Livro Completo
Los Arcos a Belorado - 26/05/1998 - Terça-feira

Saímos cedo do albergue, Ramón, como sempre, foi na frente. Eu e os outros brasileiros fomos saindo com pequenos intervalos separando cada um dos outros. Alcancei Alexandre e Lila já fora da cidade. Estavam rezando o terço e juntei-me a eles. Pouco depois de terminar o terço voltamos a nos separar. Chegando a Viana, encontrei o Ramón e fomos juntos procurar onde poderíamos carimbar as credenciais. Informaram-nos que seria na prefeitura e para lá nos dirigimos.

Notamos um movimento anormal na cidade. Havia até uma equipe de televisão que nos filmou enquanto passávamos. Ficamos sabendo que aquela agitação toda era por causa da visita do príncipe real Felipe que aconteceria naquele dia.. Depois de carimbar a credencial, ficamos na praça em frente à prefeitura, indicando aos peregrinos que iam chegando onde deveriam ir. Aos poucos formou-se um pequeno grupo que pretendia almoçar antes de prosseguir mas como ainda era cedo, ficamos conversando para fazer hora. Enquanto conversávamos, peguei a faca e cortei a ponta mais fina do cajado para deixá-lo com o comprimento adequado para mim, um pouco mais alto que meu ombro.

Depois do almoço, seguimos para Logroño que é uma cidade de tamanho bem maior que a média do Caminho, com muitos pontos interessantes para serem vistos. Mas meus pés estavam muito doloridos e só concordaram em me levar até o supermercado para comprar algo para o jantar e o café da manhã seguinte. Jantei no albergue e fui dormir cedo. Como vinha acontecendo todas as noites, acordei muitas vezes.

Quando chegamos à fonte lá encontramos um espanhol de uns 50 anos, cuja voz demonstrava que já devia estar ali deliciando-se há algum tempo. Eram 8h30min de uma manhã fria e o vinho descia de forma muito agradável. Não fora os quase 20 quilômetros para caminhar até Los Arcos, seria ótimo ficar ali bebendo e ouvindo as histórias do espanhol que dizia ter trabalhado em vários países da Europa.

Logroño - 27/05/1998 - Quarta-feira.

Levantei às 5h30min quando começou o movimento no dormitório. Depois que já estava pronto para descer ao refeitório, acordei o Ramón. Ele arrumou-se ligeiro, comeu e saiu antes de mim. Saí junto com Javier, um espanhol que eu já conhecia há alguns dias e que estava fazendo o Caminho pela sexta vez. Logo alcançamos Alexandre e Lila para participar do terço.

Neste dia cheguei a Nájera. Foi uma etapa muito cansativa e meus pés doíam bastante. Mais que os ombros e as costas. Após o banho saí para almoçar e comprar coisas para o café da manhã seguinte. Neste dia conheci o João Luiz, um peregrino de Belo Horizonte, com 64 anos mas aparentando muito menos, com excelente preparo físico, tendo já concluido 11 maratonas.

Nájera - 28/05/1998 - Quinta-feira.

O guia oferecia duas alternativas para chegar a Santo Domingo de la Calzada. Escolhi a mais curta, o que me proporcionou chegar ao albergue cedo e com disposição para andar um pouco pela cidade. Saí com Ramón, Lila e Alexandre para visitar a Catedral e passear pela cidade. Durante o passeio encontrei Sandra e Vera que não via desde Estella, no domingo passado, de manhã. Foi nesta cidade que notei pela primeira vez os ninhos de cegonha nos campanários das igrejas e em outros pontos altos.

Santo Domingo de la Calzada - 29/05/1998 - Sexta-feira

Logo após sair do albergue, encontrei Conceição, Paulo Roberto, Lila e Alexandre e caminhei com eles. Passando por Grañon, paramos na fonte para beber água e descansar um pouco. Então uma cadela muito bonita e mansa aproximou-se e foi afagada por todos. Quando recomeçamos a andar ela nos acompanhou. Saímos do pueblo e seguimos por uma extensa área de plantação de trigo com a cadela saltitando entre nós ou entrando no trigal e voltando logo depois.

Pensávamos que a qualquer momento ela nos abandonaria, voltando para casa, pois notava-se que estava amamentando e não iria ficar longe dos filhotes muito tempo. Chegamos a Redecilla del Camino, a 4,5 km de Grañon e ela parecia não querer voltar. Paramos numa praça onde fizemos uma foto com o grupo acrescido da senhora francesa já citada e tentamos fazer a cadela voltar, enxotando-a, mas não conseguimos. A seguir tínhamos pela frente um trecho de estrada muito movimentada e ela atravessava a estrada para lá e para cá a todo momento, deixando-nos em grande aflição, pois sentíamos que seria atropelada ou causaria um acidente, já que os carros freavam ou desviavam para não pegá-la. Então Paulo Roberto tirou da mochila um cinto e prendeu a cadela pelo pescoço, mantendo-a junto dele daí em diante.

Pouco depois, senti necessidade de andar mais rápido e afastei-me do grupo. Parei em Castildelgado, onde voltamos a nos encontrar. A partir daí o Caminho afasta-se da estrada, indo até Viloria de Rioja e depois volta, seguindo por ela até Belorado, final da etapa daquele dia. Eu e a francesa idosa, que passarei a chamar simplesmente Madame, fomos direto pela estrada. Os outros foram para Viloria de Rioja, onde conseguiram deixar a cadela.

Madame andava devagar. Geralmente saía bem cedo do albergue e eu a alcançava algumas horas depois. A partir do nosso primeiro encontro, nos víamos várias vezes, quando eu parava para descansar e ela passava, pois parava pouco. Neste trecho de estrada a história se repetia. Depois de algum tempo, começou uma chuva fina e gelada que nos acompanhou até Belorado. O anorak protegeu bem e só fiquei molhado nas pernas e nos pés. A temperatura caiu muito. Quando cheguei no albergue fiquei sabendo que o Ramón seguiu direto para Villafranca, 12,5 km adiante. Agora seria difícil alcançá-lo.

Belorado - 30/05/1998 - Sábado.

Fui um dos últimos a sair do albergue. Já eram 8h20min. Não chovia mas o vento era gelado. Estava de tênis pois as botas estavam molhadas. Felizmente não choveu. Esta etapa, até San Juan de Ortega, é muito cansativa. Num ponto alem da metade do caminho, parei num bar onde estava um grupo de cerca de 50 irlandeses que percorria o Caminho de Santiago num grande ônibus. O motorista deles puxou conversa e ao saber que eu estava indo para San Juan de Ortega, ofereceu levar a mochila até lá, onde eles fariam uma parada.

Gostei da idéia e falei com vários outros peregrinos, mas só Paulo Roberto aceitou. Então tirei da mochila a bolsa de nylon, onde coloquei os documentos, dinheiro e outras coisas mais importantes e coloquei a mochila no bagageiro do ônibus. Paulo não teve medo de arriscar e mandou tudo que tinha no ônibus, seguindo de mãos vazias. Quando cheguei em San Juan de Ortega, senti um alívio ao ver que o ônibus já estava lá.

Pela indicação do guia, pensei que San Juan de Ortega fosse uma pequena cidade, mas só vi uma igreja, o albergue e um bar. O albergue estava muito mal cuidado e não havia água quente por que o aquecedor não estava aceso. O frei encarregado de cuidar do albergue passou o dia bebendo vinho no bar. Fiquei sem tomar banho, limitando-me a uma higiene sumária com água gelada.

Às 19h o pároco rezou uma missa para os peregrinos e depois serviu sua tradicional sopa de alho. Ao término da missa, enquanto as pessoas estavam saindo, ele explicava a um pequeno grupo, junto à porta da igreja, que costumava pedir às duas peregrinas mais jovens para ajudá-lo a servir a sopa. Neste momento chegou a Lila, que não havia assistido a missa e era sem dúvida a peregrina mais jovem naquele dia. O padre lhe disse que desejava sua ajuda para servir a sopa e ela fingia que não estava entendendo.

Por conta do frio que estava fazendo, ela havia bebido no bar um pouco mais do que devia e não tinha condições de servir sopa a ninguém. Creio que o padre percebeu o estado dela e não insistiu. A sopa foi servida num refeitório ao lado do albergue, num clima de muita alegria. O padre incentivou os peregrinos a cantar canções de seus países de origem e então cada grupo de mesma nacionalidade cantou alguma canção bastante conhecida. Nós, brasileiros, cantamos Garota de Ipanema, os franceses cantaram Frère Jacques, os italianos não conseguiram chegar a um consenso e creio que cantaram pedaços de várias músicas. Alemães e espanhóis escolheram e cantaram suas músicas sem dificuldades.

Depois da sopa muitos peregrinos foram jantar no bar. Jantei com um peregrino inglês que conheci naquela tarde ao chegar ao albergue. Era uma figura muito interessante. Chamava-se Ron Stowe, cerca de 65 anos, riso solto, falava espanhol razoavelmente e esforçava-se para aprender novas palavras. Andava com dois cajados, sendo um deles enfeitado com uma grande pena e usava uma camiseta com o rosto de um cacique indígena estampado no peito.

Quando já tínhamos jantado e saboreávamos um bom vinho, chegou a Lila e sentou-se em nossa mesa. Como ela fala inglês, teve muita facilidade em conversar com o Ron e em pouco tempo estavam cantando músicas dos Beatles. Por conta do vinho bebido, Lila ria a toa e o Ron normalmente ria de tudo.

Em um dado momento o Alex chegou à nossa mesa e me falou que havia entregado a manta que estava na minha cama a um peregrino que não tinha saco de dormir. Falou também que recolheu dois pares de meias que estavam secando porque começou a chover e achava que eram minhas mas como não tinha certeza, não as levou para a minha cama, deixando-as num banco na entrada do albergue. Disse-lhe que as meias eram minhas e que as pegaria quando entrasse para dormir.

Geralmente quando chegava em um albergue que tinha mantas, eu pegava uma para me cobrir, pois assim não precisaria usar o saco de dormir que levava no fundo da mochila, economizando muito tempo na sua arrumação, pela manhã. É evidente que quem não tem saco de dormir precisa da manta muito mais e o Alex fez bem em dispor da que estava em minha cama. No entanto, no primeiro instante daquela notícia, devo ter feito uma cara de desagrado muito esquisita, causando um ataque de riso na Lila. O Ron, que não havia entendido nada, ria da Lila e eu ria dos dois.

Daí a pouco, chamou-nos a atenção uma discussão numa mesa próxima. Era o frei bêbado discutindo aos gritos com um peregrino francês. Não entendi nada pois gritavam em francês. O peregrino, seguido de seus companheiros, levantou-se e saiu. Mas o frei ainda ficou uns 5 minutos falando alto sozinho.

Este acontecimento quebrou o clima de alegria e resolvemos ir também para o albergue que ficava a apenas uns 30 metros do bar. Lila continuava rindo e não conseguia dar dois passos em linha reta. Nós a ajudamos a chegar ao seu dormitório e nos dirigimos ao nosso. Esqueci de pegar as meias que o Alex recolheu.