Livro Completo
Ponferrada a Portomarin - 12/06/1998 - Sexta-feira.

A etapa deste dia seria até Villafranca del Bierzo, 23 km de caminho fácil. Procurei andar sem esticar os passos para não repetir o problema da véspera e tudo correu bem. Cheguei a Villafranca às 14h30min. Pretendia ficar no albergue da família Jato, citado no livro do Maqui, mas este albergue estava funcionando precariamente com cobertura de plásticos. Ao lado estavam construindo ou recuperando um prédio onde funcionará o novo albergue.

O albergue municipal, recém construído, era excelente. Tudo estava novinho, tinha cozinha, 2 refeitórios bem amplos e ótimos banheiros. O curioso dos banheiros nos albergues é que não costumavam ter saboneteira e cabides. Alguns tinham cabides, geralmente afastados dos boxes, mas saboneteira, só tinha visto em um até aquele dia. Alem disso, raramente havia chuveiro fixo na parede. O que se usava mais era uma ducha parecida com a que se usa no Brasil junto ao vaso sanitário, porem um pouco maior, com um suporte na parede, no alto, para prender a ducha. Freqüentemente este suporte estava quebrado ou não se conseguia prender a ducha numa posição adequada. Neste albergue, como as instalações eram novas, tudo funcionava bem.

Já eram quase 18h quando consegui colocar o diário atualizado. Só então saí para comer e comprar alguma coisa para o desjejum do dia seguinte. Encontrei a Vera e a Sandra e fomos tomar um chope. Queríamos comer alguma coisa para acompanhar o chope e o bar não tinha nada que nos agradasse, até que o rapaz que nos atendia sugeriu azeitonas recheadas com mariscos. Achamos a idéia ótima e ele abriu uma lata para nós. Era realmente um petisco delicioso.

Villafranca del Bierzo - 13/06/1998 - Sábado.

A etapa de Villafranca ao Cebreiro é considerada uma das mais duras do Caminho. Não é das mais extensas, sendo de apenas 28 km mas tem um longo trecho de subida bem íngreme. No início do caminho há 2 opções: ir pela trilha e fazer uma subida muito longa e difícil e depois uma descida também longa e cansativa até a cidade de Trabadelo ou seguir pela estrada numa subida suave e constante até aquela cidade. A 1a opção oferece paisagens lindas e um contato mais íntimo com a natureza. Mas escolhi a 2a opção, pensando na parte final que seria muito dura.

Acordei às 6h e me arrumei para sair. Dos brasileiros, só a Sandra e a Vera haviam levantado. Fizemos o desjejum juntos e logo depois elas saíram. Ainda demorei uns 30 minutos para sair. Quando saí os outros brasileiros estavam comendo. Os irmãos Dario e Zélia também já tinham saído. Segui sozinho até próximo a Trabadelo, quando encontrei Dario e logo depois, Zélia.

Até chegar ao ponto onde os encontrei, vinha tentando entender uma coisa estranhíssima. Eu tinha a nítida impressão de que a estrada estava descendo. E a estrada acompanhava a margem do rio Valcarce. Observei que a água do rio seguia em sentido oposto ao meu. Se eu estava descendo, então o rio estava subindo a montanha, o que é fisicamente impossível. Parei e fiquei olhando a água, confirmando o sentido em que ela ia. Olhei a estrada e não tinha dúvidas de que descia.

Continuei andando buscando desesperadamente uma explicação razoável e não encontrava. Parei novamente e, vencendo todos os meus escrúpulos ecológicos, atirei uma garrafa de plástico dentro do rio para ter certeza absoluta da direção da água. Lá se foi a garrafa boiando, "subindo" a montanha. Pensei em entornar água do cantil na estrada para ver para onde ela correria, mas o cantil estava na mochila e seria muito trabalhoso fazer isso. E para mim era evidente que a estrada descia. Até pela facilidade de caminhar eu sentia que era uma descida.

Quando saí desta estrada para pegar uma secundária de acesso a Trabadelo, parei para descansar e comer umas frutas. Pouco depois chegou o Dario que tinha vindo pela trilha e lhe contei o que me espantava. Ele me disse que Trabadelo situava-se numa altitude um pouco maior que Villafranca del Bierzo, portanto a estrada subia suavemente e ocorria um fenômeno de ilusão de ótica, dando a impressão de descida. Este acontecimento foi mais uma demonstração de como, tendo certeza de uma coisa, podemos estar errados. Por isso creio que devemos evitar a formação de paradigmas em nossa mente para não cair em armadilhas.

A partir de Trabadelo começou uma subida suave até Herrerias onde tornou-se bastante forte, prolongando-se até o Cebreiro. No meio dessa subida forte encontrei a Sandra e a Vera. Seguimos juntos durante algum tempo. Depois me adiantei um pouco até La Faba, onde encontrei a Zélia que tinha ido por um caminho mais curto e mais difícil com um grupo de espanhóis. Ela estava com muitas dores (tendinite nas duas pernas) e disse que não tinha mais condições de seguir. Tinha desistido de completar o percurso e ia telefonar chamando um taxi para tirá-la dali.

A subida ia ficando cada vez mais difícil. A fome também contribuía. Parei e comi chocolate enquanto apreciava a linda paisagem. Mais adiante passei pelo marco que assinala a entrada na Galícia. Pouco depois cheguei ao famoso O Cebreiro. O visual era espetacular. As poucas casas que formavam o pueblo eram de pedra, formando com a igreja um lindo conjunto arquitetônico. Era o primeiro pueblo galego no Caminho de Santiago e notava-se logo a mudança de idioma nas placas que a partir dali apareciam escritas em galego que é muito parecido com o português.

O albergue era muito bom. Quando cheguei a Zélia já tinha chegado de táxi. Dario também já estava lá. Vera e Sandra chegaram pouco depois. Alguns dos outros brasileiros chegaram mais tarde. Descansei um pouco depois do banho. A fome e o cansaço eram grandes. Comi um pedaço de chocolate e deitei um pouco. Mais tarde saí para ir até a igreja, fazer algumas compras e ver o resto do pueblo que não era muita coisa. Ventava demais. Notei que haviam vários ônibus de turismo parados num estacionamento e muitos turistas andando pelas ruas.

O Cebreiro - 14/06/1998 - Domingo.

Desisti de parar aos domingos. Neste dia a caminhada prevista seria até Sarria, a 36,5 km dali, cumprindo uma das etapas mais longas. Quando saí não sabia se iria até o final ou se pararia antes. O caminho era muito bom, quase todo em terra batida e alguns trechos por estradas secundárias de pouco movimento. Haviam muitos pueblos mas a maioria deles não passava de umas poucas casas e nenhum comércio.

Em Triacastela, que fica a pouco mais da metade do caminho, havia um grande bar-restaurante junto a um posto de gasolina. Resolvi parar e fazer um lanche. Enquanto estive ali vários peregrinos passaram e alguns pararam também. Fiquei ali por 40 minutos e segui. Andei devagar, parando bastante, sozinho quase o tempo todo. Cheguei em Sarria às 19h. Fiquei sabendo que alguns brasileiros resolveram pernoitar em Triacastela.

Quando cheguei ao albergue, vi no livro de registros o nome da Mércia que não via há duas semanas. Fiquei muito feliz com isso. Sandra e Vera que chegaram bem antes já a tinham visto. Depois que tomei banho, saímos para jantar e tentar encontrar a Mércia num restaurante onde achávamos que ela estaria. Não a encontramos e jantamos tarde e longe do albergue. Tivemos que voltar correndo, pois acabamos de comer em cima da hora de fechar o albergue. Eu estava com os pés muito doloridos e a Vera com dores nas pernas. A Sandra que estava em melhores condições, correu sozinha na frente e chegou ao albergue justo na hora em que a hospedeira saía e fechava porta.

Sarria - 15/06/1998 - Segunda-feira.

A etapa daquele dia iria até Portomarín, a 21,5 km de Sarria, e de acordo com o guia, passaria por 22 pueblos. Encontrei a Mércia no refeitório fazendo o desjejum. Conversamos um pouco e logo apareceu a Vera, já pronta para sair. Ela e a Sandra iam deixar para comer alguma coisa no primeiro bar que encontrassem. A Mércia acabou de comer e subiu ao dormitório. Ainda demorei um pouco comendo e quando subi para pegar a mochila não as vi mais. Deduzi que tinham saído juntas.

Pouco tempo após ter saído, alcancei uma peregrina que havia visto no albergue. Começamos a conversar e fiquei sabendo que chamava-se Mary, tinha 59 anos, era australiana e começou o Caminho em Paris. Naquele dia estava completando 100 dias de caminhada. Ela contou que começou em Paris porque sentiu o impulso de fazer o Caminho há 12 anos atrás, quando teve conhecimento de um grupo de peregrinos que há muito tempo reuniu-se na igreja de Santiago em Paris e de lá saiu em peregrinação até Santiago de Compostela. Ela quis fazer o mesmo percurso.

Estávamos conversando em espanhol, mas de vez em quando ela falava alguma palavra em português. Então lhe perguntei se falava português e ela disse que sim, pois havia morado no Brasil alguns anos no início da década de 60, fazendo estudos sociológicos, sendo obrigada a ir embora por ocasião do golpe militar de 1964. Andamos juntos uns cinco quilômetros, até que passamos por uma cabine telefônica e ela parou para telefonar. Eu também precisava telefonar mas ainda era muito cedo. Deixei-a e andei mais rápido. Queria parar num bar para tomar café mas até aquele momento não tinha visto nenhum, embora já tivesse atravessado vários pueblos.

Por volta de 12h, estava faminto e não havia encontrado nenhum bar. Comi uma barra de chocolate que era a única coisa que tinha e não parava de pensar na Sandra e na Vera que saíram do albergue em jejum. Finalmente às 14h30min cheguei a Portomarín, morto de fome e com os pés doloridos. O albergue estava fechado e tinha um aviso dizendo que abriria às 16h. Almocei num restaurante ali perto e esperei abrir. Enquanto esperava soube que 3 brasileiros haviam chegado cedo e seguiram em frente. Deduzi que eram Sandra, Vera e Mércia. Chegaram muitos peregrinos. Quando abriu, escolhi uma cama, espalhei minhas coisas e fui lavar a roupa. Então vi que havia máquina de lavar. Custava 300 pesetas e podia lavar 4 quilos de roupa. Juntei minhas roupas com de outras duas pessoas e lavamos tudo. Lavei até o casaco que já estava bem sujo.

Enquanto esperava a roupa ser lavada, chegou a Mércia. Fiquei surpreso, pois pensava que já estivesse longe dali. Ela contou que, de manhã, quando ficou pronta, não encontrou mais ninguém. Saiu sozinha e estava chegando naquela hora. Naquele albergue conheci o Emerson, de São Paulo e a Sílvia de Recife. Eles já conheciam a Mércia e a Mary, que ao chegar deitou para dormir um pouco. Preparamos uma surpresa para ela. O Emerson comprou uma torta e velas de aniversário com o número 100. Nós a acordamos e cantamos "Parabéns pra você". Ela ficou muito feliz, levantou e foi para a cozinha com a gente para cortar a torta. Poucas pessoas sabiam que ela estava completando 100 dias de caminhada e várias perguntavam se era aniversário de 100 anos.

Portomarín - 16/06/1998 - Terça-feira.

Saí do albergue às 8h15min junto com a Mércia. Quando saímos, Emerson e Sílvia estavam se aprontando e nos alcançaram depois, bem como a Mary. Fomos devagar e parando bastante, pois já sabíamos que até Santiago, todos os albergues só abririam às 16h. Isto nos permitiu encontrar e conversar com outros peregrinos. Em diversas paradas estivemos juntos com uma família espanhola e duas moças alemãs.

A família era composta por pai, mãe e filha. A filha aparentava uns vinte e poucos anos e a mãe pouco mais que trinta. Pareciam irmãs. O pai aparentava pouco mais que a mãe. Formavam, sem dúvida, uma família unida e feliz pois eram freqüentes as demonstrações de carinho entre eles. As moças alemãs, Bárbara e Cristiane, deviam ter entre 25 e 30 anos. Eram simpáticas e alegres. Uma delas, um pouco gordinha, ria de tudo que falava ou ouvia. A outra, mais magra, era econômica em palavras e risos, mas não chegava a ser sisuda.

A caminhada até Palas de Rei foi longa, divertida e sem cansaço. O albergue era excelente. Só faltou ter utensílios de cozinha para prepararmos um bom desjejum. Coisa difícil de entender: uma cozinha com fogão elétrico de 6 bocas, mesas, cadeiras, tudo novo e de boa qualidade e não tinha panelas, pratos e copos.