Livro Completo
Burgos - 01/06/1998 - Segunda-feira.

Acordei às 5h40min. Embora já tivesse decidido ficar em Burgos naquele dia para comprar algumas coisas, levantei, fui ao banheiro e conversei um pouco com algumas pessoas que se preparavam para sair. Depois voltei para a cama e lá fiquei até 7h30min. Chovia sem parar. Chuva fina e gelada. Ainda bem que não ventava. Aos poucos foram saindo todos, restando apenas eu, duas ciclistas inglesas, Zélia, com problemas nas pernas, e Madame, que só levantou às 10h30min, mancando um pouco, depois que o hospedeiro lhe levou um desjejum na cama, pois ela não levantou para comer desde a tarde do dia anterior.

Choveu a manhã inteira e não pude sair para comprar o que precisava. E eu precisava demais comprar meias e um par de botas. Havia esquecido 2 pares de meias em San Juan de Ortega e precisava substituí-las. E minhas botas, alem de estarem com as solas lisas derrapando na lama, já não eram mais impermeáveis e meus pés ficavam molhados facilmente.

A compra das botas me preocupava, pois precisavam ser de ótima qualidade e bem ajustadas nos meus pés, já que teria que andar grandes distâncias com elas sem um prévio amaciamento. Então planejei comprar primeiro um par de meias bem grossas para com elas experimentar as botas. Pretendia comprar da marca Boreal, como as que usava e que já tinham quase 8 anos de uso ou da marca Chiruca, recomendada pelo João Luiz, que adquiriu um par desta marca no Brasil e estava muito satisfeito.

Por volta de meio dia, uma peregrina, que eu pensava que era inglesa e que já tinha saído do albergue pela manhã, apareceu e me perguntou por que eu estava no albergue até aquela hora. Com meu pouco conhecimento de inglês, disse-lhe que estava esperando a chuva parar para sair e ela, rispidamente, falou que se não estava doente, deveria ter saído cedo, que só poderia permanecer no albergue quem não tinha condições de andar. Ela falava de uma forma tão autoritária que deduzi que deveria fazer parte da administração do albergue e disse-lhe que sairia logo que a chuva parasse. Esta mulher era magra, com cerca de 1,70m de altura, pele e olhos claros, com cinqüenta e poucos anos, voz de timbre um pouco grave para uma mulher e uma postura de general nazista.

Cerca de meia hora depois a chuva parou e saí procurando uma loja de material esportivo ou de roupas onde pudesse comprar as meias que precisava. Para minha surpresa, entrei em várias lojas e não encontrei meias grossas comuns e muito menos uma bem grossa para poder comprar as botas que também não estava encontrando. Depois de muitas entrei numa pequena loja onde havia uma única moça atendendo. Não tinha as meias e eu perguntei onde poderia encontrá-las. Ela começou a me indicar um caminho complicado e percebeu que não dava para compreender sem conhecer a cidade. Então disse-me para esperar um instante e foi até os fundos da loja de onde voltou rapidamente dizendo que me levaria até a outra loja.

Saímos, ela fechou a loja e fomos seguindo por várias ruas até chegarmos a uma esquina onde mostrou-me uma loja grande em que encontraria as meias e as botas que procurava, mas disse-me que me levaria a uma outra loja perto dali onde deveria encontrar meias com preço menor que na primeira loja. Assim fez e deixou-me dizendo que precisava voltar para abrir a loja. Agradeci muito, simplesmente encantado com tanta gentileza, e entrei na loja. Não tinha as meias. Fui até a outra loja e lá finalmente encontrei as benditas meias. Quanto às botas, experimentei várias mas não encontrei nenhuma que agradasse. Saí dali já assustado, faltando pouco para as 14h, quando o comércio fecha para a "siesta" , só abrindo às 17h.

Quando já estava desanimando, passei em frente a uma loja com uma vitrine pequena, na calçada oposta à que eu estava. Achei que não deveria perder alguns minutos preciosos atravessando a rua para procurar numa loja pequena em vez de buscar uma loja grande com maior variedade de botas. Mas só por desencargo de consciência resolvi olhar de perto a vitrine e lá estava uma bota Chiruca. Entrei e pedi para experimentar um par. Ficou quase perfeita, estando apenas apertada na parte mais larga do pé. O vendedor explicou que a bota cederia um pouco com o uso e que deveria mantê-la sempre justa naquele ponto, evitando a fricção entre o pé e o calçado, para não fazer bolhas.

Saí da loja calçando as botas novas e deixei as velhas para jogar no lixo. Tinha andado tanto que custei a chegar de volta ao albergue. Chegando lá, troquei as meias por outras menos grossas, coloquei esparadrapo nos pontos onde as botas apertavam e saí do albergue. Eram cerca de 15h e resolvi almoçar antes de sair de Burgos. Parei num restaurante próximo ao albergue, comi e saí rumo a Tardajos, 8 km distante dali. O tempo estava nublado mas não chovia. O sol já tinha até aparecido um pouquinho.

As botas estavam apertadas mas não machucavam. Cheguei sem dificuldades a Villabilla, a 5 km de Burgos. Ao passar por ali, notei que o tempo estava piorando, podendo chover a qualquer momento. Então parei, vesti o anorak, protegi a mochila com sua capa e segui em frente. Um pouco adiante, quando atravessava uma área de plantação muito extensa, desabou um temporal violento. Era chuva muito forte com muito vento em direção exatamente oposta ao meu caminho. Não havia nenhum lugar para abrigar-me. Só podia seguir em frente.

Cheguei ao albergue em Tardajos encharcado da cintura para baixo e um pouco molhado no peito pois o vento contra jogou água dentro do anorak. Fui recebido com muito carinho e gentileza pela Victoria, responsável pelo albergue. Não havia mais vagas, Ela arranjou um canto do dormitório para que eu me acomodasse. Vários peregrinos estavam com as botas molhadas. Ela saiu e algum tempo depois voltou com 2 sacolas de mercado cheias de jornais para secar as botas. Como eu não tinha nenhuma camisa seca para vestir, ela deu-me uma camiseta e uma camisa de malha de manga comprida e levou meu casaco para secar não sei onde.

Neste albergue voltei a encontrar Ron, o inglês risonho que conheci em San Juan de Ortega e a peregrina antipática que queria me expulsar do albergue em Burgos. Depois do banho fui com Ron tomar um conhaque num bar próximo. A televisão do bar estava mostrando touradas ao vivo. Achei um espetáculo deprimente e covarde. O pobre do touro não tem nenhuma chance. Ao menor sinal de dificuldade para o toureiro, entra em cena um cavaleiro com uma lança, montado num cavalo bastante alto e protegido por uma lona ou coisa parecida. Ele fere o lombo do touro com a lança enquanto o toureiro se protege. O touro é ferido várias vezes até que quando mal consegue andar, o toureiro o mata com a espada.