Livro Completo
Frómista a Carriom - 04/06/1998 - Quinta-feira.

Quando levantei de manhã cedo é que fui saber que era João Luiz quem estava dormindo no corredor. Ele não conseguia dormir com o meu ronco e levou o colchão para o corredor. Conceição quis fazer o mesmo mas não havia lugar no corredor para dois colchões. Então ela trouxe seu colchão de volta e me acordou.
A etapa de Frómista a Carrión de los Condes é curta e fácil. Então planejei continuar até Calzadilla de la Cueza para diminuir a etapa do dia seguinte que seria muito longa. Saí do albergue junto com Conceição e João Luiz. Fizemos fotos dos 3 juntos achando que talvez não voltássemos a nos encontrar. Despedimo-nos e eu e Conceição saímos na frente enquanto João Luiz ficava mais um pouco na porta do albergue.

Andei com Conceição por uns 10 minutos. Como ela andava devagar e minha mochila estava muito pesada, preferi andar mais rápido e fazer maior número de paradas para descansar. Então segui na frente e só fui parar em Villovieco, uns 5 km adiante, numa área de pic-nic. Depois de uns 10 minutos chegaram Conceição e João Luiz. Ela quis parar para descansar mas ele seguiu direto. Cinco minutos depois saímos juntos mas logo segui sozinho.

O peso da mochila estava me incomodando demais. Todos os dias caminhava com muita dor e comecei a ficar com medo de fazer uma tendinite. Então resolvi executar uma idéia que já tinha à vários dias: mandar pelo correio para Santiago o par de tênis e o guia. Este não faria falta porque eu faria xerox das folhas necessárias, mas o tênis poderia fazer muita falta, embora eu ficasse com as botas e a sandália.

Cheguei ao albergue de Carrión de los Condes junto com o João Luiz e Conceição chegou logo depois. Neste albergue há 2 grandes dormitórios. João e Conceição colocaram suas mochilas num deles e eu no outro para poupá-los do ronco. Desisti de ir até Calzadilla naquele dia. Fui ao Correio e mandei o tênis e o guia para Santiago. Os dois juntos pesavam pouco mais que 1,5 kg. Voltei ao albergue, tomei banho, lavei a roupa suja e saí para almoçar. O resto do dia foi para descanso pois a jornada do dia seguinte seria bem longa.

Carrión de los Condes - 05/06/1998 - Sexta-feira.

João Luiz me acordou às 6h. Levantei e procurei me preparar para sair o mais rápido possível. Fizemos o desjejum juntos. Um grupo de espanhóis que dormiu perto de mim comentou que de todos que roncavam por perto o meu ronco era o mais forte, seguido de perto pelo de Pepito, o mais velho daquele grupo, com 72 anos. João e Conceição saíram. Só consegui sair quase 30 minutos depois.

Andei sozinho por muito tempo. Alcancei Conceição quando ela parou para descansar. Seguimos um pouco juntos mas logo nos separamos. Numa parada um pouco mais longa que fiz, ela passou e seguiu sem parar. Voltei a encontrá-la quando parou junto a uma pequena ponte. Nesta ocasião eu estava conversando com uma peregrina francesa e não parei. Esta peregrina estava fazendo o Caminho junto com o marido mas como ele andava devagar, ela estava sempre na frente e encontravam-se nas paradas.

Ela falava inglês, coisa rara entre os franceses, o que possibilitava a nossa conversa, apesar dos meus conhecimentos deste idioma serem tão limitados. Contou que tinha uma filha casada morando no Canadá e outra morando e estudando em Londres. Conversamos também sobre o custo dos estudos e as dificuldades atuais para arranjar emprego. Estávamos andando sobre antiga estrada romana, calçada com pedras desiguais e arredondadas, lembrando um imenso pé-de-moleque com 13 km de comprimento. Era muito cansativo andar ali e exigia o máximo de atenção para não torcer um pé.

Chegamos a Calzadilla de la Cueza e paramos na entrada da cidade. Poucos minutos depois chegou o marido dela e um grupo de italianos. Um dos italianos falou que tinha visto uma brasileira caminhando com uma das botas na mão. Pelo menos foi isso que entendi. Só podia ser Conceição que era a única brasileira vindo logo atrás de mim. Então pensei que se ela estava andando com uma das botas na mão, alguma coisa muito séria teria acontecido e seria terrível andar naquele pé-de-moleque com um pé descalço.

Resolvi ir ao encontro dela. Pedi a um morador dali para guardar minha mochila e voltei, levando apenas o cajado. Fiquei impressionado com a facilidade de andar sem a mochila. Parecia que estava flutuando sobre as pedras. Andei rápido por cerca de 10 minutos e encontrei Conceição. Ela vinha tranqüila, no seu passinho normal e ficou surpresa quando me viu. Contei-lhe o que o italiano falou e ela disse que quando eles passaram ela estava sentada, descalça e massageando os pés. Mas não havia acontecido nada. Chegando em Calzadilla, peguei a mochila e fomos tomar café no Hostal-Restaurante Camino Real, cujo proprietário, César Adámez, já morou alguns anos no Rio Grande do Sul e atualmente faz parte da Associação de Amigos do Caminho de Santiago. Batemos um bom papo com ele e seguimos rumo a Terradillos de Templários. Pelo caminho fomos conversando sobre nossas famílias e problemas que são freqüentes nos relacionamentos entre pais e filhos.

Em Terradillos de Templários, encontramos um albergue particular e Conceição, sentindo-se cansada, quis ficar para pernoitar ali. Despedimo-nos um pouco tristes, pois provavelmente, não nos encontraríamos antes do fim do Caminho, já que eu seguiria num ritmo mais rápido e seria muito difícil que ela me alcançasse. A lógica indicava isso mas no meu íntimo não sentia assim.

Para sair do albergue passei pelo refeitório e vi que ali serviam refeições. Achei que seria bom aproveitar e almoçar para seguir com mais disposição. Como já era um pouco tarde, havia pouca coisa para comer. A hospedeira preparou-me uma boa salada que comi com uma taça de vinho. Saí dali e segui direto até Sahagún, onde cheguei às 18h30min. O albergue dali funciona num grande e antigo prédio reformado, onde também funciona um Centro Cultural. Quando cheguei, estava acontecendo um evento festivo e havia muita gente num grande salão no andar térreo. Não encontrei o responsável pelo albergue e tentei chegar ao dormitório para guardar a mochila mas não consegui.

Coloquei a mochila junto a uma mesa que parecia ser a recepção do albergue, sentei e esperei aparecer alguém. Daí a pouco chegou João Luiz já de banho tomado. Ficamos conversando até aparecer o hospedeiro. João disse que estava sentindo-se totalmente recuperado e combinamos fazer as 2 próximas etapas em um só dia, pois eram etapas curtas, somando as duas 36 km.