Livro Completo
Sahagún a Mansilla - 06/06/1998 - Sábado.

João Luiz disse que pretendia parar em Reliego, pouco antes do término da 2a etapa que pretendíamos completar neste dia e saiu do albergue antes de mim. O Caminho estava bastante fácil. A partir de Calzada del Coto, 5 km após Sahagún, o Caminho segue por uma pista de terra compactada, especialmente preparada para os peregrinos, que se estende por 32 km, chegando a Mansilha de las Mulas.

É confortável andar numa pista de terra toda certinha, sem ressaltos nem buracos. Alem disso a cada quilômetro há um banco de pedra para descansar. Indo sem pressa e descansando bastante, já que andaria 36 km neste dia, cheguei às 12h a El Burgo Raneros, final da 1a etapa do dia. O albergue estava deserto mas aberto. Entrei e peguei o livro de notas para ler. Encontrei um recado para a Conceição deixado pelo grupo de brasileiros do início do Caminho, dizendo que estavam indo neste dia para Mansilla de las Mulas, final da 2a etapa que eu pretendia fazer. Deixei também um recado para Conceição e fui conhecer o resto do albergue.

O albergue era muito agradável, com instalações novas e confortáveis. Deitei numa das camas e dormi até as 13h15min. Levantei e fui almoçar num restaurante próximo. Depois do almoço, senti vontade de ficar naquele albergue tão simpático, mas a vontade de alcançar os outros brasileiros foi maior. Como o hospedeiro ainda não tinha chegado, carimbei eu mesmo a credencial e às 14h45min recomecei a caminhar, chegando ao albergue de Mansilla de las Mulas às 19h. Nesta 2a etapa do dia estive totalmente a sós com meus pensamentos e recordações. É incrível com vêm à mente lembranças de fatos esquecidos e sem importância a nível de consciente. A saudade de casa era imensa. Senti vontade de telefonar mas só pensar em falar com alguém em casa já me fazia chorar, tal o estado emotivo em que me encontrava.

No albergue encontrei os brasileiros conhecidos: João Luiz, Paulo Roberto, Sandra, Vera, Alexandre e Lila e mais alguns que eu não conhecia: Fátima e Ana de Recife, Luiz Carlos de Belo Horizonte, as primas Andrea e Fernanda de São Paulo e Hiroko, uma japonesa de olhar meigo e sorriso doce, estudante de espanhol, que se agregou ao grupo de brasileiros. Sentia-me muito cansado. Tomei banho, jantei e fui dormir. Um grande grupo estava no pátio cantando e brincando, animados pela jovem hospedeira Laura, uma garota muito divertida. Deu vontade de participar da brincadeira, mas não tive ânimo. No dia seguinte fiquei sabendo que a farra foi até as 2h.

Mansilla de las Mulas - 07/06/1998 - Domingo.

A etapa deste dia seria curta, apenas 17 km até León. Saí do albergue por volta de 8h e às 11h30min estava na porta do albergue de León. É um albergue provisório que funciona (ou quase) numa escola dirigida por freiras. Quando cheguei uma das freiras disse que poderia deixar a mochila num aposento perto da entrada e que os peregrinos só seriam atendidos depois da missa que haveria ao lado, no mesmo prédio, às 12h.

Peguei na mochila um pacote de torradas de pão com alho e fui comer num bar próximo com um copo de cerveja. Peguei a cerveja no balcão e sentei-me numa das mesas. Daí a pouco, o homem do balcão levou-me algo numa pequena tigela e disse que era um brinde. Não identifiquei logo o presente. Parecia sardinha em conserva, mas poderia ser também um outro tipo de carne. Considerando que não como outros tipos de carne alem de peixe, levantei e fui até o balcão perguntar o que era. Ele disse que era peixe. Agradeci e voltei à mesa. Era realmente sardinha e estava gostosa, apesar de apimentada.

Às 12h começou a missa, muito bonita, toda cantada pelas freiras. Terminou às 13h. Depois da missa eu e mais outros peregrinos esperávamos ser atendidos e encaminhados ao dormitório, mas só meia hora depois uma freira nos disse que a hospedeira só chegaria às 16h e que até lá teríamos que ficar na rua. Como tinha roupa para lavar, perguntei se poderia lavar e deixar pendurada no pátio para ir secando. Ela disse que sim e mostrou-me onde lavar: um banheiro ao lado do local onde estavam as mochilas.

O comércio estava quase todo fechado por ser Domingo e eu precisava comprar alguma coisa para o café da manhã seguinte até as 14h, quando fechariam os locais que ainda estivessem abertos. Faltavam 10 minutos para as 14h quando acabei de lavar as roupas. Não dava tempo de pendurar para secar. Saí para comprar o que precisava e quando voltei a freira estava fechando a porta e não me deixou pendurar a roupa no pátio. Então levei a roupa para a rua e a estendi na praça em frente ao albergue.

Pouco depois apareceu o João Luiz. Ele chegou bem antes de mim ao albergue e saiu para andar pela cidade. Já havia almoçado e bebido sozinho uma garrafa de vinho. Conversamos um pouco e ele lamentou que não veria mais a Conceição. Eu disse: "Quem sabe? O Caminho é cheio de surpresas." Estava lembrando-me que quando me despedi da Conceição, pensei que provavelmente não nos veríamos mais. Pensei mas não senti isso.

Finalmente às 16h15min apareceu uma senhora que abriu o albergue, recolheu as nossas credenciais e mostrou-nos onde poderíamos dormir e tomar banho. O dormitório consistia de um grande salão onde haviam algumas pilhas de colchões. Cada um deveria pegar um deles e escolher um lugar no chão para preparar sua cama. Arrumei minhas coisas em um canto e fui tomar banho. Ponto positivo para o albergue: tinha chuveiro de verdade, embora em boxes muito apertados.

Quando saí do banheiro tive a grata surpresa de encontrar a Conceição conversando com o João Luiz e outros brasileiros, todos muito felizes com o reencontro. A Conceição é uma dessas pessoas que irradiam alegria e simpatia. É nordestina, 48 anos, casada, mãe de 3 filhos já adultos. Vive há 20 anos em Maringá, no Paraná. Apesar de fortes dores nas pernas, ela completou 2 etapas em 1 dia para nos alcançar.

Saímos em grupo para jantar. Fomos a um restaurante chinês. Éramos 6 brasileiros e a japonesa Hiroko. Depois juntou-se a nós um inglês cujo nome não me lembro. Comemos muito. Eram muitos pratos diferentes. Saímos do restaurante quase às 22h. Eu ainda queria ligar para casa pois já havia tentado 2 vezes e ninguém atendeu. Consegui falar com Gabriel e conter a emoção. Lúcia e Paula não estavam.