunhão, posto que havia iniciada a celebração em uma de sua inúmeras capelas internas.
Depois, me detive por largo tempo ante o Pórtico do Paraíso, construção policromática realizada por um discípulo, cuja entalhadura foi inspirada no Pórtico da Glória, excepcional obra do mestre Mateo, situada no átrio da Catedral Compostelana.
À noite, fiz apenas um lanche no quarto do Hostal e deitei cedo, já me preparando para a difícil e extensa jornada que enfrentaria no dia seguinte.

Tempo gasto: 6 h
Sinalização: Boa, contudo, aconselho que o percurso seja feito desde Xunqueira, integralmente pelo asfalto, evitando-se, assim, desencontros, como me ocorreu
Clima: Tempo nublado, temperatura variando entre 4 e 12 graus.
Impressão pessoal: Uma etapa sem maiores dificuldades, talvez, a mais fácil e insossa de todas que fiz, porquanto, sempre em pronunciado descenso, muito embora, a lamentar, seja ela toda feita por asfalto.

27ª Jornada - Orense à Castro Dozón - 42 quilômetros - O derradeiro sábado!"

A saída de Orense se faz pela Avenida del Progresso, até seu final, exatamente quando conflui acessando à enorme "Puente Romana", construída sobre o rio Mino. Após atravessá-la, há duas opções: por Amoeiro ou Tamallancos e ambas tem um perfil similar e mesma quilometragem, porém, a segunda possui mais "tramos" por "carretera".
Depois de estudar minuciosamente minhas anotações e mapas, resolvi seguir a primeira alternativa. Assim, após transpor a ponte, continuei em frente pela Avenida de Las Caldas.
No trajeto, por ser final de semana, encontrei vários jovens voltando para casa, depois de bela noitada. O semblante cansado e sonolento demonstrava sinais de que consumiram álcool, além da conta. Ainda assim, a maioria se mostrou respeitosa ou taciturna, e alguns desejaram-me o clássico "buen camiño".
Na seqüência, passei defronte à "Estación del Ferrocaril"e prossegui, então, pela Calle Carrero Blanco até o povoado de Quintela, que praticamente está unido à Orense.
Ali, defronte um bar, convergi à esquerda e, em seguida, prossegui à direita, pelo acostamento da "carretera nacional" que liga Orense à Vigo. O trajeto está mal sinalizado, no entanto, logo à frente atravessei o povoado de Canedo, o que levou um bom tempo.
À minha direita havia elevados morros pelos quais em determinado momento iria transpor, conquanto não soubesse em qual dos lados faria tal travessia, nem quais encostas seriam vencidas, vez que à distância, pareciam extremamente íngremes.
Num perigoso cruzamento deixei a rodovia e, obedecendo a sinalização, segui à direita, após passar sob um pequeno túnel da estrada de ferro.
Na seqüência, acessei um abrupto aclive nominado de "Costiña de Canedo", que possui uns três quilômetros de extensão. E, para se ter idéia de seu grau de inclinação, diria que o desnível é tão forte, que alguns carros circulavam em primeira marcha.
Fui forçado a fazer algumas paradas para tomar fôlego e beber água. Sentia minha camiseta empapada de suor, contudo, o ar externo estava bastante frio, de maneira que não podia tirar a jaqueta. No final da ladeira, adentrei à pequena vila de Cima da Costa.
E, próximo a uma fonte, havia uma placa de pedra encravada numa rocha, indicando que me restavam, exatamente, 99 quilômetros até Santiago. A visão desse marco me infundiu, de pronto, um sentimento duplo e estranho, misto de tristeza e alegria.
Eram 9 h da manhã e eu já havia percorrido 9 quilômetros, de maneira que fiz uma pausa restauradora para beber água e descansar um pouco.
Na seqüência, o caminho tornou-se mais suave, por corredores com grande vegetação que me impediam de ver cada "pueblo" ou aldeia pelas quais passaria, antes de atingi-los.
Muitas dessas vilas estão tão próximas, que quase não se percebe a divisa de uma e de outra.
Em Mandrás, um pequeno vilarejo, havia um bar aberto, onde entrei e ingeri um café, pois, a temperatura externa mantinha-se ao redor de 10 graus.
O senhor que servia o balcão puxou conversa e foi difícil deixar o estabelecimento. Contou-me que possuía inúmeros familiares residindo no Brasil, assim, queria detalhes de nosso país, cultura, enfim, fiquei deveras impressionado com o despertado interesse por nossa amada pátria.
Na seqüência, a vegetação seguiu abundante, predominando os pés de carvalho e, curiosamente, em alguns locais, o caminho se estreita de tal maneira, que se reduz a diminuta e penosa senda, onde se é obrigado a atravessar.
Rapidamente, passei por Pulledo, pequeníssima vila e, às 11 h 30 min, 18 quilômetros percorridos, cheguei em Casasnovas, onde se convergem novamente os dois roteiros que partiram de Orense.
E, 15 minutos depois, adentrei em Cea, simpática cidadezinha, famosa por seus pães cozidos à lenha em fornos de pedra e barro.
Em sua praça central se encontram os dois edifícios mais significativos da povoação: A Torre do Relógio, de formato quadrangular, que possui em sua base uma fonte de quatro canos, e a igreja paroquial de San Facundo.
Parei no excelente albergue particular, carimbei minha credencial, tomei água e, depois, segui em frente, pois, uma fina garoa principiava a cair.
O roteiro para Oseira está muito bem sinalizado, e não encontrei dificuldades para sair do povoado.
Atravessei, primeiramente, uma zona em que a abundância de pedras de granito fincadas no solo impediu o crescimento normal das árvores que nasceram esgueirando entre elas.
Porém, mais à frente, cheguei à Silvaboa, onde voltei a encontrar uma exuberante vegetação; Passei, depois, por Pieles e, finalmente, prossegui pelo acostamento da "carretera", enfrentando os derradeiros quilômetros até avistar o impressionante Monastério de Oseira.
Conforme me aproximava do local, pude ver sua magnificência, que possivelmente foi um dos grandes centros de poder da Igreja Espanhola, pois, é um dos maiores conjuntos religiosos que já havia visto e seu porte é verdadeiramente impressionante.
A abundância de ursos (oso, em espanhol) nessas terras, deu nome ao Mosteiro, cuja construção se iniciou no ano de 1.137. Inicialmente, foi habitado por monges beneditinos que, posteriormente, aderiram à Cister, uma ordem monástica católica, fundada em 1.098, por Robert de Molesme e seus seguidores, conhecidos como monges brancos, devido à cor do seus hábitos.
Através de um noviço fiquei sabendo que o pernoite se faz em local extremamente rústico, na verdade, sobre rijos estrados de madeira, algo impensável para quem caminhou mais de 30 quilômetros e precisava de um bom descanso físico.
Ainda era cedo, o clima persistia fresco, me encontrava bem e animado, de forma que, após, carimbar minha credencial e fazer breve pausa para lanche, resolvi seguir adiante.
A saída foi feita num caminho em forte ascenso e, rapidamente, foi necessário vencer um desnível de uns 200 m. No solo sobressaem enormes pedras de granito e como a chuva persistia, ainda que em pequenas pancadas, todo o cuidado era necessário para não escorregar ou cair.
A rota, depois, em descenso, onde se caminha entre muito verde e lindos vales, me levou a Vilarello e, posteriormente, à Carballedina. Nesse pique, cheguei à Outeiro, o último "pueblo" da Província de Orense e ali fiz rápida parada, enquanto aguardava a chuva amainar.
Como nas terras Galegas a topografia muda a todo instante, na seqüência, em forte ascenso passei por A Goucha, a primeira povoação da Província de Pontevedra. No local existe um bonito cruzeiro que, também, indica aos peregrinos o roteiro onde devem seguir.
Mais à frente, ultrapassei Vidueiro e Taberna, pequenos e desertos "pueblos". A partir dessa última povoação, prossegui intercalando estradas de terra e asfalto até aportar à cidade de Castro Dozón, às 15 h 30 min.
Ali fiquei hospedado no Albergue Provisional que está situado dentro do acanhado parque aquático da cidade e construído com a junção de alguns contêineres de aço.
Como o próprio nome diz, é provisório, e nele não existe cozinha ou sala de estar. Apenas, 2 banheiros, 3 duchas e dormitório contendo 7 beliches.
Nele reencontrei meu amigo Gianfranco, o italiano, bem como os alemães Walfrid e Karl, que já conhecia desde a Província de Cáceres.
Também, travei contato com Natália, uma jovem de nacionalidade uruguaia, que havia iniciado sua peregrinação em Salamanca. Ao todo, pernoitamos em 10 pessoas naquele local, um número razoável se levarmos em conta a época do ano.
Depois de tomar banho e lavar as roupas, fui visitar a Igreja de São Pedro, jóia do romântico galego do século XII, porém, infelizmente, a mesma se encontrava fechada.
À tardinha, chegou Francisco, o português, que havia percorrido o mesmo trajeto que eu naquele dia. Através dele fiquei sabendo que Olaf e Miquelle, fatigados pela opressiva jornada, tinham resolvido pernoitar em Oseira, numa Casa Rural.
À noite fomos todos jantar no bar Fraga, onde funciona uma "tienda" anexa. Aproveitei, então, para adquirir água e provisões para a etapa do dia seguinte. E, logo após a lauta refeição retornarmos ao refúgio para descansar, pois, o dia fora extremamente desgastante.

Tempo gasto: 9 h
Sinalização: Ruim no início, contudo, após a cidade de Canedo, normal
Clima: Tempo nublado e/ou chuvoso, com temperatura variando entre 4 e 10 graus.
Impressão pessoal: Uma etapa bastante complicada, pois, praticamente toda feita em asfalto. Ainda, com dois desníveis a serem suplantados, um logo no início, após, Canedo. E outro, logo depois do Monastério de Oseira, ambos com respeitável grau de dificuldade.

28ª Jornada - Castro Dozón à Silleda - 29 quilômetros - "Um Domingo Festivo"

O tempo reinante que findara ensolarado no sábado, mudou novamente. Choveu a partir da madrugada e fez muito frio à noite. Por sorte, a calefação permaneceu ligada, ininterruptamente.
No entanto, quando levantei-me, às 5 h, para beber água, pude sentir que a temperatura externa beirava zero grau.
Parecia que ninguém tinha pressa naquele domingo, pois, todos dormiam sono profundo. Não queria fazer barulho, por isso fui me agüentando na cama. Finalmente, às 7 h, resolvi me levantar e logo depois, às 7 h 30 min, solitário, iniciei minha jornada, enquanto alguns peregrinos ainda se espreguiçavam nos beliches.
O céu da manhã, em sintonia com a previsão, se apresentava nublado e caía um chuvisco fino e frio. O trajeto inicial seguiu alternando caminhos rurais e o acostamento da rodovia uns 10 quilômetros.
A mansa e impertinente garoa, finalmente. cessou quando cheguei à cidade de Puxallos. A partir dali o roteiro prossegue em meio aos bonitos vales que cercam o rio Deza e, em seqüência, passei por Pontenoufe e Gesta.
Nessa região a vegetação é densa e, em alguns trechos existem altos carvalhos de ambos os lados do caminho. Por isso, há ocasiões que acorre a sensação de estarmos caminhando dentro de um enorme túnel construído pela exuberante natureza a nos envolver.
Em duas oportunidades avistei ao longe cervos pastando, por sinal, eles são abundantes nessa região.
Finalmente, às 10 h 30 min, 13 quilômetros percorridos, cheguei à Estación de Lalin, pequena vila que abriga uma grande estação destinada à baldeação dos trens que servem o percurso entre Orense e La Coruña.
O tempo permanecia ventoso e caia leve garoa. Assim, molhado e faminto, parei num bar local, onde aproveitei comer algo e ingerir duas "generosas" doses de café com conhaque, espantando o frio que sentia.
Com as forças recuperadas, prossegui em frente e, na seqüência, sempre por estradas vicinais asfaltadas, passei por inúmeros "pueblos" como Baján, Bousa, Botos e Donsión. Depois, Laxe, onde existe um albergue novo e vanguardista.
Ultrapassei, a seguir, Empedrada, Vilasoa e Jubín. Ao chegar em Prado a chuva retornou com força, obrigando-me a vestir a capa, novamente.
O roteiro seguiu pelo asfalto até próximo das Indústrias Hoxe. Ali o caminho segue novamente em direção ao rio Deza, numa preciosa trilha que transcorre sob grandes árvores e carvalhos centenários.
Sigo caminhando compenetrado, desfrutando de cada momento, pois, depois de tantos dias em marcha, imprescindível "saborear" os derradeiros passos.
Em seqüência, o caminho me conduziu a uma bonita ponte de pedra medieval, denominada de "Taboada", por sob a qual as águas correm rápidas e encachoeiradas, após a passagem entre grandes rochas, situadas no leito da caudalosa torrente líquida.
Numa pedra próxima existe curiosa inscrição gravada do século X, em estranho dialeto, cujo significado ainda não foi desvendado pelos hierógrafos europeus.
Mais à frente, em uma zona de descanso junto à rodovia, existe uma interessante igrejinha dedicada à Santiago, onde há presença de restos românticos do século XIII. Um relevo na porta principal sobressai aos olhos, é a figura de Sansão com sua força sobre-humana, abraçando um leão.
Segundo me informou um morador local, nessa região existe uma densidade maior de cães do que pessoas, por quilômetro quadrado. Quase impossível ultrapassar uma habitação sem avistá-los, quase sempre aos bandos.
Já deixando o local, cruzei com um senhor idoso que tangia um rebanho de vacas para um pasto mais acima e, ao cumprimentá-lo, o bom homem prontamente se acercou e me apertou a mão como se nos conhecêssemos há anos.
Incontinenti, se interessou em saber de onde eu vinha, para onde seguia, a razão de minha peregrinação, etc... Foi difícil me desvencilhar do bom homem.
A partir dali o roteiro seguiu entre grandes fazendas de gado até Transfontao, um bonito "pueblo" e, logo depois, às 14 h, adentrei em Sileda, importante e progressista, centro de gado leiteiro, minha meta naquele dia.
Na cidade fiquei hospedado no confortável Hotel Ramos (30 Euros), o primeiro local para pernoite que encontrei. Porquanto, o albergue mais próximo ficava em Bandeira, a 8 quilômetros dali.
A garoa ainda persistia, assim, por comodidade, fui almoçar num estabelecimento localizado em frente ao alojamento, o bar Ricardo.
Um tanto desatento e emocionado de ter vencido a penúltima etapa de minha peregrinação, não me preocupei em solicitar informações acerca do "menu del dia", ao contrário, escolhi aleatoriamente os pratos que desejava comer, sem verificar os preços estipulados.
Na hora de acertar a conta, tive desagradável surpresa: gastei 27 Euros, seguramente, a refeição mais cara que fiz em todo o meu périplo.
Por volta das 19 h, a chuva finalmente cessou e, então, calmamente pude visitar a igreja matriz da cidade, cuja padroeira é Santa Eulália e está edificada nas proximidades do Monastério de Carboeiro, uma bonita construção em estilo romântico, do século XV.

Tempo gasto: 6 h 30 min
Sinalização: Normal
Clima: Tempo nublado e/ou chuvoso, com temperatura variando entre 1 e 10 graus.
Impressão pessoal: Uma etapa sem maiores dificuldades, quase toda plana, com poucos acidentes geográficos importantes para sobrepujar. A lamentar, apenas, salvo raras exceções, ser feita integralmente por asfalto.

29ª Jornada - Silleda à Santiago de Compostela - 41 quilômetros - "Um grande dia"

Era meu último dia no caminho e seria bastante longo. Assim, levantei-me cedo e, às 6 h, deixei o hotel e segui pela "carretera" até a saída da cidade. Ali as flechas me direcionaram para o caminho de terra, à esquerda.
No entanto, face às pesadas chuvas do dia anterior, inferi que as trilhas deveriam estar enlameadas e escorregadias. Ademais, uma grande e densa névoa cobria todo o ambiente, de modo que, certamente, eu teria dificuldades para localizar as flechas sinalizadoras.
Diante disso, resolvi seguir pelo acostamento da rodovia e, após 1 hora, sempre descendo, cheguei à Bandeira, uma pequena povoação cortada pela autovia nacional. Num "méson" local, entrei e tomei meu café da manhã.
Depois segui adiante e logo à frente, fleti à direita e, sempre por asfalto, passei Vilariño, Pinheiro e, mais tarde, quase sem perceber, em San Martin de Dornelas. Logo depois, em Besteiro, um "monjón" estrategicamente colocado numa encruzilhada, me avisava que faltavam 30 quilômetros para chegar à Santiago.
A manhã era sempre uma benção. Eu me sentia um tanto diferente, algo novo brotava dentro de mim, uma certa ternura existia, talvez, saudade e esperança. Como todo ser humano que demanda Santiago, pensando, repensando, conferindo tudo e introspectivo, rememorando os indeslembráveis acontecimentos que vivera nos últimos 28 dias.
Afinal, o peregrino não tem horário, nem precisa marcar ponto para começar cada percurso. Claro, também não tem hora para encerrar sua odisséia, muitas vezes segue avançando até tarde e, algumas vezes, noite adentro. Em contrapartida, respira ar livre o tempo todo, sem ficar preso a uma rotina desgastante.
Também, vê lugares diferentes, conhece pessoas novas a cada trecho percorrido, faz amigos, tem oportunidade de observar tipos engraçados e, algumas vezes, passar o dia todo sozinho, contando, apenas, com seu próprio bom senso e a proteção Divina.
Mas, principalmente, não tem rotina definida, começando cada jornada sem ter a menor idéia de como ela transcorrerá, sabendo apenas que, monotonia dificilmente haverá. Contudo, o peregrino é, por natureza, um otimista nato, que sempre observa primeiro o lado bom dos acontecimentos.
Assim, sentindo a emoção dos derradeiros passos no Caminho, segui em meio a grande plantação de eucaliptos até San Miguel de Castro. A partir dali inicia-se fortíssimo descenso em pista asfaltada, culminando quase no final, com a visão impressionante de uma ponte construída sobre portentosos blocos de pedra viva, por onde correm os trens.
Mais à frente, ao final da rodovia, cheguei a uma ponte de pedra medieval sobre o rio Ulla e, ao ultrapassá-la, deixei a Província de Pontevedra e adentrei na de A Corunã, a última onde iria caminhar até meu destino final.
No Restaurante Rios, o primeiro que encontrei ao adentrar à povoação, parei para lanchar e tomar café. Depois, prossegui; agora subindo forte e, tive que superar, nos primeiros 4 quilômetros, um desnível de 250 metros. Após ultrapassar um grande bosque de eucaliptos o caminho se torna plano e logo depois passei em Outeiro, onde existe um novo e excelente albergue.
Sentei-me para um breve descanso junto a uma fonte existente atrás da Capela de Santiaguiño, uma interessante construção do século XVII, onde há uma estátua de Santiago e de seus fiéis discípulos, Teodoro e Anastásio.
É um local agradabilíssimo que nos convida a uma pausa e, ante o iminente final do Caminho, também, a uma reflexão.
Depois, a subida continuou por uma estrada empedrada até o sopé do "Pico Sacro". A partir, dali tudo fica plano e mais à frente passei por Rubial e Lestedo. Daquele local, a 10 quilômetros de distância, já conseguia divisar os contornos da cidade de Santiago.
Quando reiniciei a marcha, custou-me acreditar que o roteiro iniciado há 29 dias, estava inevitavelmente se findando. Mentalmente, fiz uma rápida compilação dos acontecimentos pretéritos, etapa por etapa. E, em cada recordação agradável, sentia uma pequena pontada em meu peito.
Por uma rodovia vicinal asfaltada em meio a um frondoso bosque de eucaliptos, cheguei à Susana. Próximo ao centro dessa cidadezinha, toma-se um atalho à esquerda que, mais à frente, está coberto por uma enorme e frondosa parreira que une duas chácaras situadas de ambos os lados dessa senda.
Na seqüência, sempre por asfalto, atravessei Cañoteira, Vixoi e, no alto de uma encosta pude vislumbrar, ao longe, as agulhas da Catedral Compostelana.
Interessante notar que não encontrara desde minha saída de Silleda até aquele momento, nenhum outro peregrino. Se estivesse na última etapa do Caminho Francês, certamente, teria feito parte de um fluxo contínuo de pessoas, pois, aquele roteiro é muitíssimo mais movimentado do que este que finalizava.
Por fim, passei por Piñeiro, Angrois e cheguei à "calzada medieval de Sar", já na parte urbana de Santiago. Ao fim dela, pude divisar com nitidez, próximas dali, as torres da Catedral, reluzindo ao brilho do sol vespertino.
Instantaneamente, meu coração disparou jubiloso, meu passo acelerou e as recordações do Caminho sobrevieram em tropel: as obrigações, os bons desejos, as orações pelos meus entes queridos que, de um modo ou de outro, também fizeram o roteiro comigo. Pois, não foi na igreja, mas, neste último quilômetro que externei meus pedidos e anseios.
Assim, mentalmente fui orando pela minha família e, também, por todas aquelas pessoas que me auxiliaram na consecução de meu objetivo. E, ainda, por aquelas que durante o Caminho, especificamente, me socorreram com seus préstimos e deferência.
Nesse passo, lembrei-me com mais efusão de Dona Manuela, de Castilblanco de los Arroyos; do Sr. Angel, de Alcuéscar; do Sr. Alfonso, de Cañaveral; de Dona Helena, de Carcaboso; da Sra. Elena, de San Pedro de Rozados; de Dona Vitória, de Cernadilla e de Dona Conchi, de Lubián.
Em continuação, prossegui por avenidas movimentadas, rompendo, depois, pelas empinadas ruas del Sar, do Castro de Ouro e, finalmente, após, ultrapassar a porta de Mazarelos, a única que resta da antiga muralha que protegia a urbe, saí diretamente na Praça de Praterias, pela qual, finalmente, eu cheguei à Praça do Obradoiro, exatamente, às 15 h.
Imediatamente, meus olhos nublaram ao rever novamente o majestoso Templo do Santo Apóstolo.
Emocionado, "sentia" o Caminho desvanecer naquele instante. Posto que, deixara de existir num inolvidável átimo de segundo, mas, em meu coração persistirá para sempre, como algo inestimável, de perene e pungente recordação. E são essas conquistas que nos acompanham a vida toda.
Em seguida, bati algumas fotos para deixar registrado à posteridade o momento mágico e único que vivi. Depois, tomado por grande contentamento, adentrei à magnificente Catedral para cumprir os rituais de praxe.
Findos estes, passei pela "Oficina del Turismo" para retirar a "Compostelana" e, na seqüência, me hospedei no confortável Hotel Real, localizado próximo ao "casco viejo" da cidade.
No dia seguinte, uma terça-feira, assisti à emocionante Missa das 12 h, onde os peregrinos são homenageados.
Na quarta-feira, fui à Finisterre e na manhã do dia posterior, embarquei de volta ao Brasil.

Tempo gasto: 9 h
Sinalização: Normal
Clima: Ensolarado, com temperatura variando entre 4 e 16 graus.
Impressão pessoal: Uma etapa longa e cansativa, pois, salvo raras exceções, toda trilhada em asfalto. Mas, por ser a derradeira, emocionante e inesquecível.

CONCLUSÕES FINAIS

Aportar à Santiago de Compostela pela terceira vez, a pé, evidenciou em meu interior um misto de orgulho, superação e imensa satisfação pessoal, posto que necessitei conjugar o vocábulo "obstinação" por diversas vezes, durante o curso de minha caminhada.
Porquanto, o percurso além de extenso foi extremamente difícil, agreste e solitário. Aliás, peregrinos anteriores que descreveram suas aventuras por essa Via, nominaram-na de "O Caminho da Solidão".
Por outro lado, os contrastes encontrados nesse roteiro são espetaculares, embora sua rudeza traduza-se em inadequação para os inexperientes no mister. Visto que, conquanto praticamente todo plano até o 430º quilômetro, por volta de 30% de seu traçado global é asfaltado.
Há de se realçar que um dos maiores empecilhos é o calor, na época do verão, visto que praticamente não há sombras no percurso. Certamente, a primavera ou o outono são as estações mais apropriadas para intentar tal desafio, já que no inverno, a partir da cidade de Puebla de Sanabria, é possível enfrentar nevascas.
Também, as distâncias entre algumas cidades faz com algumas etapas sejam extremante largas. Para melhor clarificar tais assertivas, inevitável fazer-se rápida comparação com o Caminho Francês. Assim, naquele roteiro, o tramo entre Carrión de los Condes e Calzadilla de la Cueza, com 17 quilômetros é, talvez, o trecho mais preocupante pela inexistência de água e provisões no trajeto.
Já na Via de la Plata, tais dimensões são freqüentes. Por exemplo, existem 10 ocasiões em que se enfrenta de 15 a 20 quilômetros entre as povoações. Ainda, há outras 5 vezes em que as distâncias alcançam entre 20 e 30 quilômetros. Uma, 34 quilômetros e, finalmente, a etapa "Rainha-Mãe", quase 40 quilômetros de longitude.
Oportuno ressaltar que, no geral, a Via de la Plata está muito bem sinalizada e as setas amarelas, símbolos aliados do peregrino, proporcionam a segurança de que seguimos em um roteiro idôneo. Porém, em certas ocasiões pode-se titubear em locais onde ela desaparece ou nunca existiu uma flecha. Contudo, é de relevo salientar, que poucas vezes, tais intercorrências me sobrevieram.

EPÍLOGO

O que existe de especial na Via de La Plata? Essa foi a pergunta que alguns amigos me fizeram, depois que retornei da aventura. A cada vez que respondo, descubro-me falando coisas diferentes, assim, deduzo que não sei a resposta correta, se é que ela existe.
Posso afiançar, no entanto, que é um roteiro extremamente rico em cultura e válido para aqueles que já detêm alguma experiência em caminhadas. Ou, para os que não pretendem reprisar o concorrido Caminho Francês. Ou, ainda, para aqueles que, como eu, voltam renovados e espiritualmente robustecidos, após cada nova peregrinação.
Em consonância, essa aventura me acompanhará para sempre como experiência positiva de vida, pois, uma parcela de minhas angústias e temores ficaram para trás, na purificação do conhecimento e na superação de cada quilômetro percorrido.
Se houve alguma conquista plena, ela ocorreu somente sobre minhas limitações físicas, no desafio pessoal de aportar ileso à Santiago para, depois, prosseguir normalmente em minha trajetória de vida.
E para melhor defini-la, aproveito uma citação de Aldous Huxley, inerente à questão: "O objetivo mais elevado a que os seres humanos podem almejar não é a busca de uma quimera, como a eliminação do desconhecido; é simplesmente o esforço incansável de mover os seus limites sempre um pouco mais além de nossa pequena esfera de ação".
Nesse contexto, convido-o, prezado leitor, a usufruir intensamente das benesses, amizades, descobrimentos e revelações que a Via de La Plata poderá lhe proporcionar.

Bom Caminho a todos!


Oswaldo Buzzo
(oswaldocps@hotmail.com)
Outubro/2008