Livro Completo
León a Rabanal - 08/06/1998 - Segunda-feira.

Às 7h30min uma freira botou na rua os peregrinos que ainda estavam no albergue e fechou a porta. Não deu nem para comer alguma coisa antes de sair. Fiquei com o grupo que queria comprar algumas coisas. Alexandre mal podia andar de tanta dor na planta dos pés. Não tinha bolhas, a dor era interna. Ele queria comprar um remédio sugerido por alguém e palmilhas novas para as botas. Conceição queria comprar uma sandália. Vera precisava de uma mochila nova e Fernanda de tênis.

Como as lojas só abrem a partir de 9h, fomos tomar café numa cafeteria. De passagem fomos olhando as vitrines das lojas fechadas. Encontramos as sandálias que a Conceição queria e esperamos a loja abrir. Resolvi comprar também pois as minhas já estavam dando sinais de que não durariam muito e eram de couro, pesadas. As novas sandálias eram de espuma, levíssimas e confortáveis.

Depois da compra, eu e Conceição passamos no albergue para pegar minha toalha que esqueci ao sair e em seguida pegamos o caminho de saída da cidade. Encontramos o Alexandre que já havia comprado as palmilhas e o remédio e seguimos os 3 juntos. Eu estava procurando uma cabine telefônica para ligar para casa e quando encontrei eles seguiram. Telefonei e falei primeiro com Gabriel que atendeu e depois com Lúcia. Enquanto falava consegui me controlar mas depois que desliguei, o choro reprimido irrompeu forte, levando algum tempo para parar.

Saindo da cabine, andei rápido e alcancei a Conceição e o Alex que andavam devagar. Demoramos ainda uns 30 minutos para sair da cidade. Depois que saímos rezamos o terço e cantamos várias músicas. Fomos juntos até o santuário de Virgen del Camino, onde nos separamos. Optei por seguir pela estrada mas Alex e Conceição preferiram seguir as setas. Fui direto e sozinho pela estrada até Villadangos del Páramo. Aos poucos os brasileiros foram chegando. Não chegaram Ana, Andrea, Fernanda, Hiroko e o João Luiz que foi direto para Hospital de Órbigos, 12 km adiante.

Villadangos del Páramo - 09/06/1998 - Terça-feira.

Levantei às 6h. Alex estava muito melhor. O remédio e as palmilhas funcionaram. Tomamos café e nos preparamos para sair. Senti vontade de andar sozinho e fui deixando todos saírem, ficando ali até as 8h30min. Como o início do caminho era bastante fácil, preferi caminhar de sandálias para poupar os pés do aperto da bota, já que a etapa deste dia seria de 27,5 km até Astorga.

ndei sem parar até Puente de Órbigo, onde fica a famosa ponte chamada El Paso Honroso que considero um dos pontos mais importantes do Caminho. Lá chegando, tirei as sandálias e as meias para atravessá-la descalço e bem devagar. Esta ponte tem cerca de 150 metros de comprimento e há uns 550 anos foi palco de um grande feito guerreiro para conquistar o amor de uma dama. Pisar aquelas pedras me deu uma sensação muito boa. Senti-me feliz e energizado. Após atravessar a ponte, calcei as sandálias e dirigi-me a um grande bar próximo dali.

Lá tomei café e carimbei a credencial. Depois fiquei algum tempo andando por ali, fazendo fotos e apreciando aquele belo monumento. Depois tirei as sandálias e calcei as botas para seguir em frente, Do bar vi passar sobre a ponte o Alex, mancando de novo, Conceição, Lila e Fátima. Gritei Olá!. Eles me viram, acenaram e seguiram. Eu estava achando aquele lugar tão agradável que me deu pena eles não pararem um pouco. Aquela ponte não era como as outras. Tinha um encanto especial que me prendia docemente e evocou-me um poema de Carlos Drumond de Andrade, chamado No meio do caminho, em que o poeta fala de um encontro inesquecível com uma pedra. Aquele era um encontro inesquecível para mim e substituindo pedra por ponte e trocando algumas palavras, cometi o atrevimento de re-escrever os versos do mestre, com o devido respeito. Ficaram assim:

Tributo a Carlos Drumond de Andrade

No meio do Caminho tinha uma ponte,
Uma ponte entre tantas no Caminho.
Mais uma ponte
No meu Caminho de tantas pontes.
Nunca me esquecerei desse descobrimento
Na minha vida de buscas apaixonadas.
Nunca me esquecerei que no meio do Caminho
Tinha uma ponte,
Testemunha do amor mais forte que o tempo.
E que era uma ponte o próprio Caminho.

Eu não sentia vontade de ir embora. Pedi outro café com leite e conversei ainda um pouco com o dono do bar que faz parte da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago e me deu 2 postais de presente. Quando finalmente saí dali, encontrei o Paulo Roberto, sentado num banco na pracinha, logo após a ponte. Parei ali e resolvi procurar uma farmácia para comprar esparadrapo, pois eu havia sentido que precisava proteger a sola dos pés. Comprei também umas frutas num mercadinho e, com a planta dos pés reforçada, segui as setas do Caminho, enquanto o Paulo Roberto optava por voltar um pouco atrás e pegar a estrada.

Segui só e muito bem disposto até o albergue de Astorga, tendo feito apenas uma parada para descanso e comer as frutas compradas em Hospital de Órbigos. Chegando ao albergue, surpreendia-me como estava me sentindo bem, sem nenhuma dor e nem sinal de cansaço. Parecia que seria capaz de refazer todo o percurso daquele dia com a maior facilidade. Uma das moças sumidas chegou lá à tarde e as outras três à "noite" (9h mas ainda dia claro). Todas haviam se desviado da rota na véspera e passaram a noite numa cidade fora do Caminho.

Astorga - 10/06/1998 - Quarta-feira.

Saí do albergue às 7h50min sozinho. Ficaram poucos peregrinos: as brasileiras Fernanda e sua prima Andrea, a japonesa Hiroko e o escocês Carl que não desgrudava mais da Fernanda, o que era muito compreensível. Ela, muito bonita e simpática, tinha 20 anos e falava inglês. Ele devia ter uns vinte e poucos anos e notava-se facilmente que estava caidão por ela. Logo após a saída da cidade encontrei a Ana que havia parado para vestir um agasalho, pois estava soprando um vento gelado. Seguimos juntos por alguns minutos. Fiquei sabendo que ela trabalha na Caixa Econômica Federal em Recife, onde também trabalha a Fátima que veio com ela.

Como ela andava devagar, logo nos separamos. Segui só praticamente todo o resto do percurso do dia. Estava sendo bom andar sozinho. Andava no ritmo mais adequado às minhas condições, parando quando queria ou precisava e curtia o Caminho. Era bom encontrar outros peregrinos nas paradas, tomar "café con leche" juntos e conversar. Mas na hora de botar o pé no caminho "me gustava más" ir só. Chegando em Rabanal del Camino, fiquei no albergue Guacelmo, na ocasião tendo como hospedeiras duas senhoras inglesas, muito dedicadas a dar aos peregrinos o máximo de conforto que as condições materiais permitiam, com uma grande dose de simpatia.

Quando tirei minhas coisas da mochila tive uma triste surpresa: tinha esquecido minhas sandálias novas em Astorga. Em Rabanal del Camino não havia onde comprar, então, apesar dos pés bem doloridos, tive que calçar novamente as botas depois do banho e ficar com elas até a hora de dormir. Naquele dia, houve o início da Copa do Mundo e assistimos o jogo Brasil x Escócia no restaurante perto do albergue.

O dia foi bastante frio. Apesar do sol, a temperatura estava baixa por causa do vento frio que não parou o dia todo. Depois do jogo, andei um pouco pelo pueblo e fiz algumas fotos. Não fossem os pés doloridos e o frio, andaria mais olhando as casas de pedra de idade indefinida. Parecia que sempre estiveram ali, tão velhas como o vento. Logo após o jantar fui dormir. A etapa seguinte seria longa e de muita subida. Precisava estar descansado.

Rabanal del Camino - 11/06/1998 - Quinta-feira

Este foi um dos dias mais cansativos do Caminho. Do grupo de brasileiros, fui um dos primeiros a deixar o albergue. Creio que só a Sandra e a Vera saíram antes de mim. Elas sempre saíam muito cedo. Viajaram para a Espanha juntas e ficavam juntas o tempo todo.

Não posso deixar de citar o desjejum oferecido pelas hospedeiras. Foi espetacular. Café com leite, ovos fritos, um pão caseiro fantástico, geléias de frutas, manteiga, tudo servido com muito amor e carinho. Elas deviam estar na cozinha desde as 4h da manhã para dar tempo de assar aquele pão que ainda estava quente quando nos sentamos à mesa.

Na saída do albergue já deu para sentir o que nos esperava. Havia um vento gelado que não parava um instante. Logo após sair do pueblo, o Caminho seguia acompanhando a estrada, subindo sempre. Baixou uma névoa que parecia aumentar o frio. Senti minhas mãos endurecendo, apesar das luvas. O primeiro pueblo a atravessar era Foncebadón, um monte de casas em ruínas, temido por todos os peregrinos por causa dos cães que vivem lá e às vezes atacam.

Eu ainda não havia percebido a aproximação daquele lugar sinistro, quando surgiu uma placa indicando que estava entrando nos limites de Foncebadón. Embora a curva da estrada não me permitisse ver, sabia que uns cem metros na minha frente ia um alemão já bem idoso, mas de excelente forma física. Uns cinco minutos antes eu havia ultrapassado dois peregrinos que pararam para urinar.

Percebendo que estava chegando em Foncebadón, senti vontade de acelerar para alcançar o alemão e atravessar com ele a área perigosa, mas logo percebi que não teria pernas para isso. Parar para esperar os dois que vinham atrás também não era boa idéia pois poderiam demorar e ficar parado naquele frio era impossível. O jeito era ir em frente. Parecia cena de filme de terror. O vento, a névoa, as ruínas, o medo de aparecer a qualquer momento um grupo de cães ferozes...

Me ocorreu que o frio que eu sentia devia estar mantendo os cães encolhidos em algum canto protegido do vento e que se não fizesse barulho, passaria sem ser notado. Foi o que aconteceu. Dei graças a Deus pelo vento e pelo frio. Continuando a subida, agora com nevoeiro mais denso, cheguei à Cruz de Ferro. É um monumento espantoso na sua simplicidade. Uma cruz de ferro com 1 metro ou pouco mais de altura, em cima de um poste tosco e já bastante carcomido pelo tempo. Em sua base acumulam-se pedras colocadas pelos peregrinos ao longo de séculos.

Quando cheguei havia um grupo em cima das pedras posando para uma fotografia. Era uma imagem muito interessante. Coloquei a mochila no chão e peguei a máquina o mais rápido que pude mas não deu tempo. Eles desceram e se afastaram. Chegando mais perto, vi que a Sandra e a Vera estavam ali também e já iam saindo. Eram as duas únicas conhecidas. Pedi à Vera para subir comigo nas pedras e a Sandra nos fotografou lá em cima. Duas pessoas não iriam compor a mesma imagem que um grupo mas seria melhor que uma só.

Eu havia levado de casa o Poema de Amigo Aprendiz, de autoria do padre Zezinho, em versão espanhola, impresso em grandes letras e plastificado para resistir bastante tempo exposto a sol, vento e chuva, com o intuito de deixá-lo ali na Cruz de Ferro. No entanto, desde o início do Caminho, senti que aquele papel plastificado destoaria do ambiente. Chegando ali, tive certeza de que não deveria deixá-lo e resolvi levá-lo para outro lugar.

Pouco adiante a estrada começou a descer e cheguei à Manjarin, outro conjunto de ruínas, habitado somente por dois homens, Tomás, espanhol e Joaquim, português, que ali mantém um refúgio sem luz elétrica e sem água encanada, oferecendo aos que passam um ambiente aquecido por lareira, um café quente e uma conversa entusiasmada sobre o Caminho. Este refúgio ficava em um local protegido do vento e o sol já tinha aparecido algumas vezes mas o termômetro marcava quase 70 C. Deduzi que lá na Cruz de Ferro a temperatura devia estar em 3 ou 4 graus. Ali tomei, com muito prazer, um café muito parecido com o de casa, pois sem energia elétrica, não tinham máquina de café expresso, encontrada em todos os bares onde entrei.

A estrada, bastante sinuosa, continuava descendo entrecortada pelo caminho indicado pelas setas. Optei por seguir direto pela estrada que tinha pouco trânsito e era margeada ora por matas verdes, ora por colinas ou grandes depressões. Como a descida era constante, havia uma tendência natural de andar mais rápido, dando passos mais largos. Isso teve como conseqüência assaduras entre as nádegas que começaram a me incomodar na chegada à Molinaseca, 13,5 km depois de Manjarin.

Em Molinaseca encontrei Sandra e Vera. Compramos coisas para comer e paramos numa bonita praça para um merecido descanso. Cerca de 30 minutos depois recomeçamos a andar. Havia um albergue em Molinaseca e, devido às assaduras, pensei em pernoitar ali em vez de seguir até Ponferrada, final previsto da etapa daquele dia. Paramos no albergue que era particular e fomos atendidos por um homem que devia ser o dono e estava na entrada.

Ainda não tinha decidido se ficava ali ou se continuava. Perguntei ao hospedeiro como eram as instalações do albergue de Ponferrada e ele ficou balançando a cabeça, torcendo o nariz, fazendo gestos com as mãos e dizendo que eu poderia entrar para ver o albergue dele mas que não diria nada sobre o outro. Achei a atitude dele muito antipática e totalmente contrária à filosofia de trabalho adotada em todos os albergues. Então decidi ir em frente. Não ficaria ali mesmo que soubesse que o outro seria péssimo. Sandra e Vera também seguiram.

Pouco adiante nos separamos e cheguei a Ponferrada sozinho. Esta é uma cidade grande e custei a encontrar o albergue que tinha boas instalações e duas pessoas maravilhosas como hospedeiros: Mariluz e seu marido Jan. Ela é venezuelana e ele holandês. Eles fizeram o Caminho há alguns anos começando na Holanda. Caminharam 2.400 km em 3 meses e meio e sabem muito bem o que é ser peregrino. Recebiam a todos com muito carinho, esforçando-se para nos dar o máximo que as condições permitiam.

Após me instalar, lavei a roupa e saí para comprar uma sandália, pois estava me fazendo muita falta. Pena que saí sem máquina para fotografar os pontos interessantes. Gastei mais de uma hora para encontrar sandálias semelhantes às que havia comprado em León e voltar ao Albergue. Quando voltei, passei pelo Castelo dos Templários, um local muito importante do Caminho, mas minhas assaduras não me permitiam entrar para vê-lo. Depois de um bom banho, jantei perto do albergue com vários peregrinos, inclusive o Zé Maria, que não via há vários dias.