Livro Completo
COMO COMEÇOU MINHA PEREGRINAÇÃO

Tomei conhecimento da existência do Caminho de Santiago de Compostela ao ler o Diário de um Mago, de Paulo Coelho. Gostei do livro, mas não senti vontade de percorrer aquele Caminho. Passaram-se vários anos e em outubro de 1993 li uma reportagem sobre o Caminho de Santiago. À medida em que lia, fui sentindo um desejo de conhecer aqueles campos, aquelas cidades, aquela catedral longínqua onde chegavam pessoas de todas as partes do mundo, com uma grande mochila nas costas e um cajado na mão. E o desejo foi crescendo, tornando-se um clamor interior, um chamado imperioso. Quando terminei de ler a reportagem, comuniquei à minha família que iria à Espanha fazer uma peregrinação, andando cerca de 800 km por um caminho com mais de 1000 anos de existência.

Nós estávamos sentados junto a uma piscina num clube e mostrei-lhes a reportagem que acabara de ler, ao mesmo tempo em que dava uma explicação sucinta sobre o que se tratava. Eu mesmo estava surpreso com o que falava. Nunca tinha feito uma viagem ao exterior, não dispunha de recursos financeiros para custear tal empreendimento nem o tempo necessário. E, contrariando o meu modo usual de falar sobre atos futuros, não estava dizendo que pretendia ou sentia vontade de fazer aquilo. Dizia taxativamente que faria o Caminho de Santiago de Compostela. Não sabia quando, mas faria. Minha esposa e meus filhos apoiaram o projeto, que na ocasião parecia algo vago e distante, no tempo e no espaço.

A partir daquele dia, o Caminho tornou-se uma meta a ser atingida. Concluí que só seria viável após aposentar-me, o que deveria ocorrer em 1998, de acordo com meus planos. Estabeleci então, 1999 como o ano adequado para a minha peregrinação. Li alguns livros sobre o Caminho, colecionei reportagens e notícias pertinentes e procurei manter-me em boa forma física. Sobretudo sonhei muito, principalmente acordado, com as trilhas, os albergues, as igrejas, a chegada a Santiago de Compostela. Toda esta preparação me deixou preocupado pois nunca tinha conseguido realizar nada planejado com muita antecedência. Todas as coisas importantes acontecidas na minha vida ocorreram de repente, sem planejamento, não raro atropelando outros planos.

O tempo foi passando e em 1997, resolvi antecipar minha aposentadoria e conseqüentemente, a viagem. Aposentei-me em junho daquele ano, tirei passaporte, comecei a estudar espanhol e fazer longas caminhadas pelas ruas com uma mochila um pouco pesada. Em fevereiro de 1998 fiz a reserva da passagem aérea para o dia 17 de maio.

No final daquele mês, num mesmo dia, tive dois grandes sustos. Desde 1990, sou sócio do Centro Excursionista Brasileiro, e com esse clube fazia regularmente caminhadas pelas montanhas do Rio de Janeiro. Numa dessas caminhadas, descendo o Pico da Tijuca, escorreguei e caí, batendo fortemente com as costas numa raiz e com o cotovelo direito no chão. A dor foi tão forte que pensei ter fraturado alguma costela. Esta impressão tornou-se quase certeza quando quis falar e não consegui, chegando mesmo a respirar com dificuldade. Não fui capaz de levantar-me sozinho e, após ser colocado de pé pelos companheiros, ao tentar erguer o braço direito, percebi que não podia movê-lo mais que alguns centímetros.

A medida que a dor nas costas tornava-se suportável, passei a sentir o ombro direito doendo com intensidade crescente. O cotovelo estava apenas ligeiramente arranhado e não doía, pois o impacto foi todo absorvido pelo ombro. Com um braço totalmente inoperante, prossegui a descida, ajudado sempre que precisava usar os braços. Chegando ao ponto em que os carros foram deixados, uma das colegas do grupo gentilmente ofereceu-me carona até a porta da minha casa, poupando-me grande sofrimento.

Desde o momento da queda, creio que antes mesmo do primeiro gemido, mais que a dor no corpo físico, doía no fundo da alma o medo de que o acidente pudesse me impedir de ir à Espanha percorrer o já tão próximo Caminho de Santiago. Enquanto descia pela trilha, ia pedindo a Deus que não fosse nada sério, que não houvesse nenhuma fratura e eu não fosse impedido de realizar o meu sonho. Finalizando minha oração, como já era meu hábito fazer, pedi também que fosse feita a vontade Dele e não a minha.

Ao chegar em casa tive o segundo susto do dia. Encontrei um bilhete do meu filho dizendo que minha filha havia batido com o carro e que ele e minha esposa tinham ido ao local do acidente para encontrar com ela. O bilhete dizia que a Paula estava com três colegas no carro mas ninguém ficou machucado. Embora a notícia fosse de um acidente sem vítimas, fiquei aflito até chegarem em casa.

Algumas horas depois, já conseguia mover o braço, embora com dor e não pudesse levantá-lo muito. Ainda não havia afastado a hipótese de fratura de uma costela, pois o local doía quando levemente apertado, além de ser doloroso respirar fundo. Eu estava em dúvida sobre ir a um hospital naquele mesmo dia que era um Domingo ou na segunda-feira. Então para ajudar a decidir, pedi a um vizinho fisioterapeuta que fizesse uma avaliação do problema e desse sua opinião. Ele examinou-me e disse que não parecia haver fratura, podendo deixar a ida ao hospital para o dia seguinte. Era tudo que eu queria ouvir.

No hospital, após examinar as radiografias, o ortopedista confirmou que não havia nada quebrado e que algumas sessões de fisioterapia com aplicação de calor e ultra-som me colocariam em forma em pouco tempo. Iniciei o tratamento e a melhora foi muito lenta. Coisas simples como escovar os dentes ou pentear os cabelos eram impossíveis com a mão direita e a esquerda era preguiçosa em aprender. Virar de lado na cama exigia uma série de pequenos e estudados movimentos de cada parte do corpo para minimizar a dor. Mas aos poucos fui melhorando e 22 dias depois da queda voltei a fazer caminhadas na rua, no início sem mochila e alguns dias mais tarde com uma carga que fui aumentando progressivamente.

Para reduzir a possibilidade de sofrer outro acidente antes da viagem, resolvi suspender as caminhadas em montanha, limitando-me às ruas. No dia 15 de abril comprei a passagem com a ida marcada para 17 de maio e a volta para 2 de julho, ficando com tempo bastante para caminhar sem pressa e com uma boa margem para imprevistos. Com a passagem comprada, obtive a minha Credencial de Peregrino com o representante, no Rio de Janeiro, da Associação de Amigos do Caminho de Santiago. A aproximação do dia da viagem me dava uma sensação estranha. A concretização de um projeto acalentado por vários anos era uma novidade para mim, assim como também era novidade sair do país e ficar longe da família tanto tempo. Tudo isso me assustava um pouco.