Livro Completo
Finalmente indo


Rio de Janeiro - 17/05/1998 - Domingo.

Quando terminei de arrumar a mochila e a levantei para colocá-la nas costas, percebi que estava muito mais pesada do que eu previa. Sem dúvida estava carregando coisas demais. Mas não havia tempo para reavaliar a lista e fazer nova arrumação. Me deu raiva não ter arrumado a mochila com antecedência para fazer uma caminhada de teste, como havia pensado. Estava na hora de ir para o aeroporto e não queria me atrasar. Minha esposa, Lúcia, meus filhos, Paula e Gabriel e minha tia Stella levaram-me ao aeroporto e ficaram comigo até a chamada para o embarque. Às 17h15min despedi-me deles e entrei na sala de espera para o embarque. Creio que todos estavam com um nó na garganta. Eu, pelo menos, estava.

Entrei no avião às 17h55min. Fiquei na poltrona 18A. Acomodei minha bagagem de mão e fiquei aguardando a partida. Foi aí que realmente me dei conta de que estava indo para a Espanha percorrer o Caminho de Santiago de Compostela. Estava mesmo acontecendo. Não era um sonho. Não era um projeto. Era real. Eu estava dentro de um avião, prestes a decolar, rumo a Madri. Nos últimos quatro anos, inúmeras vezes, me vi trilhando aquele Caminho, atravessando campos e cidades, chegando cansado aos albergues, furando bolhas nos pés e, principalmente, chegando a Santiago de Compostela. Mas nunca tinha me visto no avião a caminho da Espanha.

Eram 18h26min quando o avião começou a dirigir-se à cabeceira da pista. A viagem começou de verdade. Logo iniciou a decolagem. Em poucos segundos estávamos voando. A viagem transcorreu sem incidentes, bastante monótona. Depois de algumas horas estava muito desconfortável ficar sentado sem poder esticar as pernas. Estava sentado no canto e para levantar precisava acordar os dois passageiros à minha direita. E eles dormiram quase o tempo todo. Meu lugar era na parte de não fumantes mas mesmo assim em alguns momentos chegava o fedor de cigarro. Era terrível ir ao banheiro, pois precisava atravessar toda a parte dos fumantes e isso era feito vagarosamente, porque muitos passageiros ficavam conversando em pé nos corredores e ainda precisava esperar que o banheiro desocupasse.

Madri - 18/05/1998 - Segunda-feira

O avião pousou no Aeroporto de Barajas às 08h37min ( hora da Espanha, 5 horas mais que no Rio). O aeroporto fica longe da cidade. A apresentação para o outro vôo era às 10h50min. Me pareceu melhor não sair do aeroporto. Senti uma vontade enorme de ligar para casa, mas como era muito cedo preferi esperar chegar em Pamplona. Localizei o portão da apresentação e fui andar pelo aeroporto. É imenso e muito bonito. Pensei em fazer um lanche mas me lembrei que ainda não tinha dinheiro espanhol e não queria cambiar ali. Então sentei em um banco voltado para as pistas e comi alguma coisa que tinha enquanto esperava a hora de embarcar. Era muito estranha a sensação de estar ali.

Às 11h30min saí de Madri, rumo a Pamplona, onde cheguei às 12h10min. O aeroporto fica longe do centro e da rodoviária onde eu deveria pegar um ônibus para chegar em Burguete. Peguei um taxi para ir à rodoviária. Quando soube para onde pretendia ir, o motorista disse que nas segundas-feiras não há ônibus para Burguete. Pediu confirmação pelo rádio e foi confirmado. Então, propôs levar-me até lá por 5.500 pesetas, na época equivalentes a cerca de 37 dólares. Como marquei um encontro naquela cidade, naquele dia, aceitei a proposta. Eu havia combinado com o Luiz Viana, um amigo e ex-colega de trabalho, que nos encontraríamos em Burguete. Ele saiu do Rio um dia antes de mim e me esperaria no Hotel San Loizu. Dali iríamos de taxi até Saint Jean Pied de Port para começarmos o Caminho juntos.

Chegando em Burguete, fui primeiro à única agência bancária local trocar cheques de viagem por pesetas para pagar o taxi. Era uma agência do Banco Central Hispano. Troquei 100 dólares e tive a desagradável surpresa de haver uma taxa de 1.000 pesetas para efetuar a operação. No Banco do Brasil, quando adquiri os cheques de viagem, não me disseram que havia taxa para trocá-los. Nesta operação os 100 dólares em cheques de viagem foram trocados por 13.947 pesetas.

Paguei o taxi que me deixou na porta do Hotel. Este não era um hotel rústico e barato como me disse o Lula, representante no Rio de Janeiro da Associação de Amigos do Caminho de Santiago. Na verdade era o melhor hotel do "pueblo", classificado com 3 estrelas. Pueblo é como os espanhóis chamam as cidades pequenas ou os vilarejos. Para completar as surpresas do dia, o Luiz não estava lá e nem tinha aparecido.
Dona Alicia, a proprietária do hotel, disse que geralmente os motoristas de taxi de Pamplona mentem sobre o ônibus para Burguete, visando levar o passageiro até lá. Segundo ela há ônibus todos os dias, exceto domingo. Por isso fiquei com esperança que o Luiz chegasse mais tarde no ônibus que eu teria pego. Mas o Luiz não veio. Então pedi à Dona Alicia que combinasse com o único taxista da área para me pegar no dia seguinte às 08h15min e levar-me a Saint Jean Pied de Port.

Burguete é basicamente uma rua, ao longo da qual, por uns 300 ou 400 metros, distribuem-se os prédios residenciais e comerciais. É por onde passa também o Caminho de Santiago, marcado por setas amarelas pintadas no chão e nas árvores. Nos dois lados da rua existem canaletas que escoam água gelada e cristalina vinda dos Pirineus. Após telefonar para casa e fazer minha primeira refeição em solo espanhol, fui andar pelo pueblo. Chamou-me a atenção o fato de não se ver quase ninguém na rua. Passavam caminhões e carros de passeio mas ninguém andando.

Uma coisa surpreendente para mim eram as placas de advertência ou identificação de alguns prédios escritas em espanhol e basco. Eu acreditava que o basco era um dialeto ou uma variação do espanhol. Mas são duas línguas totalmente diferentes. Por exemplo : ATENCIÓN / KONTUZ, TRAVESIA PELIGROSA / ZEHARBIDE ARRISKUTSUA, BOMBEROS / SUHILTZAILAK.

O dia estava lindo. Céu muito azul com poucas nuvens e sol forte compensando o vento frio que soprava sem parar. A tarde ia esticando e parecia não querer acabar. Às 21h o sol ainda brilhava no céu. Entrei no hotel para tomar banho e jantar. Após o jantar saí de novo e ainda não havia anoitecido. Eram 22h30min e resolvi fazer umas fotos aproveitando o finalzinho do dia.