Livro Completo
O CAMINHO

Burguete - 19/05/1998 - Terça-feira

Levantei-me às 7h e me vesti para sair. Estava frio. Vesti uma calça de moletom por baixo da calça de tactel. Vesti uma camiseta, uma camisa de manga comprida e o casaco de moletom. E ainda sentia frio. Na hora de pagar a conta, outra surpresa. O meu cartão de crédito não era aceito pela máquina do hotel. Teria que pagar em dinheiro e fazendo isso ficaria sem dinheiro suficiente para pagar o táxi. Então lembrei que tinha alguns dólares e os usei completando o que faltava com pesetas. Deixei no hotel uma bolsa com algumas coisas que não precisaria neste primeiro dia, pois passaria por ali no dia seguinte e poderia pegá-las.

O táxi chegou pontualmente às 8h15min. Eu já estava pronto para sair. Saí sem tomar café pois só seria servido a partir de 9h. Comi apenas uma geléia que foi servida no avião e eu tinha guardado. Minha atenção estava tão voltada para o início do Caminho já tão próximo, que não me preocupei e nem sequer pensei onde comeria no meu primeiro dia de peregrinação. Levava na mochila granola e banana passa. Seria o meu alimento até entrar novamente em território espanhol, pois eu não tinha dinheiro francês para compras na França.

O motorista era o Telechea, já conhecido pelos brasileiros que leram o livro do Maqui sobre o Caminho. Há muitos anos ele transporta peregrinos até o início do Caminho. E gosta muito de falar sobre isso. Aliás, deu para notar que ele gosta muito de falar sobre qualquer coisa. É uma pessoa muito bem humorada e apesar de estar muito resfriado, com freqüentes acessos de tosse, perguntou e falou sobre vários assuntos durante os quase 40 minutos de nossa viagem.

Logo que entrei no carro Telechea me perguntou de que lugar do Brasil eu era. Quando disse que era do Rio de Janeiro, ele olhou-me nos olhos e, misturando palavras com tosse, quase gritou: Rio de Janeiro??? Burugudum, burugudum, burugudum? E contou que tinha visto as Escolas de Samba na televisão, muitas mulheres nuas, uma beleza.

Nossa conversa fluía gostosamente por vários assuntos. Falamos sobre o idioma basco. Disse-lhe que fiquei surpreso ao descobrir que o basco não é uma variação do espanhol, mas sim uma língua totalmente diferente. Então ele me contou que em toda aquela região conhecida como País Basco, incluindo também uma parte da França, o idioma basco tem sido preservado porque as crianças até os 8 anos de idade só aprendem o basco, em casa e na escola. Só depois vão aprender o espanhol ou o francês, conforme o lado da fronteira em que vivam. Quando estão em grupos só de bascos, o idioma usado é sempre o basco. E me mostrava as placas escritas em espanhol e basco. Após entrarmos na França as placas estavam em francês e basco.

Chegamos a Saint Jean Pied de Port. É uma pequena cidade com ruas estreitas e calçamento de pedra. Desde os primórdios do Caminho de Santiago, é usada como ponto de partida por muitos peregrinos. Decidi começar meu caminho ali porque os dois relatos que li antes partiam dali e eu desejava muito conhecer Madame Debrill. Esta senhora já percorreu o Caminho 27 vezes e há 40 anos recebe peregrinos em sua casa para orientá-los no início do percurso e fornecer a credencial de peregrino a quem ainda não a tiver.

Eram quase 9h quando Telechea estacionou o carro, ajudou-me a tirar a mochila do porta-malas e caminhamos uns 30 metros até o prédio onde mora Madame Debrill. Seguimos por um corredor até uma porta onde ele parou e bateu. Ouvimos uma voz dizer alguma coisa lá dentro e Telechea respondeu em basco. A partir daí, durante um tempo que me pareceu longo, trocaram palavras, para mim incompreensíveis, através da porta fechada, num tom inexplicavelmente ríspido.

Finalmente a porta foi aberta e apareceu uma senhora de cabelos quase brancos, aparentando uns 70 anos, de rosto sério e olhar enérgico. Olhou-me por 1 segundo e voltando-se para Telechea, disse-lhe em espanhol algo terminando com as palavras "solamente después de las diez que ela repetiu acentuando cada sílaba. Só então entendi o motivo do bate-boca.

Telechea desculpou-se e, dirigindo-se a mim, desejou-me boa sorte, despedindo-se em seguida. Madame Debrill convidou-me a entrar. Em um instante seu rosto estava sereno e sua voz suave. Entrei numa pequena sala e olhei em torno. Chamavam a atenção duas mesas repletas de todo tipo de objetos. Creio que todos estavam relacionados com o Caminho. Haviam livros, vieiras, imagens de Santiago, pilhas de papéis, um grande mata-borrão e muitas outras coisas.

Ela mandou que sentasse e fez várias perguntas sobre mim, cujas respostas ia anotando. Ao carimbar minha credencial de peregrino, falou que conhecia o Danilo, presidente da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago no Brasil. Depois indicou-me o caminho para sair da cidade e recomendou várias vezes para seguir somente as setas amarelas. Senti vontade de pedir para fazer uma fotografia dela mas achei que ela não gostaria e desisti. Agradeci, me despedi e saí. Seguindo as instruções recebidas, segui pela rua até as antigas muralhas, saindo pela Porta de Espanha.

Bem, ali estava eu no ponto que considerava como o início do Caminho de Santiago. Muitas vezes, nestes últimos anos, me imaginei naquele local, dando o primeiro passo de minha peregrinação. Me via ajoelhando e fazendo uma oração, pedindo a Deus as provações que me fossem necessárias e a graça de concluir o Caminho se tivesse merecimento para tanto. Mas eu não conseguia. Um constrangimento enorme me impedia de ajoelhar e rezar.

Eram 9h12min quando cheguei ali. Fiz algumas fotos. Tirei o casaco e vesti o colete feito especialmente para usar no Caminho. Às 9h25min recomecei a andar. Fiz as minhas orações enquanto andava. Em menos de 10 minutos estava sentindo muito calor. Parei para tirar a camisa de manga comprida. Meia hora depois, já afastado dos limites da cidade, tirei as calças e vesti uma bermuda. O Caminho seguia por uma estrada sinuosa e estreita, impecavelmente asfaltada, numa subida forte e contínua. Mais meia hora andando e tive que parar para descansar alguns minutos.

Quase ao meio dia, continuando a subida, de repente vi uma figura estranhíssima vindo em minha direção, subindo pela encosta do morro, cortando a curva da estrada. Quando ficou mais próximo, percebi que tratava-se de um homem curvado sob uma imensa mochila. Ele subia uns 10 metros e parava um pouco. Mais alguns metros e nova parada. Pouco a pouco foi se aproximando e parei para esperá-lo. Quando finalmente chegou junto a mim, vi que carregava várias coisas fora da mochila que era bem grande.

Também era brasileiro, de São Paulo. Chamava-se Paulo Roberto e estava há 3 anos vivendo na Europa, tendo já feito uma vez o Caminho de Santiago a pé. Contou que estava na Alemanha, pretendendo fazer o Caminho de bicicleta, quando roubaram-lhe a bicicleta e várias outras coisas que estavam presas nela. Por isso estava carregando tantas coisas. Era tudo que ele tinha. Após chegar em Santiago, ele pretendia ir para Barcelona, onde iria morar.

Ele havia saído do albergue de Saint Jean Pied de Port às 7h30min junto com outros peregrinos, mas como ele ia muito devagar ficou para trás. Ele tinha uns 26 ou 27 anos, cerca de 1,75 m de altura e uns 90 kg, dos quais uma boa parte na linha da cintura. Apesar da juventude, este excesso de peso corporal e o peso imenso da mochila faziam com que seus passos fossem lentos e exigiam muitas paradas.

Senti-me diante de um dilema. Eu poderia andar mais rápido e parar menos, seguindo sozinho até Roncesvalles. Mas será que ele conseguiria se arrastar até lá ? E se a situação se complicasse e ele precisasse de ajuda? E se eu precisasse de ajuda? Até aquele momento estava muito bem. Mas era meu primeiro dia de peregrinação e ainda não sabia como meu corpo reagiria depois de 6 horas carregando uma mochila pesada. Mas o fator decisivo que me fez optar por não abandonar meu novo amigo foi o fato de ser ele o companheiro que o Caminho me oferecia. Certamente não era por acaso que naquele lugar tão distante, numa estrada deserta, a única pessoa que encontrei fosse ele, exatamente um brasileiro, com experiência de já ter feito uma vez o Caminho de Santiago.

Seguimos juntos por algumas horas. Em cada vez que parávamos, arriávamos a mochila para descansar e na hora de colocá-la novamente nas costas era preciso fazer um esforço considerável para isso. Sempre que possível, arriávamos a mochila sobre uma pedra ou elevação do terreno para que depois não tivéssemos que ergue-la do chão. Depois de algum tempo esta operação de descer e levantar a mochila tornou-se bastante desconfortável. Então passei a fazer o seguinte: como não precisava parar tantas vezes quanto ele, eu me adiantava até sentir necessidade de parar. Então parava e ficava esperando que ele chegasse. Com isso não precisaria arriar e levantar a mochila tantas vezes.

Às duas e meia da tarde chegamos à imagem da Virgem de Roncesvalles, ainda em território francês. Paramos para descansar junto a uma construção de alvenaria que formava um C com linhas retas, com uns 3 metros de lado e 1 metro e meio de altura. Já tínhamos visto outras construções como aquela e concluímos que deveria servir como proteção contra o vento para caçadores. Depois de comer alguma coisa e tirar fotografia da imagem, seguimos o caminho.

Depois de andar cerca de uma hora e meia, cheguei ao ponto em que o Caminho se afasta da estrada pela direita. Neste ponto há uma cruz. A vista ali é muito bonita e fiquei deitado na relva esperando pelo Paulo. Algumas nuvens escuras se aproximavam e comecei a ouvir trovões distantes. Desta vez Paulo demorou muito para chegar. Quando ele chegou, o céu já estava totalmente encoberto e a chuva era iminente. Depois de alguns minutos nos colocamos em marcha, devidamente preparados para a chuva, vestindo nossos anorakes e com as mochilas cobertas com suas capas.

Felizmente não veio a chuva forte que esperávamos. Uma chuva fina e intermitente nos acompanhou o resto do percurso até Roncesvalles. Segui durante cerca de meia hora por uma trilha subindo um morro e depois descendo até cruzar a fronteira. Ali parei para esperar o Paulo que chegou logo depois e seguimos. Às 18h parei para vestir uma camisa comprida por baixo do anorak. A chuva parou mas a temperatura caiu muito. Eu precisava comer e descansar um pouco, pois estava faminto e com dor na nuca e nos ombros. Pouco depois Paulo chegou e recomeçamos a andar.

A trilha subia até chegar a uma estrada asfaltada. Imediatamente as setas indicavam dobrar à direita e sair da estrada por uma trilha que descia. Paulo estava uns cem metros atrás. Desci por uma trilha entre árvores por uns 20 minutos. Quando a descida ficou suave, parei para espera-lo. Eram 19h10min. Paulo chegou com um peregrino francês chamado Linela que disse ter saído de San Jean Pied de Port às 14h. Ele era bem jovem e carregava pouco peso. Saímos juntos mas depois de pouco tempo ele nos deixou.

Às 20h30min, de repente, surgiu diante de nós a Colegiata de Roncesvalles. Graças a Deus. Estávamos nos fundos de uma construção muito antiga. Contornando uma grande parede acessamos um pátio onde um padre nos indicou a entrada do albergue. Enquanto falávamos com o padre desceu a chuva pesada esperada desde o meio da tarde. Subimos uma escada e chegamos ao albergue. Fomos atendidos pela hospedeira que carimbou nossas credenciais e nos mostrou o dormitório e o banheiro. Disse-nos também que às 22h as luzes seriam apagadas e todos deveriam estar deitados. Nós estávamos sujos, suados, com a roupa usada durante todo o dia e famintos. Havia um restaurante próximo do albergue mas o tempo não era suficiente para tomar banho e sair para jantar. Optamos pela comida.

Quase todas as camas já estavam ocupadas. Algumas já tinham peregrinos dormindo, outras apenas mochilas e sacos de dormir. Colocamos nossas mochilas sobre duas camas vazias e saímos para jantar. A chuva estava mais fraca. Comi truta e salada de alface com tomate e cebola, e bebi vinho tinto. Estes foram os ingredientes da maioria das minhas refeições em todo o Caminho. Eram 22h quando saímos do restaurante e encontramos o albergue totalmente apagado. Subimos as escadas externas fracamente iluminadas pela luz da rua, mas ao passar pela porta do albergue, nos encontramos diante de total escuridão. Fomos tateando as paredes tentando achar o caminho para o dormitório. Antes de chegar lá, Paulo encontrou um interruptor e acendeu uma luz que nos permitiu localizar as nossas camas.

Junto à minha cama, que era a de cima num beliche, eu não via absolutamente nada e precisava tirar da mochila o saco de dormir que estava no fundo, embaixo de tudo e depois colocar tudo de novo na mochila para poder deitar na cama. O peregrino que estava na cama de baixo percebeu a minha dificuldade e ofereceu-me uma lanterna minúscula que permitiu-me encontrar a minha lanterna. Eu tentava fazer o mínimo de barulho possível, mas o saco de dormir estava dentro de um grande saco plástico que fazia um barulho terrível ao ser mexido. Finalmente coloquei de volta na mochila tudo que havia tirado, exceto o saco de dormir e a lanterna e deitei, adormecendo em pouco tempo.