Livro Completo
San Juan de Ortega - 31/05/1998 - Domingo

Eu havia planejado não caminhar aos domingos mas aquele pueblo não era atraente para ficar mais um dia inteiro e decidi adiar o meu dia de descanso. Às 6h30min desci para o refeitório, onde o padre serviu café com leite quente a todos os peregrinos. Alex e Lila saíram antes de tomar café. Como sempre, saí depois de todos os brasileiros. Eram 7h20min. Andei rápido para espantar o frio.

Depois de cerca de uma hora e meia de caminhada ultrapassei Madame, Vera, Sandra e Conceição. Mais adiante vi a Lila parando num bar. Eu ainda não estava com vontade de comer nada e não parei. Pouco depois o Caminho subia um morro por uma trilha pedregosa e sem vegetação. No topo do morro havia uma grande cruz de madeira cercada por montinhos de pedras arrumados de forma muito harmoniosa. Parei, coloquei mais uma pedra e fiz uma foto.

Depois do almoço, seguimos para Logroño que é uma cidade de tamanho bem maior que a média do Caminho, com muitos pontos interessantes para serem vistos. Mas meus pés estavam muito doloridos e só concordaram em me levar até o supermercado para comprar algo para o jantar e o café da manhã seguinte. Jantei no albergue e fui dormir cedo. Como vinha acontecendo todas as noites, acordei muitas vezes.

Uns 150 metros mais a frente deparei-me com uma vista maravilhosa. Uma extensa planície surgia à minha frente numa altitude de uns 300 metros abaixo de onde eu estava, espalhando-se a perder de vista. Podia distinguir áreas cultivadas de outras incultas e ao longe um pueblo iluminado pelo sol que passava por um buraco nas nuvens que cobriam toda aquela região. Parei outra vez para fazer uma foto. Vera e Sandra chegaram e pararam. Madame chegou também mas não parou.

Descendo sozinho a colina em direção à planície perdi as setas do Caminho. Continuei descendo esperando encontrar as setas mais a frente mas não as encontrei. Cheguei à estrada que leva a Burgos, minha meta naquele dia. Pouco antes de chegar na estrada, encontrei Madame e seguimos juntos algum tempo, enquanto tentávamos concluir em que ponto da estrada nós estávamos. Depois nos distanciamos pois o passo dela era mais lento que o meu.

Às 11 estava entrando em Burgos e não havia encontrado as setas do Caminho. Parei por algum tempo para descanso e esperar que Madame me alcançasse mas ela não apareceu. Recomecei a andar e depois de uns 20 minutos, percebi que ainda estava na periferia da cidade. Fui seguindo inseguro por não ver nenhuma seta. De acordo com o livro guia eu deveria seguir por uma longa avenida até o centro da cidade para chegar ao albergue. Fiquei preocupado com Madame que não tinha um guia e não falava uma palavra de espanhol. Resolvi parar e esperar um pouco por ela.

Depois de uns 30 minutos parado sem que ela aparecesse, comecei a achar que ela deveria ter ido por outro caminho, embora não entendesse qual, pois a avenida era a continuação da estrada que nos levava a Burgos. Mas como não via uma seta há horas, havia uma grande chance de estar no caminho errado. Enquanto estava tentando concluir o que fazer, vi passando do outro lado da avenida a Lila e um jovem peregrino alemão, já conhecido. Eles me viram, acenaram para mim e seguiram em frente. Não pareciam estar inseguros como eu, donde concluí que deveriam saber que estavam no caminho certo.

Depois de mais algum tempo e antes de os perder de vista resolvi segui-los. Procurei andar o mais rápido que minhas pernas agüentavam e os alcancei depois de uns 15 minutos. Já estávamos em uma área mais movimentada e tentamos seguir a orientação do guia do alemão que era mais detalhado que o meu, mas encontramos dificuldade. Paramos em um local onde perguntamos a algumas pessoas onde ficava o albergue até que conseguimos uma informação que nos levaria lá. Mas o alemão não iria conosco até o albergue porque pretendia encontrar o seu grupo que havia programado chegar naquele dia a Tardajos.

Eu e Lila seguimos para o albergue mas como estávamos famintos, paramos para almoçar antes de chegar lá. Chegando ao albergue por volta de 3h encontrei Madame já deitada. Lavei a minha roupa suja e saí para telefonar para casa. Começou a chover intermitentemente. Às 4h fiquei surpreso ao ver Lila saindo com Alex para seguir até Villabilla ou Tardajos. Ao chegarmos ali ela estava como eu, isto é, no bagaço. E agora depois de um banho, já estava pronta para pegar a estrada outra vez.

Naquele albergue encontrei mais alguns brasileiros: o Dario e sua irmã Zélia, um montanhista chamado João que eu conhecia há alguns anos, todos do Rio de Janeiro e com idade em torno de 60 anos, uma médica com o marido, cujos nomes não me lembro e os acompanhantes do João, um português de uns 50 anos e uma moça bem mais jovem.

Logo após sair do albergue, encontrei Conceição, Paulo Roberto, Lila e Alexandre e caminhei com eles. Passando por Grañon, paramos na fonte para beber água e descansar um pouco. Então uma cadela muito bonita e mansa aproximou-se e foi afagada por todos. Quando recomeçamos a andar ela nos acompanhou. Saímos do pueblo e seguimos por uma extensa área de plantação de trigo com a cadela saltitando entre nós ou entrando no trigal e voltando logo depois.

Ali ocorreu um fato muito estranho. Na noite anterior eu havia sonhado com alguém que nunca conheci: o meu avô paterno que nem meu pai chegou a conhecer. No sonho eu estava com o meu avô num lugar que parecia ser uma oficina de marceneiro e chegava o Jorge, um tio da minha madrasta. Nós estávamos conversando e eu não sabia se os dois já se conheciam. Não me lembro bem mas creio que os apresentei. Mas o importante do sonho era o meu avô. Era um homem de cerca de 50 anos, robusto, de mais ou menos 1,75 m de altura, rosto largo, pele curtida de sol, cabelos grisalhos, uma aparência de grande energia física e forte personalidade.

Durante o dia, lembrei do sonho várias vezes e ficava tentando encontrar uma razão para algo tão insólito. No sonho eu era adulto, com certeza, embora não pudesse precisar com que idade. Não estava surpreso com a presença do meu avô. Era como se sempre o tivesse conhecido. E, de todo o sonho, a lembrança mais nítida era a aparência dele.

Naquele dia, pouco depois de ter chegado ao albergue, vi um grupo de peregrinos italianos já conhecidos e entre eles um que era exatamente como o meu avô no sonho. Custei a crer no que estava vendo. Tinha sonhado com um avô que não conheci e agora ali estava ele na minha frente, na figura de um peregrino que poderia ter, no máximo 2 ou 3 anos mais do que eu. O que significaria aquilo? Busquei uma explicação racional para a situação e a única hipótese que encontrei foi que, provavelmente, já deveria ter visto aquele peregrino antes e não prestei atenção nele mas a sua imagem ficou retida no subconsciente e, por algum motivo, apareceu no sonho para dar uma forma ao avô que não sei como era. De qualquer modo, o sonho, em si, continuará a ser um mistério para mim.

Tive oportunidade de conversar algumas vezes com aquele peregrino, pois ele também falava bem o espanhol, mas não lhe contei o sonho. E, por coincidência ou não, terminada a peregrinação, saímos juntos de Santiago de Compostela, dividindo o táxi até o aeroporto e embarcando no mesmo vôo, rumo a Madri, onde nos separamos. Somente nesse dia fiquei sabendo que ele não era italiano, como pensei todo o tempo, mas sim alemão e que vivia na Itália há 20 anos.
Às 20h30min saí sozinho para jantar no mesmo restaurante onde almocei. Na volta estava chovendo. Chegando ao dormitório percebi que Madame não tinha levantado. Eu a vi conversando com um francês. Não entendi o que falavam mas percebi que ela não estava bem.