Livro Completo
Puente la Reina - 23/05/1998 - Sábado

Levantei-me às 6h30min, arrumei a mochila e desci para o refeitório. Só tinha granola para comer. Quando desci os outros brasileiros estavam saindo. Sentei à mesa e comi um pouco de granola enquanto estudava o guia e planejava o que faria. Pouco antes das 8h saí. Depois de algum tempo alcancei dois franceses já conhecidos e o Zé Maria. Caminhei conversando com Zé Maria por um tempo.

Depois de uma subida cansativa o caminho cruzava a estrada e prometia continuar subindo. Zé Maria preferiu ir pela estrada, pois seria mais fácil. Como eu precisava passar onde pudesse comer, tinha que seguir o Caminho pois este passava dentro de dois pueblos, Mañeru e Cirauqui. Os franceses, a princípio, iam com Zé Maria mas depois resolveram ir comer também.

Passamos por Mañeru e não havia um único lugar visível onde pudéssemos comer e não vimos ninguém a quem pudéssemos perguntar. Pouco antes de entrar em Cirauqui parei para fazer uma foto e os franceses se adiantaram uns cem metros. Quando cheguei ao pueblo havia um homem saindo de casa. Perguntei-lhe onde havia um mercado e ele me indicou um lugar próximo. Não pude avisar os franceses que já haviam desaparecido.

O estabelecimento indicado vendia pão, frutas, laticínios, carne fresca, conservas, material de limpeza, etc, tudo isto numa loja com uns 3 metros de frente por 10 ou 12 de fundos. Fiz uma ótima refeição com morangos -os mais deliciosos que encontrei em todo o Caminho-, pêssegos e iogurte natural com granola.

Segui caminho com muito mais disposição. Pouco depois peguei a estrada mas não fui até onde havia planejado. Num ponto depois de Lorca senti vontade de voltar ao caminho das setas amarelas e voltei, seguindo-o até Villatuerta. Parei numa fonte ao lado da prefeitura, bebi água e comi um pedaço de pão comprado em Cirauqui. Pouco depois, ia passando por uma igreja muito bonita e cheguei a pensar em parar, tirar uma foto e carimbar a credencial. Mas como estava ansioso por chegar a Estella, não ia parar. Então um senhor de uns 70 anos me chamou e disse que a igreja estava com a porta fechada por causa do vento, mas havia quem atendesse os peregrinos.

Acompanhei-o até um banco junto à porta onde ele me disse que esperasse enquanto levava a credencial para carimbar. Enquanto o esperava fiz duas fotos. Ele logo retornou. Guardei a credencial e já ia sair quando vi que os dois franceses estavam passando sem ouvir o velho chamando. Então gritei : Olá! Eles olharam, me viram e voltaram. Tinham no rosto uma expressão de enorme cansaço. Eles tinham cerca de 60 anos e não pareciam estar acostumados com este tipo de esforço. Sentaram-se e entregaram as credenciais para carimbar. Eu queria contar a eles que tinha encontrado um bom lugar para comer em Cirauqui, mas não fui capaz de encontrar um meio, já que só entendiam francês.

Enquanto suas credenciais eram carimbadas chegaram as 4 brasileiras que saíram de manhã junto com Paulo: Mércia, Conceição, Sandra e Vera. Fiquei muito surpreso, pois pensava que elas já estivessem em Estella. Os franceses receberam suas credenciais e saíram. Fiquei conversando com as quatro peregrinas enquanto esperávamos suas credenciais serem carimbadas. Elas disseram que Paulo ficara para traz por causa de bolhas nos pés. Seguimos juntos até o albergue de Estella, onde chegamos às 15h30min.

O albergue é ótimo e pode-se ficar mais de uma noite. Veio a calhar por que eu já tinha programado descansar aos domingos e o dia seguinte seria domingo. Ao chegar tivemos a surpresa de lá encontrar o Paulo. Ele veio pela estrada e chegou antes de nós. Após tomar um banho, saí sozinho para dar uma volta pela cidade e comprar algumas coisas. Estella é uma linda cidade com todo seu conjunto arquitetônico denunciando suas origens em épocas medievais. O comércio estava todo fechado pois era hora da sesta, e as ruas praticamente desertas.

Passando em frente a uma loja de comestíveis, vi na vitrine latas de sardinha. Senti um desejo fortíssimo de comer pão com sardinha. Decidi que voltaria depois para comprar pão e sardinha. Retornei ao albergue para lavar roupa. O albergue tinha uma máquina de vender latas de cerveja e refrigerante. Enquanto esperava minha vez de usar o tanque, tomei uma cerveja. Foi a primeira que tomei na Espanha. Como desceu redondinha! Depois de estender a roupa para secar, saí para comprar o que precisava.

Não encontrei a loja onde tinha visto a sardinha na vitrine e comprei em outra. Retornei ao albergue e comi junto com outros peregrinos no refeitório. Depois ficamos batendo papo até a hora de sair para jantar. Saímos num grande grupo e demos uma volta pela cidade para escolher um lugar para jantar. Quase todos os restaurantes só começam a servir após as 21h e o albergue fecha às 22h. Finalmente encontramos um local perto do albergue que nos agradou.

Sentamos todos juntos e comemos num bate-papo muito animado. Éramos todos brasileiros e havia um rapaz de Santa Catarina, chamado Clóvis que só neste jantar fiquei sabendo que foi ele que me ajudou em Roncesvalles, emprestando-me a lanterna quando eu tentava tirar minhas coisas da mochila no dormitório em total escuridão. Saímos do restaurante em cima da hora de fechar o albergue.