Livro Completo
Estella - 25/05/1998 - Segunda-feira

Dormi mal, acordei muitas vezes e levantei por volta de 6h. Demorei muito arrumando a mochila e comendo. Quando estava no refeitório, vi uma moça que me pareceu ser aquela dos pés feridos. Aproximei-me e perguntei: "How are your feet?" Ela olhou-me e respondeu: "Very well." Neste momento percebi que não era a mesma que vi na ponte. Então quis lhe dizer que a havia confundido com outra pessoa, mas não conseguia encontrar as palavras para me fazer entender. Então ela disse que estava com um amigo que falava espanhol e o apontou. Aí me dirigi a ele e lhe pedi para explicar a ela a minha confusão, o que ele fez com meia dúzia de palavras. Depois voltei a vê-la mais duas vezes no Caminho e a frase "how are your feet?" tornou-se o nosso cumprimento.

Quando saí, quase todos os conhecidos já tinham saído. Apenas um casal de alemães que eu conhecia ainda estava comendo. Voltamos a nos encontrar em Irache, na Fonte de Vinho, onde fizemos algumas fotos. Esta fonte, que fica junto a uma adega, oferece, gratuita e generosamente, excelente vinho e água a quem por ali passa, geralmente peregrinos. Junto a fonte há uma grande placa onde se lê:

PEREGRINO
Si quieres llegar a Santiago
con fuerza y vitalidad
de este gran vino echa un trago
y brinda por la Felicidad
FUENTE DE IRACHE
FUENTE DEL VINO

Quando chegamos à fonte lá encontramos um espanhol de uns 50 anos, cuja voz demonstrava que já devia estar ali deliciando-se há algum tempo. Eram 8h30min de uma manhã fria e o vinho descia de forma muito agradável. Não fora os quase 20 quilômetros para caminhar até Los Arcos, seria ótimo ficar ali bebendo e ouvindo as histórias do espanhol que dizia ter trabalhado em vários países da Europa.

Saí dali junto com os alemães e fomos juntos até o Monastério de Irache, onde parei para fazer uma foto e eles seguiram. Daí para a frente segui sozinho. O Caminho cruzava imensos campos de trigo que o vento balançava suavemente. Durante horas não vi ninguém. Comecei a sentir saudades de casa. Era o dia de aniversário de minha filha Paula. Completava 21 anos e eu sentia uma vontade imensa de abraçá-la. Vinham-me à mente imagens de sua infância, o nascimento, os primeiros passos, as reações ao nascimento do irmão Gabriel. Tudo parecia tão recente! E as lágrimas desceram. Foram as primeiras das muitas que eu deixaria no Caminho antes de chegar a Santiago.

Cheguei ao albergue de Los Arcos às 13h. Coloquei minha mochila na cama e fui telefonar para casa. Não deu para evitar o choro enquanto falava com a Paula. Me doía muito estar longe naquele dia. Mas na verdade, não era só por ser o aniversário da Paula. Eu estava sentindo muita saudade de todos em casa. E isso começava a me assustar. Estava fora de casa há apenas uma semana e a previsão era de ficar mais de 30 dias. Faltava tanto ainda e já estava emocionalmente batendo pino.

Voltei ao albergue, tomei banho e saí para almoçar com outros peregrinos. Depois resolvi deitar para descansar um pouco. Fiquei pensando em como me sentia naquele momento. Pela primeira vez via de forma real uma ameaça à conclusão do Caminho. Até aquele dia só me preocupavam as dificuldades físicas. Meu medo maior era a coluna não agüentar tantos dias seguidos carregando o peso da mochila. Lembrava-me sempre da vértebra desalinhada na coluna lombar e a recomendação médica de não comprimir aquela região. Era exatamente o oposto do que eu estava fazendo, mas a medida que os dias passavam, ia me sentindo mais confiante com relação ao corpo e achando que se não fizesse nenhuma extravagância, não teria problemas.

Não havia pensado ainda em problemas emocionais. E de repente me lembrei de uma conversa com Lúcia, minha esposa, sobre o meu preparo para a peregrinação, alguns dias antes da viagem. Eu lhe garanti que estava apto para enfrentar as dificuldades e ela me perguntou se estava também preparado para desistir. Respondi que sim. E estava sendo sincero. Mas depois das emoções daquela manhã, diante de uma situação nova e imprevista que era realmente um obstáculo que cresceria a cada dia, sentia que não estava preparado para desistir.

Para mim, voltar para casa sem ter conseguido atingir o objetivo, por desistência, seria uma derrota muito amarga. Ainda mais sabendo que dificilmente poderia criar condições para uma segunda chance. Eu estava preparado para não concluir o Caminho por motivos fora do meu âmbito de ação, como uma perna quebrada ou alguma coisa que não me desse opção de continuar, mas não para desistir.

Neste albergue, encontrei o cajado que me acompanharia até Santiago. No primeiro dia de caminhada, ao atravessar um trecho com lama na floresta, usei um galho com cerca de 1,20 metros de comprimento, um pouco curvo, que encontrei no momento em que precisei. Foi muito útil até o fim do dia, quando cheguei a Roncesvalles, onde o deixei ao sair da floresta.

No dia seguinte, novamente num momento de necessidade, encontrei um galho um pouco maior que o primeiro, porem ainda mais curvo. Este eu conservei até chegar a Los Arcos mas ainda não era o cajado que esperava encontrar. Ali no albergue, encostadas a uma parede, estavam diversas varas de vários tamanhos. Perguntei ao hospedeiro se podia pegar uma delas e ele disse que estavam ali para serem pegas por quem precisasse. Então escolhi uma reta, com cerca de dois metros de comprimento. Era maior do que o tamanho desejado, mas eu a cortaria logo depois.

Às 20h fomos assistir a missa dos peregrinos na igreja perto do albergue. Quase todos os presentes eram peregrinos. O padre era jovem, tinha ótima dicção e sua voz era suave e pausada. A missa foi rezada em espanhol e pude entender cada palavra. Pedi a Deus força e humildade e que concluir ou não o Caminho fosse pela vontade Dele e não pela minha. Comunguei pela primeira vez em muitos anos e retornei ao albergue sentindo-me bem melhor.