Livro Completo
Zubiri a Villalva - 21-05-1998 - Quinta-feira

Eu e Paulo Roberto saímos por volta de 8h. Paramos em Larrasoaña para tomar café e carimbar a credencial na prefeitura. Fomos atendidos pelo prefeito Santiago Zubiri, que era também o responsável pelo albergue. Eu ainda não tinha a vieira, a concha que identifica os peregrinos. Ali adquiri uma que o prefeito autografou. Paulo foi na frente. Ele estava andando mais rápido, embora sua mochila ainda estivesse bem pesada. Eu estava sentindo dores nos ombros, na nuca e nos pés. Encontrei-o em Zuriáin, onde parou para me esperar, mas já estava de saída quando cheguei. Parei para descansar e comer. Quando voltei a andar resolvi ir pela estrada, pois parecia ser o caminho mais curto e já estava cansado de andar na lama. Cheguei junto com Paulo no ponto onde o caminho das setas cruza a estrada. Daí fomos juntos com duas moças alemãs até Villava. Faltavam 6 km para Pamplona, onde pretendíamos chegar. Mas eu estava cansado demais e resolvi procurar o albergue local para pernoitar. Paulo e as moças seguiram para Pamplona. O albergue estava em obras mas encontrei uma pousada por preço razoável. Era anexa ao Bar-Restaurante Obelix. Passava pouco das 16h quando cheguei. Tomei um ótimo banho e saí para comprar umas frutas e telefonar para casa. Villava é uma cidade com bastante comércio e com muitas pessoas pelas ruas, fato que me chamou a atenção pois vinha notando a falta de pessoas nos lugares por onde passara. À noite jantei bem e fechei a conta da pousada pois no dia seguinte sairia antes da hora de abrir. O proprietário mostrou-me qual porta deveria usar para sair e como abri-la. Depois fui para o quarto, atualizei o diário e deitei-me pouco depois das 11h.

Villava - 22-05-1998 - Sexta-feira

Levantei-me às 7h, comi alguma coisa, arrumei a mochila e saí pouco antes das 8h. O caminho atravessava Villava, Burlada e chegava em Pamplona sempre por ruas bem movimentadas. Ao chegar em Pamplona o Caminho passava pela Ponte da Madalena. É uma linda ponte sobre o rio Arga, já vista num programa de televisão, com seus arcos refletidos na água do rio. Desde que a vi, aquela imagem ficou retida em minha memória e decidi fotografá-la quando por ali passasse. Sempre gostei de pontes mas só a pouco tempo percebi o fascínio que exercem sobre mim. Não as vejo apenas como união entre as margens de um rio ou meio de cruzar uma estrada. Passamos a vida atravessando pontes, concretas ou metafóricas, e nem sempre percebemos. Elas são passagens para o outro lado, entendido como o que vem depois, conhecido ou não, no espaço, no tempo ou na evolução.

Não é permitido o trânsito de carros na Ponte da Madalena, havendo para estes uma outra ponte mais moderna a cerca de 50 metros. Foi nesta ponte que encontrei o ângulo adequado para fazer a foto desejada. Feita a foto, retornei ao Caminho para entrar na cidade. Após cruzar a Ponte da Madalena não encontrei setas indicando por onde seguir. Estava numa área arborizada com bastante tráfego de pedestres e 2 ou 3 opções de caminho. Escolhi o que parecia ir na direção das muralhas que envolvem o centro da cidade. Depois de andar uns 10 minutos percebi que escolhi mal, pois encontrava-me numa via com intenso tráfego de veículos, afastando-se do centro.

Parei, arriei a mochila e dei uma olhada no guia procurando alguma referência para orientação. O guia dizia que era preciso contornar as muralhas e eu já estava bem afastado delas. Para não ter que voltar muito perguntei a algumas pessoas como chegar ao centro da cidade e seguindo as indicações recebidas cheguei à uma ponte levadiça que dava acesso ao interior das muralhas. Após uma foto da ponte, segui em busca do albergue para carimbar a credencial. A sinalização estava muito precária e passei por ele sem perceber. Andei até chegar numa grande praça onde sentei e consultei o guia.

Voltei um pouco e cheguei ao albergue. Estava fechado. Toquei o interfone. Alguém atendeu e disse que estaria fechado para limpeza até um horário que não entendi. Falei que só queria carimbar a credencial. Um rapaz desceu com o carimbo, pediu-me a credencial através da grade da porta e a carimbou. Agradeci e voltei à praça onde havia parado antes, procurei um banco num ponto de onde pudesse ter uma vista bastante ampla e preparei dois sanduíches de requeijão.

Comi enquanto pegava um pouco de sol e apreciava as fachadas dos prédios próximos, as pessoas passando, crianças brincando. Pamplona é uma cidade linda, com muitos pontos turísticos, testemunhos de sua rica história. É também uma das maiores cidades do Caminho de Santiago, o que acarreta grande número de pessoas andando rápido em suas calçadas estreitas. Pena que não dá para fazer turismo com uma mochila pesada nas costas. Às 10h40min saí rumo a Cizur Menor, a poucos quilômetros dali, onde pretendia pernoitar em um magnífico albergue particular, citado no guia e recomendado pelo livro do Maqui.

Ao chegar em Cizur Menor fiquei sabendo que o albergue não funcionava mais. Almocei no restaurante elogiado pelo Maqui em seu livro e segui em frente. Na saída do pueblo não encontrei as setas e após andar um bom pedaço concluí que estava no caminho errado pois estava entrando na "carretera" N-111. Consultando o guia, achei que a melhor solução seria seguir pela estrada até Uterga, onde poderia voltar ao caminho sinalizado.

Para dividir melhor o peso que estava concentrado nas costas, passei o cantil para a cintura e tirei a bolsa de nylon da mochila, passando a levá-la na mão com as coisas de uso mais freqüente. Em Uterga carimbei a credencial e fiquei sabendo que lá havia albergue mas não comida. Não havia nem um bar. Eu precisava ir mais adiante, pois já estava com fome e não tinha comigo mais que algumas fatias de pão e um pouco de granola. Segui até Muruzábal, 1 quilômetro adiante, onde existia um bar mas só consegui tomar um refresco de maçã. Avançando mais uns 3 quilômetros, cheguei em Obanos, onde encontrei café com leite mas sem pão. Comi as minhas últimas fatias.

Felizmente Puente la Reina já estava perto, a 3 quilômetros dali. Pouco antes de entrar na cidade há um monumento ao Peregrino, no ponto em que se encontram os caminhos francês e aragonês. Parei para fazer uma foto e de repente ouvi alguém perguntando em voz alta: -Você é brasileiro? Olhei para quem perguntava e vi que era um homem de uns 60 anos, sorridente e, pelo jeito, certamente brasileiro. Respondi e começamos a conversar.

Ele disse que chamava-se José Maria, era de Belo Horizonte e estava no Caminho de Santiago pela segunda vez. Reconheceu-me como brasileiro por causa do cantil, pois já havia encontrado outros brasileiros com cantil igual ao meu. Ofereceu-se para fazer uma foto minha junto ao monumento e foi assim que tive a minha primeira foto no Caminho. Depois indicou-me onde ficava o albergue e para lá me dirigi. Ele estava hospedado num hotel. Chegando no albergue encontrei os conhecidos (os brasileiros e o francês Linela) acabando de jantar uma refeição comunitária. Era uma macarronada feita num grande tacho e estava sobrando uma boa quantidade. Convidaram-me para comer e aceitei com muito prazer. Comi bastante e ainda sobrou para outros peregrinos que chegaram depois.

Após comer, saí para comprar alguma coisa para o desjejum do dia seguinte mas os mercados já estavam fechados. Então fui conhecer a famosa Ponte dos Peregrinos, sobre o rio Arga, onde passaria no dia seguinte, ao seguir o Caminho. Com mais de 900 anos de idade, é uma das mais importantes pontes do Caminho. Foi construída por ordem de uma rainha e acabou dando nome à cidade. Fiz algumas fotos e retornei ao albergue. Deitei-me às 10h30min.