Livro Completo
Estella - 24/05/1998 - Primeiro dia - Domingo

Durante a noite acordei com um assobio e logo depois palmas. Pensei que já era hora de levantar mas era só alguém sonhando. Aconteceu mais 3 vezes. Um assobio curto seguido de 2 ou 3 batidas de palmas. Eu estava na parte de cima de um dos beliches. Sentei na cama e tentei saber quem era o sonhador barulhento mas não consegui. Adormeci novamente. Às 6h já havia movimento de pessoas arrumando mochilas. Fui ficando na minha cama. Já havia dito que ficaria um dia descansando. Preferi não me despedir de ninguém, pois sentia que o Caminho nos reuniria outra vez.

Ouvi a Sandra e a Conceição despedindo-se, uma delas falando: "Não chore não". Levantei um pouco a cabeça e vi que a Conceição continuava deitada. Compreendi que eu não era o único a precisar de um descanso. Logo que os outros peregrinos saíram, eu e Conceição tivemos que arrumar nossas coisas e sair do albergue às 8h e só retornar depois das 12h, pois neste intervalo seria feita a limpeza.

Saímos procurando uma farmácia, mas o comércio ainda estava todo fechado. Embora fosse domingo, o hospedeiro nos disse que encontraríamos alguma farmácia aberta. Conceição precisava de um remédio para dores e eu de algo para os lábios que estavam ressecados e rachados. Fomos andando em direção à principal praça da cidade, a Plaza de los Fueros, onde haviam muitas lojas e bares. Notamos um movimento anormal na praça. Um grande palanque estava sendo montado. Disseram-nos que haveria uma festa comemorando o dia da padroeira da cidade.

Quando as lojas começaram a abrir, perguntamos a um guarda onde encontraríamos uma farmácia. Ele consultou um papel colado na porta de uma farmácia fechada e nos indicou como chegar à que estaria de plantão. Ficava perto dali numa praça que estava em obras. Chegando ao local indicado encontramos uma porta fechada e não havia nenhuma placa ou indício de que era realmente ali a farmácia. Voltamos à Plaza de los Fueros e encontramos de novo o guarda ao qual dissemos não ter encontrado a farmácia. Então ele foi até lá conosco. Desta vez a porta externa estava aberta, deixando à vista uma porta de vidro dando acesso ao interior. Agradecemos e entramos.

O ambiente era um primor de austeridade e organização. O farmacêutico, usando gravata e um longo jaleco branco, nos atendeu com muita gentileza. Para o meu caso não teve dúvida, recomendando um produto em forma de batom. Para as dores da Conceição, ele fez várias perguntas e leu várias bulas até optar pelo remédio mais adequado. Saindo dali, retornamos à Plaza de los Fueros e fomos tomar café numa grande confeitaria.

Pouco a pouco a praça foi enchendo de gente. Em várias mesas muito compridas, mulheres de todas as idades faziam e expunham lindos trabalhos de renda de bilro. No palanque, grupos de dança apresentavam-se sucessivamente. Fiz algumas fotos da festa e fomos almoçar. Ainda era cedo e custamos um pouco a encontrar onde comer. Finalmente chegamos a um restaurante que já estava servindo refeições. Havia um salão ao nível da rua com muita gente e muita fumaça de cigarro. Felizmente havia também um pequeno refeitório no segundo andar que ainda estava tranqüilo e sem fumaça. Almoçamos e voltamos ao albergue.

Conceição ficou descansando mas eu saí para andar um pouco pela cidade e fazer mais algumas fotos. Na Ponte dos Peregrinos (em muitas cidades do Caminho existe uma Ponte dos Peregrinos), próxima ao albergue, havia uma jovem sentada pegando sol. Seus pés estavam com as solas em carne viva. Doía só de ver. Então lembrei que alguém havia falado que na véspera, à noite, apareceu no albergue um senhor idoso oferecendo-se para cuidar dos pés de quem precisasse. Ele ia lá todas as noites e seus cuidados apresentavam ótimos resultados da noite para o dia. Achei bom falar-lhe sobre isso e aproximei-me. Não lembro qual era sua nacionalidade, mas ela falava inglês. Com muito custo, consegui lhe passar a informação.

Pouco depois voltei ao albergue para descansar, pois era este o motivo da permanência em Estella naquele dia. Nesta tarde, entre outros, chegaram os brasileiros Lila e Alexandre, o espanhol Ramón e uma senhora francesa de cabelos quase totalmente brancos. Lila é carioca, com cerca de 25 anos. Alexandre é de Piracicaba - SP e devia ter uns 27 anos. Ramón é galego, 72 anos, baixo, de rosto redondo e sorridente, riso solto, olhar arisco e movimentos rápidos. Parecia um garoto. A senhora francesa aparentava uns 70 anos, de rosto sereno mas sério, econômica em palavras, mesmo com os outros franceses.

Passei o resto da tarde descansando no albergue, conversando ou simplesmente, gostosamente, sem fazer nada. Pelas paredes do albergue haviam muitos papéis colados contendo poemas, orações, frases animadoras para os peregrinos e diversas coisas referentes ao Caminho. Chamou-me a atenção um texto em espanhol, pela sua beleza, simplicidade e profundidade. Era uma verdadeira receita para viver bem. Tive vontade de copiá-lo mas estava num dia de preguiça. Sugeri à Conceição ler aquele texto e ela gostou tanto que resolveu copiá-lo. E é graças a ela que posso incluí-lo neste relato, apresentando-o na próxima página.

À noite saí para jantar com os novos amigos. Conceição não quis sair pois seus pés ainda doíam muito e ela queria esperar a vinda do homem que cuidava dos pés dos peregrinos. No dia seguinte ela contou que o homem veio e examinou seus pés. Ele preparou um ungüento com folhas amassadas, passou na região dolorida e a envolveu com bandagens. Disse-lhe também que ela precisaria tomar algum remédio e aprovou o que ela já estava tomando.

DESIDERATA

DESIDERATA

Ve placidamente entre el ruido y la prisa.
Recuerda que la paz puede estar en el silencio.
Sin renunciar a ti mismo, esfuérzate por ser amigo de todos.
Di tu verdad, quietamente, claramente.
Escucha a los otros, aunque sean torpes e ignorantes; cada uno de ellos tiene
también una vida que contar.
Evita a los ruidosos y agresivos, porque ellos denigran el espíritu.
Si te comparas con los otros puedes convertirte en un hombre vano y amargo.
Siempre habrá cerca de ti alguien mejor o peor que tú.
Alégrate tanto de tus relaciones como de tus proyectos.
Ama tu trabajo, aunque sea humilde, es el tesoro de tu vida.
Sé prudente; en el mundo abundan las gentes sin escrúpulos.
Pero que esta convicción no te impida reconocer la virtud;
hay muchas personas que luchan por hermosos ideales, y, donde quiera, la vida está llena de heroismo. Sé tu mismo.
Sobre todo no pretendas disimular tus inclinaciones. No seas cínico en el amor, porque cuando aparece
la aridez y el desencanto en el rostro, se convierte en algo tan perene como la hierpa. Acepta con serenidad el consejo de los años y renuncia sin reservas a los dones de la juventud. Fortalece tu espíritu, para que no te destruyan inesperadas desgracias.
Pero no te crees falsos infortunios.
Muchas veces el miedo es producto de la fatiga y la soledad.
Sin olvidar una justa disciplina, sé benígno contigo mismo, no eres mas que una criatura en el universo, no menos que las árboles y las estrellas.
Tienes derecho a estar aquí. Y, si no tienes ninguna duda, el mundo se deplegará ante ti. Vive en paz con Dios, no importa como lo imagines.
Sin olvidar tus trabajos y aspiraciones, manténte en paz con tu alma, pese a la ruidosa confusión de la vida.
Pese a las falsedades, penosas luchas y sueños arruinada, la tierra sigue siendo hermosa. Sé cuidadoso.
Lucha por ser fefiz.