Livro Completo
Tardajos a Castrojeriz- 02-06-1998 - Terça-feira.


Fui um dos últimos a sair do albergue. Na saída não encontrei o meu cajado. Um dos peregrinos italianos que estavam saindo me disse ter visto uma peregrina holandesa levando o cajado e saindo há dois minutos com o inglês Ron. Andei rápido atrás deles e os alcancei quando estavam parados numa fonte. A holandesa era simplesmente a "generala nazista" que eu pensava que era inglesa. Perguntei-lhe por que ela pegou o meu cajado e ela resmungou qualquer coisa com um sorriso amarelo enquanto o devolvia.

Ron, que andava com dois cajados, emprestou um a ela e daí para frente seguimos os três mais ou menos juntos até Hornillos del Camino. Lá chegando encontrei Ramón saindo do albergue com a hospedeira para ir ao médico. Estava com o pé direito inchado e enfaixado. Ele disse que sentiu muita dor a noite toda e que não poderia continuar o Caminho e ia pedir a alguém de sua família para vir buscá-lo e levar para casa. Estava numa tristeza de dar dó.

O albergue só iria abrir mais tarde quando a hospedeira voltasse com Ramón. Neste pueblo não há nenhum bar ou mercado e nós queríamos comer alguma coisa. Enquanto descansávamos um pouco, chegou um grande furgão tocando uma buzina estridente e parou na praça. Então apareceram algumas pessoas e se dirigiram ao furgão. Fui até lá para ver o que havia para comer. Havia legumes, verduras, enlatados, frutas, carne fresca, leite, iogurte e outras coisas. Comprei iogurte e uma fruta. Após comer seguimos os três juntos.

O Caminho seguia por uma estreita estrada de terra transformada em algo parecido com papel pega-moscas. E as moscas éramos nós. Os pés afundavam na lama que os prendia ao chão. Quando os soltávamos cada sola tinha presa uma camada de barro compacta e muito pesada. O avanço era muito cansativo e vagaroso. Pouco antes de chegar a Hontanas parei para fazer uma foto e Ron e a holandesa se adiantaram. Em Hontanas, ao passar em frente ao albergue, vi seus cajados encostados na parede do lado de fora, junto à porta. Eu não quis parar ali e segui sozinho até Castrojeriz.

Descendo sozinho a colina em direção à planície perdi as setas do Caminho. Continuei descendo esperando encontrar as setas mais a frente mas não as encontrei. Cheguei à estrada que leva a Burgos, minha meta naquele dia. Pouco antes de chegar na estrada, encontrei Madame e seguimos juntos algum tempo, enquanto tentávamos concluir em que ponto da estrada nós estávamos. Depois nos distanciamos pois o passo dela era mais lento que o meu.

Lá chegando tive a grata surpresa de encontrar Conceição, que saiu de Burgos 2 dias antes e João Luiz que não via desde Santo Domingo de la Calzada, há 4 dias. Ele ficou 2 dias descansando em Hornillos com Ramón porque também estava com problemas em uma das pernas. O albergue de Castrojeriz é administrado por Resti, um ex-executivo que tornou-se hospedeiro e se esmera em gentilezas e cuidados para abrigar os peregrinos. O albergue é pequeno e aconchegante. Pelas paredes existem poemas e lindos textos sobre o Caminho e um bem humorado lembrete de que a manutenção do albergue depende dos donativos deixados pelos peregrinos.

Castrojeriz - 03/06/1998 - Quarta-feira.

Pela manhã, quando fomos comer o desjejum, Resti já tinha café pronto e leite quente nos esperando e ele mesmo servia a todos. Após o café fiz uma foto com Resti na porta do albergue e em seguida botei o pé na estrada. Castrojeriz é um lugar que dá pena deixar. É uma minúscula cidade de arquitetura medieval, no meio de extensa área cultivada. Alem da beleza dos arredores, sente-se que possui uma energia muito boa. O Caminho afasta-se do pueblo subindo um morro. Alcancei Conceição que saiu um pouco antes de mim e andamos juntos por alguns minutos. Logo depois deixei-a para trás, pois ela estava muito vagarosa, parecendo que também morria de pena de afastar-se dali.

Segui só até chegar a um local preparado para descanso. Eram várias mesas e bancos de concreto, perto de árvores plantadas para dar sombra e perto também de generosa fonte de água quase gelada. Parei para descansar e comer alguma coisa. Abri a mochila e descobri desolado que havia esquecido toda a comida, faca, colher e copo no albergue. Quando Conceição chegou, dividiu comigo o seu lanche. Comemos, descansamos um pouco e caminhamos para Frómista com relativa facilidade pois não choveu, o caminho estava mais seco e não havia o barro pegajoso do dia anterior.

Em Frómista encontramos João Luiz com tornozelo inchado e parte da canela bem vermelha. Parecia que ele teria que parar novamente e isto o deixou muito deprimido. Após descansar um pouco ele saiu para comprar um remédio e foi atendido na farmácia por um farmacêutico que lhe indicou um anti-inflamatório para por em baixo da língua e disse para continuar o Caminho andando devagar e fazendo mais paradas para descanso. Mais tarde fomos à missa na igreja perto do albergue. Foi uma missa muito bonita em que o padre solicitou aos presentes que rezassem em intenção dos peregrinos para ajudá-los a concluir o Caminho. Esta missa tocou-me profundamente, deixando-me muito emocionado.

De madrugada Conceição me acordou e pediu que eu mudasse de posição porque estava roncando muito e ela não conseguia dormir porque a cama dela ficava bem perto da minha. Então virei-me de lado e tentei permanecer assim. Mais tarde, ainda de madrugada, acordei e fui ao banheiro. Ao voltar para o dormitório notei que havia alguém dormindo num colchão, no chão, no fundo do corredor. Achei estranho pois o albergue não estava lotado mas não tentei entender o porquê daquilo.