Livro Completo
Santiago de Compostela a Finisterre - 20/06/1998 - Sábado.

Acordei às 7h, fiz a barba que já tinha 2 semanas, comi pão com geléia e fiquei fazendo anotações sobre o dia anterior. Às 9h saí para ir ao Correio pegar o tênis e o guia. Ao sair encontrei a Sílvia que também estava saindo e fiquei sabendo da noitada esticada até a madrugada. A rua dava a impressão de ser mais cedo. Haviam poucas pessoas e o sol, escondido pelos prédios mais altos, ainda não aparecia por ali. Perto da catedral encontramos o Zé Maria, que acabava de chegar. Foi um momento de grande alegria para os três. Conversamos um pouco, passamos a ele as informações importantes naquela ocasião e logo nos separamos.

Cheguei ao Correio e apresentei o papel para retirada do meu pacote. O homem que me atendeu, após alguma demora, retornou ao balcão e me fez algumas perguntas para ajudar a identificação. Finalmente, pediu-me que fosse até o local onde ficavam guardados os pacotes para procurar junto com ele. Era uma grande sala cheia de estantes, onde se via embrulhos de todos os tamanhos e formas. Conduziu-me até uma estante e disse que deveria estar ali. Em poucos minutos encontramos. Voltei à hospedaria. Emerson ainda não havia acordado. Mércia e Sílvia estavam na rua. Às 10h30min acordei o Emerson, pois tínhamos que desocupar os quartos até as 12h. Arrumei a minha mochila e a levei para a sala, liberando o quarto, conforme combinado com a dona.

Pouco depois de 11h fui para a frente da igreja e fiquei vendo a chegada dos peregrinos. No semblante de cada um havia uma forte emoção estampada. Alguns subiam a escada de acesso à igreja sérios e com o olhar voltado para o alto, outros choravam ou sorriam mas todos tinham um brilho diferente nos olhos. E pude me ver em cada um deles e compartilhar de sua emoção. E foi ali, naqueles momentos inesquecíveis, que me senti integrado a uma incomum parcela da humanidade. Eu era um peregrino do Caminho de Santiago de Compostela e isto me fazia muito feliz. E a felicidade era ainda maior por saber que praticamente qualquer pessoa pode conseguir também. Tornei a agradecer a Deus por ter me permitido realizar o meu sonho e pedi que me ajudasse a vivenciar este fato com humildade e nunca com orgulho.

Encontrei na igreja Alex, Lila, Luiz e Sérgio que chegaram naquele dia. Às 12h começou a missa dos peregrinos. Foi linda com "bota fumeiro" no final. "Bota-fumeiro" é um turíbulo com aproximadamente 1,2 metros de altura, que é balançado pendurado ao teto da igreja, passando veloz entre os bancos, soltando fumaça e indo quase até o teto, manobrado por um grupo de 8 padres. Tive muita dificuldade para me concentrar na missa. Embora fosse um evento religioso, o grande número de turistas presentes, o encontro com os conhecidos, as fotos e o "bota fumeiro" davam à missa uma conotação de espetáculo e dispersavam a atenção.

Mais tarde alugamos dois carros para ir a Fisterra, cerca de 90 quilômetros distante de Santiago. Éramos oito: eu, Emerson, Sílvia, Mércia, Alex, Sérgio, Lila e Luiz. Era uma sensação um pouco estranha viajar de carro depois de um mês inteiro andando a pé. A viagem durou quase duas horas. Considerávamos importante colocar o ponto final de nossa peregrinação naquela cidade onde há séculos, muitos peregrinos se dirigiam para queimar ou atirar ao mar as roupas usadas no Caminho e, em épocas remotas, também realizar antigos rituais druidas. Nós queríamos também obter o carimbo de Fisterra em nossa Credencial de Peregrino, o que só poderia ser feito na prefeitura. As pessoas a quem perguntávamos onde ficava a prefeitura, nos diziam que não adiantava ir lá por que, como era sábado, estava fechada e só abriria na segunda-feira.

Eu estava no carro dirigido pela Mércia e ela nos propôs ir à prefeitura apesar do que ouvimos. Fomos e descobrimos que mesmo fechada haviam duas pessoas trabalhando lá dentro. Atendeu-nos uma funcionária chamada Begonia que nos levou à sua sala de trabalho, onde carimbou nossas credenciais e fez, durante cerca de uma hora, uma linda explanação sobre o significado de Fisterra no Caminho de Santiago. Acrescentou que, a partir daquele ano, Fisterra fazia parte, oficialmente, do Caminho. Até então, houve forte resistência da Igreja, devido à inevitável associação da cidade com os antigos ritos pagãos, mas os esforços da administração municipal acabaram vencendo esta resistência. Finalmente fomos brindados com um certificado de chegada "a estas terras da Costa da Morte e fin do Camiño". Como o resto do grupo, ocupantes do outro carro, não estava ali, Begonia pediu que falássemos com eles que poderiam procurá-la em sua casa, perto dali, após as 23h.

Alguns quilômetros afastado da cidade fica o cabo Finisterre, nome derivado do latino Finis Terrae, gerado pela crença de tratar-se do fim da terra, pois é o ponto extremo oeste da Europa. Lá existe um grande farol, que tornou-se um ponto turístico devido à sua localização. Ao chegarmos encontramos muitos turistas, estando a maioria concentrados numa área pedregosa um pouco abaixo da base do farol. Parecia que aquele local não estava muito distante do mar e bastaria descer mais um pouco para chegar à água. Resolvi descer. Era uma encosta íngreme, muito irregular, praticamente sem vegetação. Após descer por algum tempo, notei que o mar parecia estar à mesma distância de antes. Olhei para cima e vi que já havia descido uns 30 metros. À minha frente estava um grande degrau vertical impossível de descer contando apenas com as mãos e os pés.

Deslocando-me um pouco para um lado, percebi uma possibilidade de contornar o degrau e continuei descendo até chegar a um novo degrau. Olhei o mar e não parecia estar mais perto. O meu ponto de partida havia desaparecido e perdi o referencial para estimar quanto já tinha descido. Reavaliei o meu intento de chegar até o mar. Evidentemente a distância que faltava ainda era bem maior que a prevista quando iniciei a descida e ainda não dava para saber quanto. Estava sozinho quando resolvi descer e não falei com ninguém, portanto meus companheiros não sabiam onde eu estava. Alem disso, a idéia de ir até a água começou a me parecer um tanto infantil. Mas e daí? Estava mesmo sentindo-me feliz como uma criança num lugar novo, cheio de recantos para descobrir.

Então estabeleci um limite de 10 minutos para visualizar a distância real que faltava. Se isto não ocorresse neste tempo ou se visse que era muito longe, voltaria de onde estivesse. Continuei descendo, sempre procurando contornar os sucessivos degraus. Antes do prazo comecei a ver a espuma das ondas batendo nas pedras. E não estava muito longe. Finalmente, depois de mais alguns minutos, alcancei um ponto onde as ondas chegavam já sem força e pude tocar a água sem perigo de ser lambido pelo oceano. Lavei as mãos e o rosto e, contente com ter conseguido o desejado, iniciei o caminho de volta.

Juntei-me aos outros e voltamos à cidade para comer alguma coisa e mais tarde retornarmos ao farol. Fomos a uma hospedaria, indicada pela Begonia e alugamos os quatro quartos disponíveis. Eram 2 quartos com 2 camas, 1 com 3 camas e 1 com 1 cama, somando as oito camas que precisávamos. Propus ficar com o quarto individual, o que foi aceito por todos, pois já conheciam o meu ronco. Com um lugar para dormir já garantido, retornamos ao farol. Lá chegando, o grupo se dividiu. Alex, Lila e Luiz foram para um ponto um pouco afastado do farol. Eu, Sérgio, Mércia, Sílvia e Emerson ficamos onde já tínhamos ficado à tarde.

Enquanto esperávamos o pôr do sol, realizamos o ritual de queima das roupas usadas na peregrinação. Estava ventando muito e foi preciso encontrar um lugar protegido para acender o fogo. Usamos as reentrâncias de uma parede natural de pedras sobrepostas onde fizemos pequenas fogueiras com as roupas que levamos para queimar. Eu quis queimar somente o colete feito pela Lúcia, usado praticamente em todos os dias no Caminho. O Emerson queimou as coisas dele num local mais exposto ao vento e ficou alimentando o fogo com tudo que encontrava possível de queimar. Já o Sérgio não sentiu vontade de queimar nada naquela ocasião.

Eram 22h30min e o sol aproximava-se da linha do horizonte. Estava levemente perceptível por traz de uma camada de nuvens que torcíamos para que se dispersasse, pois queríamos ver o sol mergulhando no mar e fazer fotos desse momento. Finalmente, a poucos minutos do ocaso, ele surgiu abaixo da faixa de nuvens, tingidas de vermelho e em pouco tempo tocou o oceano, desaparecendo rapidamente. Em seguida, juntamo-nos aos outros e fomos de carro para um ponto mais alto, afastado do farol, onde eles queriam queimar suas roupas. Chegamos a uma grande área plana, onde haviam montes de papelão, madeiras e móveis quebrados. Longe desse lixo, as roupas a serem queimadas foram reunidas. Desta vez, o Sérgio aderiu colocando no monte todas as suas roupas de peregrino, inclusive as botas.

Ficamos conversando e olhando o fogo consumir aqueles objetos impregnados de suor, poeira e emoções do Caminho de Santiago. Aos poucos fui me desligando da conversa e minha atenção ficou totalmente voltada para as chamas. Senti que aquele era um momento mágico que jamais esqueceria. Pensei no quanto foi importante para mim realizar a peregrinação, que não fiz como meio de obter alguma coisa, mas como um fim em si mesma. E mais uma vez agradeci a Deus por tudo que passei e contribuiu para me levar até ali.

Em torno de nós a noite havia descido mansamente. Estávamos agrupados num semicírculo que as poucas chamas restantes mal clareavam. Lamentei a ausência da Lila que ficou no carro com dor de cabeça e no estômago. Olhei carinhosamente aqueles companheiros e, bastante emocionado, agradeci mentalmente a cada um deles pelos muitos momentos compartilhados ao longo do Caminho. Quando o fogo se extinguiu, entramos nos carros e retornamos à hospedaria. Levamos nossas mochilas para os respectivos quartos e saímos para comer, exceto a Lila que continuava sentindo-se mal e o Luiz que ficou cuidando dela. Depois de tomar uma deliciosa sopa de pescado, optei por ir dormir enquanto os outros foram a um outro bar para esperar a hora de uma festa que haveria na cidade.

Fisterra - 21/06/1998 - Domingo.

Pouco antes das 7h acordei com a Mércia batendo na porta. Eu, Mércia, Emerson e Sílvia queríamos ir à missa das 10h na Catedral em Santiago de Compostela e tínhamos que andar rápido, pois a viagem dura perto de duas horas. Os outros continuaram dormindo. Chegamos em Santiago às 9h30min. Tomamos um café rápido e fomos para a Catedral. Faltavam 10 minutos para começar a missa. Os padres estavam cantando algo que me pareceu um canto gregoriano. Era muito lindo. Às 10h começou a missa que foi toda cantada com acompanhamento dos órgãos. A catedral dispõe de dois imensos órgãos com um som espetacular. Fiquei muito emocionado a missa toda. Quando acabou, fui para a frente da igreja e encontrei Fátima, Andrea, Fernanda, Hiroko e Carl que estavam chegando naquele momento.

Perdi o contato com este grupo vários dias atrás e senti grande alegria por vê-los chegando. Já estava emocionado com a missa e juntando com a emoção de reencontrá-los na chegada à catedral, foi emoção demais. Abracei-os chorando. Mais tarde chegaram Ana e Conceição mas aí eu já estava emocionalmente mais equilibrado e não houve choradeira. Saindo dali, fui com a Mércia almoçar no refeitório de peregrinos do restaurante Parador, ali ao lado. Depois chamamos Emerson e Sílvia para ir até Monte do Gozo fazer umas fotos antes de entregar o carro. Fotografamos o grande monumento moderno no topo do monte e um outro monumento representando peregrinos em êxtase no ponto onde se avista a cidade de Santiago de Compostela.

Era preciso encher o tanque do carro antes de entregá-lo e como não há posto de gasolina no centro da cidade, perguntamos a alguém onde encontraríamos um. Seguindo a informação recebida fomos parar numa auto-estrada sem retorno próximo. Tivemos de rodar quase 30 km indo e outros tantos voltando e ainda pagar dois pedágios. Finalmente enchemos o tanque pouco antes de entrar de novo na cidade e deixamos o carro onde a locadora o pegaria depois. Voltei à pensão da primeira noite e fiquei com um quarto melhor e mais barato. Depois fui à catedral numa hora de menor movimento para visitar o Sepulcro de Santiago e outros pontos importantes que ainda não tinha visto.

Eu ainda tinha uma missão importante a cumprir. Precisava entregar uma carta destinada ao Apóstolo Santiago. Minha filha lhe escreveu uma carta e encarregou-me de faze-la chegar ao seu destino. Nós vimos numa reportagem na televisão um peregrino chegando à Catedral com várias cartas enviadas por parentes e amigos ao Apóstolo e imaginei que houvesse algum lugar designado para colocá-las. O Sepulcro era cercado de grades e não vi nenhuma indicação de que alguém deixasse algo ali. Procurei por toda a igreja e não encontrei nenhuma caixa de correspondência de Santiago nem alguém que soubesse me informar.

Na saída encontrei Zapatones que conhece bem as atividades da Catedral. Ele disse que não havia um lugar destinado para as cartas a Santiago e se ofereceu para entregar ao padre no dia seguinte. Entreguei-lhe a carta e em seguida me pediu para acompanhá-lo até um bar próximo pois queria me apresentar a um casal de peregrinos. No bar apresentou-me a Marc e Yara Gerder. Ele era um diplomata suíço, em férias, na época prestando serviço em Gana. Yara era brasileira e casada com Marc há dez anos. Eram muito simpáticos e entrosamos um animado bate papo, facilitado pela fluência do Marc no idioma português. Zapatones, que tinha nos deixado logo após a apresentação, retornou trazendo a Mércia para juntar-se a nós. Ficamos conversando até quase oito horas, quando eu e Mércia fomos jantar no Parador.

Após o jantar, voltamos a nos encontrar com Marc, Yara , Zapatones e mais alguns brasileiros. Fomos a uma das mais tradicionais adegas de Santiago, onde Marc nos ofereceu uma garrafa de excelente vinho que degustamos com mais algumas. O mestre de vinhos da adega deu muitas explicações sobre qualidade de vinhos e depois nos ofereceu licor da casa. Já passava de meia-noite quando saímos da adega levando duas garrafas de vinho para beber na praça, em frente à Catedral. No grupo estavam Zapatones, Marc, Yara, Mércia, Sérgio, Luiz, Alex, Lila, Emerson e eu. Zapatones nos mostrou, marcadas no chão da praça, as rotas de chegada à Catedral dos Caminhos Português e Francês e o seu ponto de encontro, chamado Marco Zero. Falou-nos sobre diversos simbolismos presentes na praça e na catedral, nas tradições nascidas nos tempos antigos, algumas em desuso e outras ainda praticadas.

Ouvíamos suas palavras com atenção e respeito, pois estávamos diante de um homem que desde a infância esteve envolvido com o Caminho de Santiago. Ele nasceu naquela cidade e cresceu vendo a chegada e ouvindo histórias de peregrinos. Em decorrência de seu trabalho na administração da rede de albergues, já percorreu o Caminho dezenas de vezes nos últimos 18 anos. Contou-nos também que estava doente, com câncer nos ossos, e não sabia por quanto tempo ainda poderia trabalhar pelo Caminho. A conversa estendeu-se até as duas horas da manhã. Alguém teve a idéia de formarmos uma vieira com os nossos corpos deitados no chão, ali junto ao Marco Zero, para uma fotografia. Com o Luiz orientando o posicionamento de cada um, procuramos desenhar a vieira, símbolo do peregrino de Santiago de Compostela e pedimos a um rapaz que estava perto dali para bater algumas fotos. Pouco depois, encerramos aquela singular reunião com todos em círculo, de mãos dadas, rezando o Pai Nosso e a Ave Maria.

Embora não percebesse, aqueles momentos encerravam, para mim, o Caminho de Santiago. Ali começaram as despedidas, pois alguns iniciariam o caminho de volta na manhã seguinte. Trocas de endereço, votos de boa viagem, promessas de cartas, olhos molhados, gargantas apertadas. Dispersamo-nos, cada um para sua cama. Cheguei ao meu quarto com uma pergunta persistindo em meus pensamentos. A mesma pergunta que tanta gente me fez no Brasil e ao longo do Caminho e para a qual ainda não tinha uma resposta precisa. O que eu buscava no Caminho de Santiago de Compostela?

Não sabia a resposta mas percebia que o Caminho tinha para mim um sentido oculto, representava alguma coisa sutil que relutava em aflorar no meu consciente. Eu estava ali atendendo a um chamado. Preparei-me durante 4 anos, caminhei quase 800 quilômetros e cheguei onde devia chegar. Para que? O que havia no fim do Caminho? Como seria minha vida dali em diante? Certamente o Caminho não se resumia a chegar àquela cidade e visitar o túmulo do Apóstolo. Sentia que o Caminho era um rito de passagem, era mais uma ponte para outra fase de minha vida. Mas não vislumbrava uma mudança marcante. Havia o sentimento de que poderia ousar mais, estaria mais disposto a enfrentar e superar dificuldades, meus horizontes ampliaram-se e experimentava o sabor de estar mais envolvido com as coisas do espírito.

O somatório das diversas pequenas mudanças poderia determinar uma grande mudança, mas só um distanciamento no tempo permitiria uma boa avaliação. Ninguém passa incólume por uma experiência como essa e, sem dúvida, eu já não seria o mesmo homem que entrou um pouco assustado naquele avião cinco semanas atrás. Restava esperar para ver o resultado. Considerei que minha tarefa estava cumprida, o sonho realizado, a meta atingida. A partir da manhã seguinte seria mais um turista andando pelas ruas de Santiago de Compostela. Compraria alguns "recuerdos" para amigos e parentes, iria até Portugal, ali tão perto que não poderia perder a oportunidade, e voltaria para casa, cheio de saudade e de histórias para contar.