Livro Completo
Palas de Rei a Arca - 17/06/1998 - Quarta-feira.

Saí do albergue antes das 8h, após um frugal desjejum, pensando em ir até Arzua, 25 km adiante. Ao sair, notei que um bar bem próximo, estava aberto. Era um fato fora do comum, pois os bares só costumam abrir depois das nove. Parei para complementar o meu desjejum, assim como outros peregrinos. Saí dali junto com a Mércia e a Mary e andamos juntos algum tempo. A Mércia passou para muitos peregrinos a informação de que em Melide, mais ou menos no meio da etapa daquele dia, havia um restaurante chamado Ezequiel, onde era servido um polvo delicioso.

Cheguei a Melide sozinho e fui procurar o tal restaurante. Ficava na rua principal e justo onde passa o Caminho. Chamava-se Pulperia Ezequiel ( em espanhol polvo é pulpo) e é uma casa cujo único prato é o polvo, servido cortado em pedaços pequenos, para serem pegos com palitos. Estaria ótimo se não fosse apimentado e salgado demais. Eles colocam sal grosso no tempero e chega-se a pegar nos dentes pedaços de sal não dissolvido. Com uma comida ardida e salgada daquele jeito tive de beber mais vinho do que pretendia. O vinho era servido em jarras de barro e bebia-se em tigelinhas também de barro.

Quando cheguei lá já encontrei as duas moças alemãs, Cristiane e Bárbara. Pouco depois chegou a Sílvia com um espanhol, depois a Mércia, o Emerson e outros. Quando acabei de comer pensei na lombeira que iria sentir daí a pouco se continuasse sentado e resolvi ir logo embora. Como meu dinheiro resultante da troca dos cheques de viagem estava acabando, passei numa caixa automática para fazer um saque com o cartão Visa Electron. Não consegui. A máquina emitiu mensagem dizendo que o cartão não era válido.

Como estava na hora da "siesta" e os bancos estavam fechados fui embora , deixando para esclarecer o problema no dia seguinte em Arzua. Por estar sozinho, andei rápido e ultrapassei Mary que não quis comer polvo e foi comer em outro lugar, e também as duas alemãs que saíram do restaurante antes de mim. Depois de umas 2 horas de caminhada, começou um longo trecho de subida. O dia estava bem quente e de repente surgiu uma piscina numa área aberta à beira do Caminho, onde algumas pessoas banhavam-se prazerosamente.

Passada a piscina, a subida tornou-se mais acentuada e após uns 10 minutos encontrei uma fonte jorrando água por um grosso cano dentro de um tanque de pedra. Era irresistível. Encostei a mochila, tirei a camisa e lavei a cabeça e o tórax naquela água bem fria. Foi uma coisa deliciosa e senti-me revigorado. Depois segui até Ribadiso, onde o albergue é o primeiro prédio que se avista ao chegar. Entra-se no pueblo por uma linda ponte sobre o rio Iso. Ao cruzar a ponte senti que deveria ficar ali. O albergue ficava junto ao rio de águas transparentes, cercado de verde, compondo um cenário de beleza indescritível. Mas não era só um lindo lugar. Havia algo imponderável que não se explica, que simplesmente estava lá. E eu fiquei.

A área construída é quase toda em pedra. Somente a área de sanitários e duchas é construção recente. Este albergue é uma linda recuperação do último hospital de peregrinos que funcionou no Caminho de Santiago. Por perto não havia bar nem restaurante nem onde comprar qualquer coisa. O restaurante mais próximo ficava a pouco mais de 1 km dali. Aos poucos foram chegando os conhecidos. Mércia chegou mas não quis ficar pois precisava ir ao banco em Arzua. Sílvia, Emerson e Mary ficaram. As alemãs Bárbara e Cristiane passaram direto mas depois voltaram de táxi, dizendo que o albergue de Arzua era muito ruim. A família espanhola também ficou ali.

Às 8h40min saí para jantar. Chamei Sílvia e Emerson para irem comigo mas eles não estavam a fim de ir longe para comer. Fui só e retornei por volta de 10h30min. Ainda não havia anoitecido. A rua estava deserta. O albergue e arredores adquiriam um ar de encantamento e magia naqueles últimos momentos do dia. Creio que não ficaria surpreso se, de repente, aparecessem fadas e duendes entre aquelas velhas pedras. Que pena que não apareceram!

Ribadiso - 18/06/1998 - Quinta-feira.

O guia apresentava como última etapa do Caminho o trecho de Arzua a Santiago com 38,4 km. Eu e os outros brasileiros concluímos que deveríamos partir esta etapa em duas e chegar a Santiago na sexta-feira. Creio que todos já estavam também com pena de terminar o Caminho. Nestes últimos dias víamos os marcos mostrando a quilometragem decrescente com um misto de alegria e tristeza. A tão desejada chegada a Santiago significava também o término de uma experiência maravilhosa, diferente de tudo que conhecíamos.

Todos os dias é rezada a missa do peregrino na catedral de Santiago de Compostela às 12h. Seria bom chegar na sexta sem pressa e assistir a missa no sábado, descansado e sem mochila. Com esta decisão, a melhor opção era ir naquele dia até Arca, que tem um bom albergue e fica a 18,5 km de Santiago, concluindo o Caminho no dia seguinte. Como a etapa do dia ficou reduzida a 20 km e eu precisava passar no banco em Arzua a apenas 2,5 km dali, não tive pressa em levantar. Já eram 7h20min quando levantei. Mary já tinha saído. Sílvia estava saindo e Emerson estava dormindo.

Arrumei minha mochila devagar e me dirigi à cozinha para o desjejum. Novamente aquela história: fogão elétrico com 10 bocas, 10 ou 12 torneiras de pia, refeitório com 2 grandes mesas e umas 20 cadeiras e não havia um único copo ou xícara para se tomar um café. Então improvisei. Comi o iogurte que trouxe na véspera do restaurante, lavei o copinho e usei-o para tomar o capuccino que preparei numa leiteira que era o único utensílio de cozinha encontrado. Eram 9h quando saí. O Emerson estava levantando e as alemãs estavam prontas para sair. Não havia mais ninguém no albergue.

Rapidamente cheguei em Arzua e entrei no primeiro banco que vi. Era uma agência da Caja de Galicia. Fui até um funcionário que pareceu-me ser o gerente. Disse-lhe que na véspera havia tentado sacar mas não tinha conseguido. Então ele foi comigo até a caixa automática do lado de fora do banco e tentamos fazer o saque. A máquina informava que o cartão estava vencido. Olhamos a validade que era julho de 1999. Tentamos novamente e não conseguimos. Estávamos usando o Visa Electron para sacar da conta corrente. Tentamos com o cartão de crédito e também não deu certo. Então o gerente disse que tentaria, através do computador, fazer uma retirada com o cartão de crédito. Desta vez deu certo. Tirei o dinheiro que precisava e fui embora.

Cheguei cedo ao albergue em Arca. Lá conheci mais duas brasileiras: Maria Helena e Dulce. Lavei a roupa e fui comprar alguma coisa para preparar o jantar no albergue, pois não havia restaurante por perto. Felizmente o albergue possuía uma boa cozinha com todos os apetrechos necessários. Fiz uma sopa de preparo rápido e o Sérgio preparou uma grande salada de conservas, da qual também comi um pouco.

Sérgio é um peregrino pernambucano, residente em Recife, que começou o Caminho um dia antes de mim, também em Saint Jean Pied de Port. Encontramo-nos uma vez em algum albergue ainda próximo do início e depois só fomos nos encontrar de novo muitos dias depois. Compartilhamos vários trechos de caminhada e jantares em restaurantes. Alegre, gozador e sensível aos encantos do Caminho, foi sempre um grande companheiro.

Em algumas ocasiões Sérgio provocava gargalhadas entre peregrinos brasileiros ao pedir o jantar. O garçom aproximava-se da mesa e recitava as opções do menu do peregrino que era quase o mesmo ao longo do Caminho. Sem exceção, todos já estavam com saudade da comida de casa. Então o Sérgio lhe dizia mais ou menos assim: Amigo, como primeiro prato traga cuscuz com carne de charque e uma talhada de queijo de coalho. Como segundo prato, buchada de bode com feijão verde e farofa molhada de ovo. Era muito engraçada a cara de espanto dos garçons na tentativa de entender o pedido.

Arca - 19/06/1998 - Sexta-feira.

Levantei às 7h. Mércia estava fazendo alongamentos. Mary já tinha saído e Maria Helena estava pronta para sair. Os outros brasileiros estavam dormindo. Fiz o desjejum com a Mércia e fui arrumar a mochila. Mércia saiu. Lembrei que tinha coisas para pegar no correio em Santiago. O correio fecha às 2h e só abre no outro dia. O dia seguinte seria sábado e eu não sabia se abriria. Resolvi andar rápido e parar pouco para chegar a tempo. Saí do albergue às 8h30min. Emerson e Sérgio estavam se aprontando.

Após andar uns 10 minutos, vi o primeiro marco de quilometragem do dia. Faltavam 18 km para Santiago. Aos poucos fui sentindo a força daquela marcação decrescente. O segundo marco indicava 16,9 km. Tinha caminhado pouco mais de 10 minutos entre os dois. Isto significava uma velocidade de uns 6 km/h. Se não houvessem muitas subidas, poderia chegar até a pegar a missa das 12h, embora começada. Se tivesse que escolher entre a missa e o correio ficaria com a missa.

Às 9h20min alcancei a Mércia que estava parada escrevendo no diário. Disse-lhe que não ia parar e segui. Os marcos continuavam mostrando a aproximação. Agradeci muito a Deus toda a ajuda recebida até aquele momento. Não tinha dúvida de que em muitos momentos difíceis tive a ajuda necessária. Voltei meu pensamento para casa e agradeci a minha esposa e filhos pela cota de sacrifício que coube a cada um contribuir para que eu chegasse ali. E agradeci também a todos os parentes e amigos que, de uma forma ou de outra, no momento certo, me deram palavras de ânimo, conselhos e orientações.

No momento em que fazia estas últimas anotações, estava sentado em frente a uma igreja em Lavacolla, onde parei para comer uma fruta e descansar por uns 10 minutos. E me veio à memória o carinho e a dedicação dos hospedeiros voluntários que, ao longo do Caminho, empenham-se em ajudar cada peregrino. A todos serei eternamente grato. E ao povo espanhol, que manteve cuidadosamente os pontos pisados, acariciados, contemplados e admirados pelos peregrinos através dos séculos, e em tantos momentos nos deu preciosa ajuda, dediquei o meu profundo agradecimento.

E finalmente, agradeci carinhosamente a todos esses "malucos", de todas as partes do mundo, que deixaram o conforto de suas casas e o carinho de suas famílias, para atravessar o norte da Espanha, carregando peso nas costas, enfrentando frio, calor, vento, chuva, lama, bolhas nos pés e tendinites, buscando chegar a uma catedral distante e levando uns aos outros, como instrumentos de Deus, as lições que o Caminho generosamente oferece.

Esta parada deveria ter sido curta porem acabou durando 1:05 h. A missa estava perdida e o horário do correio também, mas não poderia deixar de registrar no ato estes emocionados agradecimentos. Enquanto eu escrevia, a Mércia passou e seguiu sem parar. Terminando as anotações, retomei o caminho e em pouco tempo encontrei a Mércia descansando num local muito bonito. Parei por alguns minutos e logo senti que ela desejaria estar sozinha. Então segui direto até Monte do Gozo, de onde se avista a cidade de Santiago de Compostela. Lá chegando encontrei um grande grupo de peregrinos espanhóis descansando junto a uma capela fechada.

Deitei-me na relva, com a cabeça apoiada na mochila e fiquei olhando o grande monumento moderno no topo da colina. Queria fazer uma foto mas minha máquina estava sem filme. Resolvi esperar a Mércia, que não deveria demorar, e pedir para fazer algumas fotos com a máquina dela. Os outros peregrinos foram embora e fiquei só. Haviam muitos pássaros de várias espécies cantando. Decidi acompanhá-los com a gaita que meu filho Gabriel me deu para tocar no Caminho de Santiago e que ainda não tinha tocado. Embora fosse um desejo antigo meu, nunca aprendi a tocar gaita e, naquele momento, esperava não assustar os pássaros.

Improvisei um concerto até ficar com a boca e a garganta secas. Os pássaros nem tomaram conhecimento pois continuaram seus gorjeios. Já estava ali há uma hora e nem sinal da Mércia. As alemãs Bárbara e Cristiane passaram e me disseram que viram a Mércia e outros brasileiros parados num bar. Como estava com fome e o albergue de Monte do Gozo ficava perto dali, não esperei mais e fui para lá. Ao chegar fiquei surpreso com tudo que vi. Logo na entrada, chamava a atenção um grande restaurante self-service. Havia também uma porção de lojas, lavanderia e supermercado. Mas para descobrir a administração do albergue, só mesmo perguntando porque não tinha nenhuma indicação. E o mais estranho era que o escritório ficava bem longe da entrada.

Naquele local não funciona apenas o albergue, mas também um camping e um Centro de Convenções, com hospedagem e auditório. São várias ruas começando em uma larga avenida onde ficam as lojas e o restaurante self-service. Há, ainda, um outro restaurante mais sofisticado. Dirigi-me ao prédio do albergue. Lá chegando, encontrei apenas uma faxineira fazendo seu serviço. Ela disse que o hospedeiro chegaria às 16h e que poderia deixar a mochila no escritório e tomar uma ducha. Mas o que eu queria mesmo era comer. Deixei a mochila e fui para o restaurante. Estava cheio apesar de ser bem grande. Creio que estava acontecendo um congresso ou coisa parecida.

Entrei na fila para pegar a comida. Enquanto estava na fila, chegaram Mércia, Sílvia, Emerson e Sérgio. Expliquei a eles onde podiam deixar a mochila e eles saíram. Peguei a comida e cheguei ao caixa. Ali se pegava a bebida escolhida. Eu queria beber um copo de vinho mas só haviam garrafas grandes fechadas. Perguntei se não havia como comprar uma quantidade menor. Então o rapaz que atendia pegou embaixo do balcão uma garrafa de vinho aberta mas cheia, colocou na minha bandeja e disse que aquela seria grátis. Agradeci, paguei a refeição e sentei-me junto com um casal de espanhóis que conheci na véspera, no albergue. Eles já estavam terminando e logo saíram.

Quando já estava quase acabando de comer chegou o Sérgio, já de banho tomado. Disse-me que os outros resolveram seguir direto para Santiago, pegou sua comida e sentou-se comigo. Ficamos conversando até as 16h, quando um garçom nos disse que estava na hora de fechar. Saímos dali e nos dirigimos ao escritório. Eu queria comprar um filme mas as lojas estavam fechadas. Imaginei que abririam às 17h e que seria bom ficar descansando no albergue até abrirem, mas o hospedeiro falou que só abririam às 21h. Então resolvi ir para o albergue de Santiago. Sérgio preferiu ficar um pouco mais. Após obter o carimbo de Monte do Gozo na credencial, iniciei a caminhada do trecho final rumo à Catedral de Santiago de Compostela.

Eram 16h50min quando comecei a descer o Monte do Gozo. Há uma antiga tradição de fazer esta descida cantando uma canção de que se goste. Preferi tocar gaita. E foi tocando gaita que entrei em Santiago de Compostela. Por incrível que pareça, repetia-se ali o problema de falta de sinalização das grandes cidades. Desde a entrada no perímetro urbano não vi mais nenhuma seta. Perguntei a várias pessoas onde ficava o albergue e todas disseram que só conheciam o de Monte do Gozo. Então decidi ir primeiro à Catedral e depois procurar o albergue. Após andar muito, sempre perguntando, cheguei a ela.

Foi uma grande emoção. Cheguei à Catedral por uma de suas laterais. Havia uma grande porta aberta, mas eu queria entrar pela frente. Contornei a igreja, chegando à grande Plaza del Obradoiro, em frente à Catedral, e parei para olhar sua grandiosa fachada. Depois lentamente subi a escada que leva à entrada. Terminando a escada, procurei com o olhar a coluna onde todos os peregrinos põem a mão ao chegar. Vi apenas 3 grossas colunas que não se pareciam com a que eu buscava. Aproximei-me delas, toquei-as e entrei na Catedral. E lá estava ela! Sob o Pórtico de la Gloria, principal jóia arquitetônica da Catedral, marcada por profundos sulcos feitos pelos dedos dos peregrinos através dos séculos, a sonhada coluna estava ali na minha frente, como se estivesse esperando por mim.

Havia muitos turistas em torno dela e fui abrindo caminho entre eles vagarosamente. Foi com lágrimas escorrendo pelo rosto que coloquei minha mão sobre aquelas marcas sagradas. Logo senti-me incomodado com a presença de toda aquela gente e dirigi-me aos bancos para rezar. Caminhei pela nave central em direção ao altar. Antes de chegar ao meio e aos bancos já ocupados, parei e coloquei a mochila no chão encostada num dos bancos e deitei o cajado entre dois deles. Ali ajoelhei-me e rezei por alguns minutos. Depois sentei-me e olhei em volta. Era a maior igreja onde eu havia entrado. Haviam três naves em forma de T e diversas capelas distribuídas pelas laterais. A abóbada, muito alta, dava um toque de grandiosidade. Onde eu estava não chegava o burburinho da entrada e era muito boa a sensação de estar ali.

Pouco depois vi o casal de espanhóis que encontrei no restaurante em Monte do Gozo. Estavam dirigindo-se ao fundo da igreja. Fui atrás deles pois calculei que já deviam saber onde era o albergue. Saíram por uma porta lateral e quase os perdi de vista. Vi que entraram num prédio próximo e fui para lá. Era o Escritório de Ajuda aos Peregrinos, onde se carimba a credencial e recebe-se a Compostela, também chamada Compostelana, um certificado de conclusão do Caminho de Santiago de Compostela. Lá, os funcionários que atendem os peregrinos me explicaram onde era o albergue e me deram uma planta da cidade.

Finalmente, após tantos dias, quilômetros, dores, emoções e lágrimas cheguei em Santiago de Compostela. Era um grande sonho realizado, uma meta atingida, um chamado atendido. Inúmeras vezes, antes e durante a peregrinação, perguntaram-me porque tomara a decisão de percorrer o Caminho de Santiago. E eu respondia contando sobre a reportagem lida e o forte desejo que senti naquela ocasião. Nos olhos de outros peregrinos percebia a compreensão daquela resposta, o que nem sempre acontecia com outras pessoas. E ali, numa das paredes da Oficina de Acogida del Peregrino, estava um poema que respondia aquela pergunta. Era um poema de autor anônimo, certamente um peregrino.

Polvo, barro, sol y lluvia
es Camino de Santiago.
Millares de peregrinos,
y más de un millón de años.
Peregrino, quién te llama?
Qué fuerza oculta te atrae?
Ni el Campo de las Estrellas
ni las grandes catedrales.
No es la bravura navarra,
ni el vino de los riojanos,
ni los mariscos gallegos,
ni los campos castellanos.
Peregrino, quién te llama?
Qué fuerza oculta te atrae?
Ni las gentes del camino,
ni las costumbres rurales.
No es la historia y la cultura,
ni el gallo de la Calzada,
ni el palacio de Gaudi,
ni el castillo Ponferrada.
Todo lo veo pasar
y es un gozo verlo todo,
pero la voz que a mi me llama
la siento mucho más hondo.
La fuerza que a mi me empuja,
la fuerza que a mi me atrae
no sé ni explicarla ni yo.
Sólo El de Arriba lo sabe!

Logo que saí dali, encontrei o Dario. Ele estava esperando terminar a revelação de algumas fotos e iria para o albergue logo depois. Então fui tomar um chope e comer alguma coisa enquanto esperava por ele. Aí apareceu a Mércia e disse que o nosso grupo estava num bar perto dali. De repente alguém chamou a Mércia da varanda de um sobrado ao lado de onde estávamos. Era a australiana Mary, hospedada ali, numa pensão. Nos reunimos e fomos encontrar os outros. Todos estavam numa alegria enorme, pela chegada e pelo reencontro. Conheci mais alguns brasileiros. Todos os peregrinos que se conheciam, mesmo só de vista, congratulavam-se pela chegada, apesar de nem sempre falarem a mesma língua, mas todos se entendiam.

Encontrei Zapatones, um peregrino que já havia visto antes em algum albergue. Ele falou que trabalhava na administração dos albergues e já havia percorrido o Caminho 36 vezes. Morando em Santiago de Compostela, onde nasceu, esteve toda a sua vida envolvido com o Caminho. Muito comunicativo, estava sempre procurando ajudar com informações sobre a cidade. Parecia conhecer todo mundo. Mostrou-nos uma senhora belga de 84 anos que fez o Caminho vindo da Alemanha e tinha chegado por aqueles dias, apresentou-nos duas peregrinas brasileiras recém chegadas que ainda não conhecíamos e ficou um pouco conosco tomando um chope, mas logo foi juntar-se a outros grupos.

Como o albergue fecha à meia-noite e fica um pouco distante da catedral e da área onde concentram-se os bares, restaurantes e os peregrinos costumam encontrar-se, é mais cômodo hospedar-se numa das hospedarias próximas à Catedral, que permitem a cada hóspede ficar com a chave da portaria, possibilitando assim chegar a qualquer hora. Os que aderiram a esta idéia saíram em pequenos grupos procurando um lugar para ficar. Eu, Emerson, Mércia e Sílvia encontramos vagas numa hospedaria quase em frente à da Mary. Tinha um quarto com duas camas e outro com uma só. Mércia e Sílvia ficaram com o duplo e eu e Emerson íamos dividir o outro, pois a dona ia colocar mais um colchão no quarto. Fomos buscar nossas mochilas que estavam num bar e quando voltamos ela disse que ia liberar o quarto onde o neto dela dormia. Desta forma pude ficar sozinho no quarto.

Após acomodar as mochilas, saímos para jantar. Havia muita gente pelas ruas. Muitos turistas, peregrinos e população local. A cidade possui uma universidade, responsável por grande parte dos jovens que víamos. Ver tantos jovens nos chamava a atenção, pois ao longo do Caminho prevaleciam as pessoas de meia idade e mais velhas. Era muito raro ver uma criança, mesmo ali em Santiago. Dirigimo-nos ao restaurante Parador, onde peregrinos munidos de cópia da Compostelana comem de graça num refeitório situado nos fundos do restaurante. Este restaurante fica no Hotel Reyes Católicos e a entrada para os peregrinos é pela garagem, onde um funcionário nos indicou uma porta. A partir daí passamos por outras portas, corredores e escadas, seguindo a indicação de placas onde se lia a assustadora expressão COMEDOR DE PEREGRINOS. Felizmente já sabíamos que, em espanhol, comedor significa refeitório.

Após o jantar, retornamos à hospedaria. Tomei um banho e fui dormir. Os outros saíram para passear e só voltaram às 3h30min.