Livro Completo

Caminho de Santiago - Um chamado, uma busca

- Paulo Rogério Vidal Cid

AGRADECIMENTOS

Tenho muito o que agradecer e a muitos que de alguma forma me ajudaram a percorrer o Caminho de Santiago de Compostela. Certamente lhes serei grato pelo resto de minha vida. Mas aqui neste espaço, expressarei apenas uma pequena parcela de minha gratidão.

Antes de tudo agradeço a Deus pelo Caminho de Santiago, esta dádiva maravilhosa aos homens, como um caminho de descobertas e compreensão, e especialmente por todas as oportunidades que tem me dado de aprender sobre o Seu Amor, nas mais diversas formas em que se manifesta, apesar de minhas hesitações em aproveitá-las.

Agradeço à Lúcia, minha esposa, que tem sido a porção melhor da minha vida, o apoio amoroso e solidário e por ter estado em meus pensamentos em cada dia do Caminho e a meus queridos filhos Paula e Gabriel, que carinhosamente contribuíram com o entusiasmo de sua juventude, dando a força indispensável a esta viagem.

Aos parentes e amigos que muito ajudaram com palavras de estímulo e conselhos, serei sempre grato. Aos que foram primeiro e, através de seus relatos, tanto ajudaram com preciosas informações e dicas, muito obrigado. Aos hospedeiros dos albergues ao longo do Caminho, por seu desvelo e abnegação, e ao povo espanhol, pelo carinho dispensado aos peregrinos, meu profundo agradecimento.

E a todos os peregrinos, de todas as épocas, que mantiveram vivos através dos séculos, o Caminho e o espírito da peregrinação, preservando para a humanidade atual, perdida entre os avanços tecnológicos e a carência de valores espirituais, uma oportunidade de olhar para dentro de si, resgatando ideais e sentimentos adormecidos, dedico a minha total e eterna gratidão.


BREVÍSSIMO HISTÓRICO DO CAMINHO

O Caminho de Santiago de Compostela é o nome genérico dos diversos caminhos que levam à cidade de Santiago de Compostela, usados como rotas de peregrinos. Atualmente são quatro os caminhos ainda utilizados. O Caminho Francês, iniciando em Saint Jean Pied de Port, na França, é resultante das rotas primitivas com origem em Paris, Vezelay e Le Puy. O Caminho Aragonês, partindo de Somport, na fronteira franco-espanhola, é a continuação da rota primitiva que começava em Arles. Estes dois caminhos são os mais utilizados atualmente e encontram-se em Puente la Reina, tornando-se um só, seguindo até Santiago mantendo o nome do primeiro.

O Caminho do Norte acompanha o litoral norte da Espanha, atravessando o País Basco, a Cantábria, as Astúrias e junta-se ao Caminho Francês já na Galícia. Finalmente o Caminho Português, o menos usado, é também o de itinerário mais impreciso, indo de sul para norte, encontrando-se com o Caminho Francês exatamente em frente à Catedral de Santiago, num ponto denominado Marco Zero.

De todos, sem dúvida o que goza da preferência de maior número de peregrinos é o Caminho Francês que foi também o meu escolhido. Mas como começou essa história de peregrinação a Santiago de Compostela? De forma bem sucinta, a história é a seguinte:

Depois da morte e ressurreição de Jesus Cristo, vários de seus apóstolos espalharam-se pelo vasto império romano e fora dele, levando aos povos a doutrina cristã. Acredita-se que Tiago, filho de Zebedeu e irmão de João Evangelista, chegou à Espanha onde pregou durante alguns anos, conseguindo converter pouquíssimas pessoas. Ele regressou a Jerusalém, acompanhado dos discípulos Teodoro e Atanásio, onde foi preso e decapitado por ordem do rei Herodes Agripa. Seu corpo foi atirado fora das muralhas da cidade e recolhido por seus discípulos que o conduziram à Espanha para ser sepultado.

O local escolhido foi um antigo cemitério romano num bosque chamado Libredunnum, situado em Iria Flávia, na época capital da Galícia. O sepultamento ocorreu por volta de 44 D.C. e mais tarde os dois discípulos também foram ali sepultados. Com o passar do tempo aquele cemitério foi abandonado e caiu no esquecimento. No ano de 813, um eremita chamado Pelayo avistou uma chuva de estrelas caindo sobre um lugar na floresta e dirigiu-se até lá, encontrando o túmulo do Apóstolo e de seus dois discípulos. Devido ao relato das estrelas caindo, aquele lugar passou a ser chamado Campus Stellae e acabou tornando-se Compostela.

Foi erguido um modesto templo sobre o sepulcro e os relatos de milagres atribuídos ao apóstolo Tiago começaram a espalhar-se, atraindo milhares de visitantes, a princípio da Galícia mas em pouco tempo de todas as partes onde chegava a notícia da descoberta daquelas relíquias.

Em 829, o rei Alfonso II adotou o já assim chamado Santiago, como padroeiro da Espanha e protetor de seus exércitos em luta contra os mouros que, naquela época, ocupavam a maior parte do atual território espanhol. Na batalha de Clavijo, em 844, correu entre os soldados de Ramiro I a notícia de que o próprio Santiago fora visto de espada em punho, montado a cavalo, enfrentando os mouros.

Esta lenda deu origem à imagem de Santiago Matamoros, venerada ainda hoje, em que o santo é representado como um guerreiro montado num cavalo branco. Com a ajuda de aliado tão poderoso, as hostes cristãs pouco a pouco foram sobrepujando os adversários e reconquistando regiões, durante séculos em poder islâmico.

Em 899, o rei Alfonso III ergueu sobre o templo primitivo uma grande basílica, destruída em 997, junto com o resto da cidade, pelo muçulmano Almansor. Novo templo foi levantado no ano 1000 e finalmente em 1075 foi iniciada a construção da atual catedral, consagrada em 3 de abril de 1211.

Desde o início, as peregrinações foram incentivadas pela Igreja e pelos soberanos cristãos pois aquela movimentação para chegar ao túmulo do Apóstolo ajudava a combater os mouros. Peregrinos de todas as partes, imbuídos de forte sentimento religioso, arriscavam a vida, enfrentando as dificuldades naturais de uma longa viagem somadas à ação de salteadores, pedágios extorsivos e, em algumas regiões, o perigo de cair em poder das tropas islâmicas.

A necessidade de assegurar os territórios conquistados e o acesso a Santiago de Compostela levaram as nações cristãs a somar esforços visando empurrar os islâmicos para o sul da península ibérica. O incentivo às peregrinações estava inserido neste propósito e foram construídos hospitais e igrejas ao longo do caminho que cruzava o norte da Espanha, formado pelas diversas vias com origem em território francês ao tempo em que Ordens de Cavalaria cuidavam de proteger os peregrinos. Facilidades e proteção consolidaram a rota conhecida como Caminho Francês que é praticamente a mesma até os dias de hoje.